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Policiais franceses protestam contra acusações de racismo e medidas restritivas de detenção

12/06/2020 17h07

Os policiais franceses fizeram protestos nesta sexta-feira (12) em todo o país contra a restrição do uso da técnica de estrangulamento, conhecida popularmente como mata-leão, nas operações de detenção de suspeitos. A medida foi anunciada no início da semana pelo ministro do Interior, Christophe Castaner, dentro de um plano de "tolerância zero" contra a violência de policiais e o racismo na conduta dos agentes.

Os policiais franceses fizeram protestos nesta sexta-feira (12) em todo o país contra a restrição do uso da técnica de estrangulamento, conhecida popularmente como mata-leão, nas operações de detenção de suspeitos. A medida foi anunciada no início da semana pelo ministro do Interior, Christophe Castaner, dentro de um plano de "tolerância zero" contra a violência de policiais e o racismo na conduta dos agentes.

Em carreata, cerca de 50 policiais atravessaram a avenida Champs Elysées, em Paris, em direção à sede do Ministério do Interior, onde pediram a demissão de Castaner. As manifestações, convocadas por vários sindicatos de funcionários de patrulhamento e delegados, contaram com a adesão de policiais em várias cidades do país. Os policiais franceses se sentem "traídos" pelo ministro, que afirmou haver "suspeitas confirmadas de racismo" na polícia. Eles rejeitam veementemente essas acusações e exigem a demissão imediata de Castaner, um dos mais próximos colaboradores do presidente Emmanuel Macron.

Desde a noite de quinta-feira (11), policiais civis e de brigadas de intervenção fizeram vigílias simbólicas em frente a delegacias, jogando algemas no chão. Eles ameaçam suspender as operações de detenção, caso não possam usar a técnica do estrangulamento, ensinada nas academias de polícia para imobilizar suspeitos que resistem à ordem de prisão. 

Os policiais franceses estão furiosos com a reação do governo à onda de indignação que também tomou conta da França, após o assasinato de George Floyd, nos Estados Unidos.

Em um pronunciamento na última segunda-feira, o ministro do Interior decretou "tolerância zero" ao racismo na corporação. De fato, foram descobertos grupos de policiais racistas que usavam as redes sociais para insultar negros e árabes. Mas, para os policiais que foram às ruas nesta sexta-feira, trata-se de uma minoria. O racismo presente na polícia francesa, segundo eles, é tão representativo quanto o existente na sociedade. Os policiais não toleram as insinuações de que a polícia francesa seria dominada por condutas racistas.

Discriminações persistentes

Nos protestos após a morte de Floyd, coletivos de defesa dos direitos humanos denunciaram as discriminações sistemáticas sofridas pelos moradores das periferias francesas. Jovens negros ou descendentes da imigração árabe, meninos e meninas, reclamaram que são imediatamente associados à delinquência, confundidos com traficantes de drogas, apenas pela cor da pele ou por não terem uma aparência europeia. Os manifestantes também denunciaram uma série de casos de mortes mal esclarecidas em operações de controle da polícia.

Os policiais franceses reconhecem erros e admitem que podem melhorar. Afirmam, no entanto, que perder, da noite para o dia, a possibilidade de usar a técnica mais ensinada nas academias de polícia para imobilizar um suspeito coloca a vida deles em risco diante de criminosos.

Muitos advogados e defensores dos direitos humanos pedem a abolição dos controles de identidade sistemáticos, e às vezes truculentos. Especialistas em segurança pública defendem uma mudança de cultura nas academias de polícia francesas. Mas, hoje, por exemplo, havia várias mulheres policiais nos protestos. Elas disseram que diante de um suspeito fisicamente muito maior do que elas, sobram poucas alternativas para imobilizar a pessoa. O governo francês quer equipar todos os policiais com o Taser, uma arma de eletrochoque de baixa frequência. Mas, por enquanto, apenas 7% dos agentes foram treinados para usar esse equipamento.

Mestiçagem e violência arraigada

O ministro do Interior passou as últimas 48 horas em reuniões com as lideranças da polícia, para negociar uma saída de crise. A maratona de encontros vai até o sábado (13), quando novas manifestações para denunciar o racismo e a violência policial estão previstas em Paris. O debate no país é intenso. Esta semana, o jornal Libération disse que a França comete muitas injustiças, mas discordou que a polícia francesa possa ser tachada de racista.  

O mal-estar entre os franceses e a polícia piorou no ano passado, com a repressão violenta ao movimento dos coletes amarelos. Várias pessoas foram mutiladas, perderam a visão pelo uso excessivo de balas de borracha na dispersão dos protestos. Essa repressão sem precedentes contra um movimento social manchou a imagem da polícia. Hoje, esses mesmos policiais, reclamam de falta de reconhecimento, quando eles também apanharam muito. A crise deriva do comando político, de uma cultura de violência arraigada enquanto país de tradição colonial, segundo historiadores, e do racismo persistente na sociedade, apesar do processo contínuo de mestiçagem dos franceses.

O presidente Emmanuel Macron declarou esta semana que o racismo é "uma doença que atinge toda a sociedade". Ele pediu que os representantes franceses sejam "implacáveis" sobre essa questão e "reforcem as ações" contra o preconceito devido às origens e à cor de pele dos cidadãos. Mas ao falar das manifestações na França, em homenagem a George Floyd e contra as violências policiais, Macron se recusou a participar de qualquer tipo de generalização. Ele defendeu a modernização das técnicas de abordagem e de intervenção da polícia.