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Em tempos de pandemia, Brasil tem presença recorde na Bienal de Arte em Berlim

Cristiane Ramalho

Da Rfi, em Berlim

13/09/2020 09h05Atualizada em 14/09/2020 09h15

Ainda é verão na capital alemã, mas o ar é denso para quem assiste ao vídeo "Marcha a Ré", exibido logo na sala de entrada do Instituto de Arte Contemporânea KW - uma das quatro locações desta 11ª Bienal de Berlim. Gravado em São Paulo, em agosto, com um cortejo fúnebre com mais de cem carros, o filme foi a opção do Teatro da Vertigem para substituir a performance que o grupo faria em Berlim, não fosse a COVID-19.

Dos fones de ouvido higienizados, oferecidos aos visitantes, chega a trilha sonora: sons de respiradores, e o hino nacional tocado de trás para frente. Visto de máscara - item obrigatório nessa Bienal - é ainda mais sufocante.

Na mostra, o filme é apresentado como uma obra que aborda "a necropolítica do regime populista de extrema-direita no Brasil, engajado num genocídio contra a sua própria população". A direção é de Eryk Rocha, com participação do artista plástico Nuno Ramos.

"O projeto é o direito ao luto por essas mais de cem mil vítimas da pandemia, que poderiam ter sido evitadas", diz à Rfi a curadora e crítica de arte Lisette Lagnado, de 59 anos. "É como se a gente estivesse na UTI".

Um imenso estandarte com um rosto de mulher, que se destaca no cortejo em marcha a ré, poderia ser a bandeira desse país de luto. O rosto é uma reprodução de um dos retratos da Série Trágica, de 1947, do artista Flávio de Carvalho (1899 - 1973), que registrou a própria mãe em seus últimos dias de vida, nos anos 30.

"É uma figura que emblematiza essa nação que está morrendo, sem perspectiva de ajuda diante da falta de empatia, e da negligência do poder público em relação à população", diz Lisette. "E o Eryk conseguiu algo muito bonito: quando a imagem da mãe se mexe, parece que ela está respirando. É quase uma sobrevida".

Um fac-símile dos nove retratos da Série Trágica - que provocou escândalo à época, faz parte da mostra e pode ser visto no Martin Gropius Bau.

Flávio de Carvalho, segundo a curadora, foi o ponto de partida para a seleção das demais participações brasileiras: "Flávio foi nosso álibi. Uma espécie de vanguarda entre o modernismo tropical, depois de Tarsila, e o período neoconcreto, ele representa um momento que as pessoas não conhecem muito bem".

Confinamento como lugar de expressão

A priori, não se pensou numa presença brasileira de peso, diz Lisette, que também foi curadora da 27ª Bienal de São Paulo (2006). Mas a participação do país acabou sendo recorde na Bienal, que tem por tema este ano "The crack begins within" ("A fissura começa por dentro").

Entre os convidados para explorar essas fissuras, estão Virginia de Medeiros, Gil DuOdé, Virginia Borges, Pedro Moraleida e Castiel Vitorino Brasileiro. Pinturas do acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, do Rio, e do Museu de Arte Osório Cesar, de São Paulo, também integram a seleção.

São 22 obras dos artistas Adelina Gomes (1916-1984) e Carlos Pertuis (1910-1977), que freqüentaram o ateliê de arte criado, em 1946, pela psiquiatra Nise da Silveira, pioneira na luta antimanicomial no Brasil.

As pinturas revelam a riqueza do universo inconsciente desses pacientes. "De certa maneira, a presença dessas pessoas que viveram tanto tempo confinadas é para nós uma esperança. A de que o confinamento não seja necessariamente uma prisão, mas um lugar de expressão", diz Lisette.

Nacionalismo tóxico

Dentro da temática "Museus Invertidos", voltada para "uma contranarrativa ao discurso hegemônico ocidental", há ainda o Museu da Solidariedade Salvador Allende.

A intenção, diz a curadora, foi trazer para Berlim exemplos de resistência de museus "extremamente vulneráveis" no contexto latino-americano: "Eles tiveram que construir seus acervos a despeito de regimes militares e da falta de apoio e de compreensão dos poderes públicos".

Lisette divide a curadoria da Bienal com a chilena Maria Berríos, a argentina Renata Cervetto, e o espanhol Agustín Pérez. Uma formação que se refletiu na escolha das obras, e na presença privilegiada de artistas desses quatro países.

Lisette justifica: "A Bienal de Berlim não é como a de Veneza, onde há pavilhões nacionais para cobrir o planeta. Nos interessa falar dos nossos contextos. A partir dessas realidades, abordamos temas que nos afligem, como a destruição da noção de patriarcado, as religiões monoteístas, que vêm trazendo fanatismo, e um nacionalismo tóxico, em termos políticos e de diversidade sexual".

Aberta no dia 5 de setembro, a Bienal de Arte Contemporânea de Berlim vai até 1º de Novembro, e pode ser vista ainda na daadgalerie e no ExRotaprint. Por conta das restrições sanitárias da COVID-19, é preciso reservar o ingresso com antecedência, pela internet.