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Le Pen busca aceitação; Bolsonaro e Trump, não, diz historiador sobre a extrema direita

Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, em reunião de 2019 em Washington - Mark Wilson/Getty Images
Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, em reunião de 2019 em Washington Imagem: Mark Wilson/Getty Images

15/09/2020 04h33

Tornar a extrema-direita aceitável, ao normalizar a rejeição do outro, o estrangeiro, e promover o nacionalismo. Sob o comando de Marine Le Pen, a estratégia do partido FN (Frente Nacional), da França, ficou conhecida como "desdemonização" da sigla, buscando apagar as tiradas racistas, antissemitas e xenófobas de seu fundador, Jean-Marie Le Pen.

O historiador Makchwell Coimbra Narcizo, pesquisador da PUC de Goiás, estudou o calculado processo que levou Marine Le Pen ao segundo turno das eleições francesas de 2017, quando perdeu para Emmanuel Macron. Em "Extrema direita francesa em reconstrução: Marine Le Pen e a desdemonização do Front National", Coimbra traça os passos do projeto de poder da herdeira do partido, que chegou a romper com o pai e a mudar o nome da sigla para renovar a sua imagem. Desde 2018, o partido passou a se chamar Reunião Nacional e busca agregar todos os descontentes com o sistema democrático francês, explica o pesquisador.

"A mudança de nome é estratégica porque passa da ideia do choque para a de reunião, ou seja, que capta pessoas de todos os lados", afirma Coimbra, em entrevista à RFI. "A separação dos Le Pen também foi estratégica, teatral. Jean-Marie não atende mais às necessidades políticas e democráticas do século 21: ele é obsoleto, por mais que tenha sido importante para a extrema-direita francesa."

Contra a política tradicional

Neste processo, o partido seduziu eleitores de outras correntes políticas, inclusive da esquerda. Entre os manifestantes coletes amarelos, por exemplo, muitos são eleitores de Le Pen. "Os novos eleitores alegam que Marine não é exatamente o que eles buscam, mas é o que há de alternativa agora", sublinha Coimbra.

Nos últimos anos, a normalização do pensamento de extrema-direita não se limita à França e se espalhou pelo mundo ocidental. O pesquisador ressalta que, neste processo, passou a se distinguir em duas ramificações: a que se esforça para se colocar como "apresentável", a exemplo de Le Pen, e a que não se importa em ser vista como extremista. "Trump e Bolsonaro não buscam se normalizar ou se desdemonizar. O processo é diferente", observa o historiador, que estudou o partido francês por cinco anos e assistiu a dezenas de discursos da líder francesa.

Coimbra lembra que, após a eleição do presidente brasileiro, Marine Le Pen tomou distância de Bolsonaro. "É emblemático que ela tenha dito que 'essa pessoa não seria eleita na França'", indica o autor. "Jair Bolsonaro se parece muito com Jean-Marie Le Pen: fala muito e muito despropositadamente. As falas da Marine são extremamente controladas e afetuosas. Já Bolsonaro e Trump partem para o ataque."

Negação de fatos históricos

O pesquisador analisa ainda o fenômeno crescente de revisionismo histórico, que em países como o Brasil resulta no questionamento da ditadura militar ou distorções sobre o nazismo, entre outros. Coimbra observa que a revisão da história é normal, de acordo com novas documentações descobertas, e a apropriação da história pelos diferentes grupos políticos sempre foi conveniente com seus objetivos. A Frente Nacional, por exemplo, adaptou a personalidade de Joana D'Arc como modelo nacionalista para seus seguidores.

Entretanto, o problema aparece quando ocorre a negação de fatos históricos - como fazia Jean-Marie Le Pen a respeito dos campos de concentração nazistas. "É por isso que, quando tem um governo extremista no poder, historiadores, antropólogos e sociólogos são vistos como inimigos. Eles querem usar a história de uma outra forma que não se conecta com os fatos", destaca Coimbra.

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