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China julga canadenses acusados de espionagem em meio a diálogo tenso com governo Biden

Dois homens, detidos há mais de dois anos na China, são julgados pela justiça do país asiático nesta sexta-feira - Thomas Peter/Reuters
Dois homens, detidos há mais de dois anos na China, são julgados pela justiça do país asiático nesta sexta-feira Imagem: Thomas Peter/Reuters

19/03/2021 06h30

O destino de dois canadenses que Pequim acusados de espionagem começou a ser traçado nesta sexta-feira (19). Os dois homens, detidos há mais de dois anos na China, serão julgados pela justiça do país asiático. Ottawa pede a libertação imediata dos seus cidadãos.

Os dois canadenses foram formalmente acusados de espionagem em junho passado. O julgamento de um deles, Michael Spavor, durou apenas duas horas nesta tarde, no horário local, e a sentença não foi divulgada.

A seção foi realizada a portas fechadas, sem a participação de diplomatas, nem da imprensa. O acusado não pôde, portanto, ser visto. O tribunal de Dandong, no nordeste do país, indicou que o veredicto será comunicado em outro dia.

Spavor, um empresário, foi detido em dezembro de 2018 ao mesmo tempo que outro canadense, Michael Kovrig, cujo julgamento está marcado para segunda-feira (22), na capital chinesa. As prisões ocorreram dias depois da detenção, no Canadá, de uma dirigente da companhia chinesa de telecomunicações Huawei em solo canadense, a pedido dos Estados Unidos. Pequim sempre negou qualquer ligação entre os dois casos.

Um alto diplomata da embaixada canadense na China declarou que seu país está trabalhando "estreitamente" com os americanos obter a libertação de Spavor et Kovrig. "Temos boas esperanças de que, em certa medida, esse processo possa resultar na libertação imediata deles", afirmou Jim Nickel. Ele acrescentou ter ficado "frustrado" por ser impedido de acompanhar a audiência desta sexta-feira e reclamou da falta de transparência de todo o processo.

Enquanto isso, no Canadá, a executiva da Huawei, ameaçada de extradição para os Estados Unidos, acusou nesta quinta-feira Ottawa de destruir provas que poderiam contar a seu favor

Ela se referia a e-mails e mensagens de texto de um ex-policial que participou da sua prisão em 1º de dezembro de 2018, no aeroporto de Vancouver. Os advogados de Meng Wanzhou, diretora financeira da gigante chinesa das telecomunicações, tentam há meses provar que os direitos dela foram violados durante a sua prisão.

China e EUA se reúnem em clima de desconfiança

Os julgamentos começam no mesmo momento em que se iniciou uma série de encontros bilaterais entre americanos e chineses no Alaska (EUA), nos primeiros contatos face a face entre os dois países desde a posse do presidente Joe Biden, em Washington. O clima é de frieza e desconfiança mútuos.

A cidade de Anchorage foi considerada um ponto de encontro mais neutro do que Washington ou Pequim para a cúpula de três sessões, que se encerram nesta sexta-feira. Mas as expectativas de ambas as partes são limitadas.

As duas potências haviam prometido não poupar palavras e a promessa foi cumprida: Estados Unidos e China expuseram nesta quinta-feira (18) suas diferenças irreconciliáveis, em meio trocas de acusações. As maiores autoridades diplomáticas dos dois países se reuniram para debater diversos temas.

"Discutiremos nossas preocupações profundas com as ações da China, incluindo Xinjiang (onde Washington acusa Pequim de 'genocídio' contra os muçulmanos uigures), Hong Kong, Taiwan, ataques cibernéticos contra os Estados Unidos e coerção econômica contra nossos aliados", afirmou ao chegar ao encontro o secretário de Estado americano, Antony Blinken.

Diante da maior autoridade diplomática do Partido Comunista Chinês, Yang Jiechi, e do ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, Blinken afirmou que "cada um destes atos ameaça a ordem baseada em regras que garantem a estabilidade global".

"É por isso que não se trata apenas de assuntos internos e sentimos a obrigação de falar disso", completou.

China não aceita ingerências sobre Hong Kong

A postura chinesa foi igualmente incisiva. "A China se opõe firmemente à ingerência dos Estados Unidos nos assuntos internos chineses e tomaremos medidas firmes em resposta", declarou Jiechi. "O que precisamos fazer é abandonar essa mentalidade da Guerra Fria", completou.

Ao seu lado, o chanceler chinês Wang Yi denunciou as últimas sanções norte-americanas, anunciadas na véspera da reunião, contra o enfraquecimento da autonomia de Hong Kong. "Não é assim que se recebe convidados", protestou. O Ministério das Relações Exteriores chinês alertou que "a China não fará concessões em questões relacionadas à sua soberania, segurança e interesses".

As relações entre Washington e Pequim continuam controversas depois de anos de alta tensão sob a presidência de Donald Trump. O conflito atingiu todos os níveis: comércio, defesa, tecnologia e até mesmo as relações com Hong Kong.

Essas questões são o foco das tensões atuais, assim como os direitos humanos, o tratamento reservado à minoria muçulmana de uigures em Xinjiang e a espionagem. O conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, observou: "Não buscamos conflito, mas aceitamos uma competição acirrada".