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A 30 dias das Olímpiadas, Japão tenta emplacar jogos da 'diversidade e alegria', apesar da pandemia

23/06/2021 07h06

Os organizadores tentam passar a mensagem de que a Tóquio-2020, o maior evento esportivo internacional desde o início da Covid-19, será seguro para todos. Mas a um mês da abertura, as Olimpíadas continuam sendo alvo de críticas e questionamentos nacionais e internacionais, e sem apoio popular.

Os organizadores tentam passar a mensagem de que a Tóquio-2020, o maior evento esportivo internacional desde o início da Covid-19, será seguro para todos. Mas a um mês da abertura, as Olimpíadas continuam sendo alvo de críticas e questionamentos nacionais e internacionais, e sem apoio popular.

Juliana Sayuri, correspondente da RFI no Japão

Nesta quarta-feira (23), o diretor-executivo da Tóquio-2020, Toshiro Muto, disse que, até agora, não se cogita cancelar ou adiar o megaevento esportivo. A um mês da abertura das Olimpíadas, marcada para 23 de julho, o Comitê Organizador revelou os dois cartazes oficiais que visam imprimir a marca de "diversidade, alegria e solidariedade" aos eventos: um para as Olimpíadas, outro para as Paraolimpíadas.

Além do discurso oficial, entretanto, diversidade, alegria e solidariedade são palavras que despertam discussões acaloradas no país-anfitrião devido à pandemia de Covid-19, que provocou o adiamento histórico dos jogos de 2020 para 2021. 

Sobre a diversidade, o país, que está prestes a abrigar um megaevento esportivo que se pretende plural e com a participação de atletas trans pela primeira vez (a neozelandesa Laurel Hubbard foi a primeira confirmada), arquivou a lei que tornaria inaceitável a discriminação contra LGBTs no arquipélago. Neste mês, o projeto foi retirado pelo partido do premiê Yoshihide Suga e oficialmente engavetado, frustrando expectativas de ativistas e aliados. Manifestações políticas também não serão permitidas durante os jogos, o que inclui referências a direitos LGBT e ao movimento Black Lives Matter.

Alegria, por sua vez, talvez não seja a melhor palavra para descrever o clima da capital japonesa, onde muitos moradores estão apreensivos com a possibilidade de uma "onda olímpica" com o desembarque das delegações estrangeiras e a abertura das competições a até 10 mil espectadores.

No domingo (20), a Vila Olímpica foi aberta à imprensa e o governo japonês encerrou o estado de emergência em Tóquio e outras oito províncias. A restrição vale agora apenas para Okinawa, até 11 de julho.

Primeiro atleta contaminado

Também no domingo foi confirmado o primeiro diagnóstico de Covid-19 de um participante olímpico: entre os 9 integrantes da delegação de Uganda, um deles testou positivo e foi isolado. Os demais viajaram para a cidade de Izumisano, no sul de Osaka, onde vão ficar em quarentena, se aclimatar e depois treinar até o início dos jogos. Uganda é a segunda delegação estrangeira a desembarcar. A Austrália foi a primeira.

Por fim, a solidariedade é colocada à prova ante as diretrizes que visam viabilizar jogos seguros, dentro e fora da bolha olímpica.

Jogos seguros?

Dentro da bolha olímpica, são questionados os protocolos em caso de focos de contaminação de Covid-19 e o cumprimento à risca das restrições de circulação de pessoas, circunscrita às instalações olímpicas. Nos últimos dias, também foram discutidas questões sobre as interações com distanciamento social dentro da Vila Olímpica, onde o consumo de bebidas alcóolicas será permitido, mas a distribuição de 150 mil preservativos foi cancelada para não incentivar a aglomeração de atletas.

Fora da bolha olímpica, a incerteza é com a aglomeração de fãs, diante da decisão dos organizadores de abrir as arenas ao público. Mas apenas japoneses e estrangeiros já residentes no Japão poderão assistir aos jogos visto que desde março o comitê vetou turistas estrangeiros. Na terça (22), os organizadores também sinalizaram que estão considerando permitir a venda de bebidas alcóolicas nos estádios. As regras, porém, ainda não foram definidas.

Já fora dos estádios, no atual estado de quase-emergência (ou atenção), os bares de Tóquio só podem servir bebidas alcóolicas se os clientes forem beber sozinhos ou ao lado de apenas um acompanhante, por até 90 minutos e no máximo até as 19 horas. O governo de Tóquio também cancelou as "fan zones", instalações nas ruas que teriam telões para assistir aos jogos, convertendo alguns deles em centros de vacinação contra covid-19.

Vacinação lenta

Desde o início da pandemia e até esta quarta-feira, 23 de junho, o Japão contabiliza mais de 780 mil casos e 14 mil mortes por Covid-19. Os números são relativamente baixos, se comparados com países como o Brasil, que ultrapassou a marca de 500 mil mortos, ou a França, com 111 mil óbitos devido ao vírus.

Entretanto, diferentemente de outros países, principalmente do G7, o Japão está conduzindo uma campanha de vacinação ainda considerada lenta. Até agora, apenas 7,7% de sua população foi inteiramente imunizada com duas doses de vacinas.

Após os organizadores divulgarem a decisão de permitir até 50% da ocupação das arenas, com até 10 mil espectadores nas arquibancadas, contrariando recomendações de especialistas da área médica, a OMS (Organização Mundial de Saúde) disse que quer discutir ações de controle junto a autoridades japonesas e o COI (Comitê Olímpico Internacional) para minimizar os riscos de infecção e novos surtos.