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"Brasil tem 66% do seu território igual a quando Jesus Cristo veio à Terra", diz ministro do Turismo

30/07/2021 14h15

Em Roma para participar do G20 da Cultura, o ministro brasileiro do Turismo, Gilson Machado Neto, nega o aumento das queimadas na Amazônia. Ele acusa o presidente francês, Emmanuel Macron, de ter fomentado uma imagem negativa do Brasil.  

Em Roma para participar do G20 da Cultura, o ministro brasileiro do Turismo, Gilson Machado Neto, nega o aumento das queimadas na Amazônia. Ele acusa o presidente francês, Emmanuel Macron, de ter fomentado uma imagem negativa do Brasil.  

O ministro Gilson Machado Neto está em Roma para participar do G20, que começou quinta-feira (29) e termina nesta sexta-feira (30). Ele foi à capital italiana acompanhado pelo secretário da Cultura, Mario Frias. Este ano a Itália assumiu a presidência rotativa das reuniões do grupo, que reúne os 19 países mais ricos do mundo e a União Europeia.

Machado Neto encontrou a RFI Brasil na sede da embaixada brasileira em Roma. Recentemente ele lançou a campanha "Turismo de natureza", com o slogan "Viaje pelo Brasil. Gigante pela própria natureza".

"O Brasil é o país do G20 mais preservado. É o que tem o percentual do seu território igual a quando Jesus Cristo veio à Terra. Para quem não sabe, o Brasil tem 66% do seu território igual a quando Jesus Cristo veio à Terra," afirmou o ministro.

Enquanto a imprensa internacional publica frequentemente notícias sobre os biomas incendiados, queimadas no Pantanal e na Floresta Amazônica, Machado Neto propôs organizar uma viagem aos jornalistas estrangeiros para visitar a Amazônia.

"O Brasil é sim preservado. Qualquer jornalista francês, alemão, italiano, eu faço questão de fazer uma press trip para a gente sobrevoar a Amazônia, para ele ver que 6 quilômetros de rio têm preservação total. Que 86% do território da Amazônia está igual quando Jesus Cristo veio à Terra, 86%", ressaltou.

Em 2021, a Amazônia teve o maior número de focos de queimadas para mês de junho dos últimos 14 anos. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), foram 2.308 focos, maior registro para o mês passado desde 2007. Entre maio e junho deste ano, houve um aumento de 98% nesse índice. Além disso, o total foi 2,6% maior que o de junho de 2020, que já havia registrado o recorde histórico.

"Os dados satelitais não mostram que houve um aumento de queimadas este ano e nem no ano passado. Pelo contrário, houve redução. Pode ter tido em alguns países da América Latina, inclusive os Estados Unidos tiveram muito mais aumento de queimadas este ano."

Machado Neto disse que os investidores estrangeiros acreditam no Brasil.

"O que eu acho estranho é que, apesar destes dados que a Amazônia acabou, que a Amazônia está queimando, uma operadora francesa, a Vinci (Vinci Airports, braço do Grupo Vinci n.d.r), comprou o aeroporto de Manaus, já que ela não acredita no potencial turístico do Brasil. Nós tivemos uma venda recente de 22 aeroportos no Brasil. Esperávamos em torno de R$ 600 milhões em arrecadação, tivemos 18 vezes o valor da arrecadação na concessão destes aeroportos. Isso mostra que no mundo todo os investidores estão acreditando no Brasil. Mostra que o Brasil é a bola da vez no turismo de natureza. Mostra que não tem país no mundo mais preservado do que o Brasil, que diga-se de passagem."

Críticas a Macron

Em seguida, o ministro criticou diretamente o presidente da França, Emmanuel Macron, por causa de um post no Twitter publicado em 22 de agosto de 2019. A mensagem convocava a cúpula do G7 em Biarritz, que começou dois dias depois, no sudoeste francês, para discutir as queimadas na Amazônia.

"Nossa casa está queimando. Literalmente. A Floresta Amazônica - os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta - arde em chamas. É uma crise internacional. Membros da Cúpula do G7, vamos discutir essa emergência de primeira ordem em dois dias! #ActForTheAmazon", escreveu Macron em inglês.

A foto postada por Macron foi feita pelo fotógrafo americano Loren McIntyre, que morreu em 2003. Desde a década de 70 ele esteve em expedições na Amazônia trabalhando para a National Geographic. Em 1991, o fotojornalista publicou um livro sobre a Amazônia. A foto está à venda no banco de imagens Alamy.

Gilson Machado Neto mostrou uma imagem no seu celular em que criticava Macron, afirmando que a mensagem do presidente francês era "fake news".

"Já que nós temos o privilégio de falar com uma empresa francesa, eu queria lhe mostrar uma foto que causou enorme prejuízo ao Brasil, o meu país. Uma foto que foi publicada no Twitter do presidente francês, senhor Emmanuel Macron, dizendo "Our house is burning. Literally" (Nossa casa está queimando. Literalmente n.d.r)  Como se o Brasil fosse a casa dele", disse o ministro, que continuou lendo em voz alta o tuíte em inglês, intercalando seus comentários em português.

"The Amazon rain forest - the lungs which produces 20% of our planet's oxygen (A floresta Amazônica - os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta, n.d.r). Aqui ele mostra que não entende nada, porque todo o oxigênio que a floresta produz, ela neutraliza de noite, como qualquer vegetal na face da terra. Is on fire (arde em chamas n.d.r). Já pensou se ele dissesse isso da Califórnia. O pior é que a foto que ele postou como sendo atual foi de um fotografo que morreu em 11 de maio de 2003."

Gilson Machado Neto atribui ao presidente Emmanuel Macron a maior culpa pelos danos à imagem do Brasil. Ele se aproximou da telecâmera da nossa reportagem para mostrar a imagem do seu celular e falar em inglês aos franceses.

"Vou mostrar aqui para o pessoal da França ver. French people you can see that, ok? What your president did with my country. (Franceses vocês podem ver isso, ok? O que seu presidente fez com meu país, n.d.r) Com isso perdemos bilhões de dólares no turismo, nos cancelamentos de reserva, isso sim é um absurdo. Isso não vai ficar de graça. Isso não pode ficar de graça. Porque isso é um fake news. Depois disso, Madona, Leonardo DiCaprio, Cristiano Ronaldo, o mundo criou a crise da Amazônia no Brasil."

Pandemia

O ministro salientou o impacto da pandemia nas viagens internacionais.

"O setor turístico no mundo foi o mais abalado, não resta dúvida. Eu entrei hoje na Basílica de São Pedro e o fluxo é de 10% do que seria quando era normal aqui na Itália."

Em sua opinião, as medidas do governo têm incrementado a confiança no setor turístico.  

"No Brasil, apesar de tudo, o Ministério do Turismo saiu na frente com o selo de segurança ao turismo, turismo seguro e responsável. Nós habilitamos os hotéis e operadores turísticos a terem os protocolos de segurança. Isso tem dado certo. Isso tem aumentado a confiança do turista e a nossa malha hoteleira e a malha aérea já chega perto da normalidade hoje. Como já estava perto da normalidade. Antes da segunda onda da pandemia em dezembro de 2020, nós tivemos em torno a 85% de malha aérea recuperada. Hoje estamos com 70% da malha aérea interna brasileira recuperada. Tá voltando ao normal a vida no Brasil, como no resto do mundo que já foi vacinado."

De acordo com o ministro, com a pandemia, os brasileiros deixaram de gastar com viagens internacionais para descobrir o Brasil.

"Nós temos 11 milhões de brasileiros, mais do que a população da Suíça, que não viajavam pelo Brasil. Esse brasileiro que viajava, deixava US$ 19 milhões no exterior, alguns deles tinham vergonha de dizer que viajavam pelo Brasil. Seria status viajar para o exterior. Agora eles estão descobrindo o Brasil. De 15 anos para cá o Brasil mudou muito."

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o Brasil entre os países com maior número de contaminações e mortes por Covid-19. O país registra 550 mil óbitos desde o início da pandemia. Interpelado sobre a confiança do turismo internacional na gestão da pandemia pelo governo de Bolsonaro, ele respondeu:

"O Brasil entrou agora no Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo com 16 votos dos 20 possíveis. Se nós tivéssemos conduzindo mal a pandemia, não teríamos conseguido. Agora tem uma grande parte da imprensa, principalmente a imprensa brasileira, que não pensa no Brasil, não pensa na economia e trabalha contra o governo federal. A realidade é essa.

Faço questão de levar qualquer pessoa da Itália ou da França para ver como estamos tratando a pandemia. O Brasil está sim fazendo o dever de casa como nenhum país da América Latina fez."

Ele reiterou as insinuações de que os dados sobre as vítimas da Covid-19 no Brasil foram distorcidos.

"O Brasil hoje não teve quase nenhuma morte de dengue. Será que tudo que morre no Brasil é Covid? Qual é o índice de dengue em São Paulo? Como jornalista, tenha curiosidade e faça o índice de dengue em São Paulo em 2019 e faça o de 2020."

Países europeus e também os Estados Unidos avaliam a possibilidade de adotar a obrigatoriedade do passaporte sanitário para viajar.

"O Brasil é um país livre, diferente da Europa que cada vez mais está tendo ações que cerceiam a liberdade do seu cidadão. Liberdade acima de tudo no nosso país. Nós vamos disponibilizar certificado digital a todos os brasileiros que se vacinarem como já tem desde 2019, temos o Conecte SUS. No Brasil você só se vacina se quiser."

O ministro disse ainda que o governo não tem intenção de exigir do turista um certificado de vacinação, que o teste PCR seria suficiente para ingressar no país. Para ele, "quando uma pessoa é vacinada, não precisa do teste".

Estudos científicos demonstram que mesmo as pessoas imunizadas podem contrair a doença, ter uma infecção mais leve ou sem sintomas, transmitir o vírus e, até, vir à óbito. Os testes servem para verificar se o indivíduo vacinado está contaminado.

"Se o turista quiser levar o seu certificado digital, pode ser mais um instrumento para evitar que ele faça o PCR. Porque se ele já foi vacinado há mais de 16 dias, ou se ele já teve a doença há mais de 6 meses, não tem pra que ele estar fazendo PCR. Como aqui na Europa que, apesar de eu ter o certificado de vacina, sou obrigado a fazer. Isso biologicamente é desnecessário."

Mensagem ao G20 da Cultura

O ministro falou que quer divulgar as riquezas culturais do Brasil nas reuniões do G20.

"O europeu vai muito para o Brasil para o turismo cultural, o turismo histórico. O Brasil tem uma história muito junta até porque o Brasil veio de Portugal. Tem uma tradição cultural enorme. Por exemplo, a minha família veio da Itália. Meus avós paternos são portugueses e meus avós maternos italianos. A gente tem uma cultura muito grande de templos, igrejas, equipamentos históricos muito fortes. Além disso, temos a nossa música que não é só Bossa Nova. Temos a nossa gastronomia, produzimos ótimos vinhos."

O secretário da Cultura, Mario Frias, reiterou as declarações do ministro do Turismo sobre o G20. Em sua opinião, o governo está democratizando a cultura.

"Uma das coisas que o presidente Bolsonaro me pediu quando eu assumi a Cultura foi que a cultura chegasse nos quatro cantos do Brasil, que a cultura fosse de certa maneira democratizada. A gente teve nas últimas décadas no Brasil um investimento em torno de R$ 14 a 15 bilhões, dos quais 78% destes recursos concentraram em 10% dos proponentes. Isso mostra com dados de pesquisa que havia uma centralização. A preocupação do presidente com a cultura era exatamente essa."

Ao mesmo tempo que Mario Frias criticou a centralização dos recursos, ele defendeu o novo decreto que muda a Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet. O documento inclui arte sacra e 'belas artes' na Lei Rouanet e estabelece maior interferência do governo federal na aprovação de projetos patrocinados e centraliza decisões.

"O que a gente viu nas últimas década foi a centralização em nome do rei. A gente não viu a cultura impulsionando teatros, um pequeno produtor de cinema, o circo, muitos setores da cultura não foram beneficiados com a Rouanet. A Rouanet é um incentivo federal que uma empresa do Estado de São Paulo ou do Estado da Bahia podem utilizar, mas o recurso da Lei Rounet é proveniente do governo federal. É um recurso de que o governo federal abre mão para que seja convertido em um incentivo à cultura."