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Filme brasileiro estreia na França desafiando sexismo gaúcho com retrato pungente de afeto proibido

04/08/2021 14h01

O filme brasileiro "A Primeira Morte de Joana" estreia nesta quarta-feira (4) no circuito francês com distribuição da Epicentre Films e com o título "Secret de Famille". A película, que leva a assinatura da diretora gaúcha Cristiane Oliveira, percorreu uma série de eventos internacionais e, depois do lançamento na França, vai para o Festival de Gramado. No coração do enredo, uma pré-adolescente do sul do Brasil, marcado pelo machismo e sexismo, que faz suas primeiras [e livres] descobertas amorosas.

O filme brasileiro "A Primeira Morte de Joana" estreia nesta quarta-feira (4) no circuito francês com distribuição da Epicentre Films e com o título "Secret de Famille". A película, que leva a assinatura da diretora gaúcha Cristiane Oliveira, percorreu uma série de eventos internacionais e, depois do lançamento na França, vai para o Festival de Gramado. No coração do enredo, uma pré-adolescente do sul do Brasil, marcado pelo machismo e sexismo, que faz suas primeiras [e livres] descobertas amorosas.

Em "Secret de Famille", ou "A Primeira Morte de Joana", Cristiane Oliveira centra o roteiro numa cidade do sul do Brasil, onde uma pré-adolescente começa a experimentar suas primeiras descobertas amorosas investigando afetos fora do permitido e do "autorizado", vivendo a transversalidade da morte de uma misteriosa tia que vai questionar a protagonista (Letícia Kacperski) durante todo o filme, e desdobrando um roteiro com uma galeria de personagens femininas fortes.

Se no primeiro longa, o multipremiado "Nalu on the border" (2016), o "momento do final da adolescência significava um momento de transgressão, de ruptura com o passado e a escolha de um novo caminho", a Joana de "Secret de Famille" ainda tateia suas emoções sob o jugo crítico de uma típica família de ex-colonos, onde o alemão pode ser língua corrente entre amigas de infância. "A transgressão com o meio social já estava presente desde o primeiro filme", lembra a diretora.

Outro eixo de tensão no filme é a realidade local vista pelo olho crítico dos estrangeiros, ou mesmo de nativos que moram fora do povoado. Um olhar que joga luz sobre a violência do conservadorismo e do sistema patriarcal, principalmente entre os jovens. "O olhar que vem de fora traz um distanciamento e uma visão crítica. No caso de Joana, a amiga quem vem de fora ("Carolina", vivida por Isabela Bressane) traz essa outra realidade de Berlim, onde as meninas 'podem fazer topless no parque', uma série de referências que abalam a protagonista", diz Oliveira.

Centralidade gaúcha da figura masculina

Para a diretora, a vontade de retratar vozes potentes do universo feminino em sua filmografia vem também do fato de ser gaúcha. "Em especial fazendo uma conexão com o fato de eu ser do Rio Grande do Sul, de ter nascido em Porto Alegre, com a influência dessa cultura gaúcha que coloca muito a centralidade na figura masculina", conta. "Existe por exemplo um movimento tradicionalista gaúcho e nos bailes há um monte de regras (...), as mulheres não podem entrar de minissaia, ou seja, o corpo feminino é um problema e aos poucos a gente vai entendendo o que é posto nessa cultura que vai colocando a mulher nesse lugar", diz.

A personagem de Joana se envereda por suas primeiras tentativas amorosas, no entanto, com a sede de quem ainda não tem a carapaça forjada pela rigidez dos preconceitos da sociedade onde vive. "Nesse filme, temos três gerações de mulheres, cada uma com sua visão de mundo, que se chocam entre elas, e a Joana vem para naturalmente colocar tudo isso em xeque. Ela vive sentimentos que são naturais e não consegue aceitar restrições que vêm de fora pelo olhar preconceituoso dos adultos", resume. "Tem também a minha vontade de mostrar como esse sexismo reflete nas próprias ações dessas mulheres", lembra.

"O filme se passa em 2007, mas dialoga com os dias de hoje no Brasil, pois evoca a necessidade de informação sobre sexualidade para que os jovens não sejam vítimas de violência. E vemos hoje políticos brasileiros conservadores que tentam proibir o ensino sobre gênero e sexualidade nas escolas em nosso país", defende a diretora Cristiane Oliveira. 

Sobre a visibilidade de diretoras mulheres no cenário cinematográfico brasileiro, Cristiane Oliveira diz que "a conquista desse mercado de trabalho é historicamente recente. Para todas as áreas, não só para o audiovisual. Ainda estamos num processo de busca de paridade, mas já temos muitos exemplos de mulheres com reconhecimento e trajetória internacional. No entanto, ainda temos chão pela frente para que isso se torne mais equalitário e que se estenda também a outras funções do audiovisual, porque às vezes nas funções ligadas à técnica, à elétrica, ao maquinário, à fotografia, ainda existe um preconceito como se fossem dos homens", aponta.

"Secret de Famille" em sua versão francesa, ou "A Primeira Morte de Joana", para o Brasil, estreia no Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul, que acontece entre 13 e 21 de agosto. Para ver o trailer do filme, clique no vídeo abaixo.