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Harish, primeira cidade projetada de Israel, atrai brasileiros

16/10/2021 11h18

Uma nova cidade em Israel, que não existia há apenas cinco anos, está atraindo cada vez mais brasileiros. Harish, no Norte do país, conta, atualmente, com 30 mil habitantes, entre eles, aproximadamente 120 famílias de brasileiros.

Uma nova cidade em Israel, que não existia há apenas cinco anos, está atraindo cada vez mais brasileiros. Harish, no Norte do país, conta, atualmente, com 30 mil habitantes, entre eles, aproximadamente 120 famílias de brasileiros.

Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel

Harish é a primeira cidade projetada de Israel. Em 2015, o local abrigava apenas um pequeno vilarejo que já havia sido um kibutz e uma base militar, no passado. Mas, em 2015, pressionado por uma crise de habitação cada vez mais grave, o governo israelense decidiu investir 1,2 bilhão de shekels (cerca de R$ 2 bilhões) para criar uma cidade de 100 mil habitantes.

A ideia era atrair moradores para a periferia Norte do país oferecendo preços mais em conta, principalmente para famílias jovens em busca do sonho da casa própria. É o que conta o administrador de empresas paulista Gabriel Eigner, 66 anos, que mora em Harish desde 2017, pouco tempo depois de imigrar para Israel.

"Quando eu cheguei aqui, ainda era um mega canteiro de obras", conta Gabriel. "Nós fomos a terceira família de brasileiros aqui em Harish. E quando eu cheguei aqui era uma loucura, tinha menos de 5 mil habitantes, 4,7 mil".

Gabriel e a companheira, a artista plástica Annik Chut, 54 anos, se tornaram porta-vozes da comunidade brasileira local. Eles criaram um grupo de WhatsApp e uma página no Facebook só com os brasileiros de Harish, que costumam realizar atividades e, principalmente, se ajudar uns aos outros.

Eles também intermediam visitas à cidade a interessados em adquirir ou alugar imóveis. Recebem telefonemas diários de brasileiros e latino-americanos em geral curiosos para conhecer o local. "Não sei te dizer exatamente quantos ligam, mas ligam toda hora, tanto pessoas daqui de Israel e também pessoas que estão no Brasil", diz Gabriel. "Hoje eu falo com gente de praticamente todos os países da América Latina que me ligam e que querem informação".

Sonho da casa própria

Uma das novas moradoras de Harish é a servidora pública e microempresária de turismo Mônica Asif, de 42 anos, que se mudou para a cidade há um mês. Ela, o marido e os dois filhos adolescentes pagavam um aluguel alto para morar nos arredores de Tel Aviv e viam o sonho da casa própria cada vez mais distante. A solução foi fazer as malas e apostar na nova cidade, onde puderam, com ajuda de financiamento, comprar um apartamento grande e novo por um terço do preço do centro do país.

"A primeira grande vantagem realmente é o preço, porque, como é uma cidade que ainda está em desenvolvimento, as pessoas ainda não conhecem muito bem, o transporte público ainda não está muito desenvolvido. Então as pessoas tendem a não tentar essa vida que tem algumas dificuldades. Mas em relação ao preço, você acaba ganhando e você também vê como um investimento futuro", diz Mônica.

Harish fica a 70 km de Tel Aviv e a 50 km de Haifa, outra grande cidade do país. A localização pode ser um problema para quem trabalha fora dela, mas os preços são o maior atrativos para os brasileiros em Israel, principalmente os imigrantes recentes.

Segundo a carioca Mônica Asif, os imigrantes - ou olim, em hebraico - chegam ao país para morar, pelos primeiros meses, em centros de absorção oferecidos pelo governo localizados em grandes cidades. Mas, após algum tempo, percebem que o custo de vida é muito alto.

"Eles começam uma vida lá, uma vida de novo imigrante numa cidade que, futuramente, fica cara para eles", argumenta Mônica. "Então eles descobrem que eles não têm condições de ficar no Centro de Israel, nessas cidades grandes, e vão procurar a periferia".

Pandemia

Foi o que aconteceu com a pedagoga paraibana Rafaela Genes, de 29 anos. Ela e o marido, que é pernambucano, chegaram em 2018 a Israel. Mas após dois anos morando nos arredores de Tel Aviv, onde trabalham, se mudaram para Harish, onde alugam um apartamento de quatro quartos que valeria quatro vezes mais no Centro.

Os dois já "namoravam" Harish há tempos, mas o que levou o casal a bater o martelo para a mudança foi a pandemia do coronavírus, em 2020. Isso porque a orientação inicial de trabalhar remotamente transformou as distâncias em algo menos relevante.

"Para o meu esposo, esse foi o clique necessário, foi o que fez mesmo a gente mudar", conta Rafaela. "Como ele não precisava mais ir para o escritório, como a recomendação era não ir para o escritório, não tinha por que a gente continuar no apartamento menor, onde a gente pagava muito mais".

Rafaela gosta do ritmo mais lento da cidade. Ela acredita que as pessoas, por lá, são mais abertas e pacientes, principalmente com imigrantes que ainda aprendem a dominar o hebraico, a língua local.

Ela nota que a cidade tem muitos imigrantes, como ela. Russos, franceses, americanos, etíopes e latino-americanos em geral. Ela diz escutar português frequentemente nas ruas: "Aqui todo mundo fala português. Eu estava no supermercado e uma mulher veio falar comigo, pedindo ajuda. Ela me mostrou o Google Translate e aí eu vi que estava em português. Eu falei: 'você é brasileira?' Ela: 'sou!'. Todo lugar que você vai tem brasileiro".

Polêmicas

A criação de Harish não ocorre sem polêmicas e atritos. Uma questão é o caráter judaico da cidade, que fica em um distrito de Israel habitado, em sua maioria, por cidadãos árabes, que são 21% da população do país. Alguns afirmam que Harish foi criada justamente para aumentar a proporção de judeus na área.

Outra questão é a religiosa. Desde o começo das obras, há um cabo de guerra pelo caráter da nova cidade. De um lado, grupos de judeus ultraortodoxos, mais conservadores e com estilo de vida estrito, do outro, os seculares, mais progressistas e que não seguem regras religiosas. No final das contas, ficou resolvido que Harish seria uma cidade aberta a todos. Para Rafaela Genes, a convivência é pacífica:

"Nós temos pessoas religiosas, pessoas não-religiosas, pessoas com bandeiras LGBT no prédio", conta a pedagoga. "Então a gente tem uma variedade de pessoas convivendo nessa diversidade e todo mundo convive muito bem".