Em cúpula do Brics, Lula diz que é preciso evitar que conflito entre Israel e Hamas se alastre

Apelos a "ações urgentes" e a um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza para poupar os civis e encontrar uma solução estável para a região foram lançados nesta terça-feira (21) pelos países membros do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) durante uma cúpula virtual extraordinária. Em seu discurso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que é preciso evitar que o conflito entre Israel e o grupo palestino Hamas se alastre para os países vizinhos.

Lula lembrou ter pedido, em diversas ocasiões, pela libertação imediata de reféns israelenses nas mãos do Hamas. Mas disse que nada justifica "o uso da força indiscriminada e desproporcional contra civis". "Estamos diante de uma catástrofe humanitária. Os inocentes pagam o preço pela insanidade da guerra, sobretudo mulheres, crianças e idosos", disse Lula. 

"Devemos atuar para evitar que a guerra se alastre para os países vizinhos. É valiosa e imprescindível a contribuição do Brics, em sua nova configuração, junto a todos os atores em favor da autocontenção e da desescalada", disse. 

"Temos longa experiência nacional que reforça nossa fé na paz criada por justa negociação diplomática. Em segundo lugar, não podemos esquecer que a guerra atual também decorre de décadas de frustração e injustiça, representada pela ausência de um lar seguro para o povo palestino", acrescentou. 

Para o presidente, os assentamentos ilegais israelenses na Cisjordânia continuam a ameaçar a viabilidade de um Estado palestino. "O reconhecimento de um Estado palestino viável, vivendo lado a lado com Israel, com fronteiras seguras e mutuamente reconhecidas, é a única solução possível. Precisamos retomar com a maior brevidade possível o processo de paz entre Israel e a Palestina", defendeu.  

Neste momento, de acordo com Lula, o desafio é fazer com que a trégua humanitária determinada pela resolução da ONU seja implementada imediatamente. No último dia 15, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a primeira resolução relativa à atual crise humanitária na Faixa de Gaza.

O texto pede a implementação de pausas e corredores humanitários urgentes e prolongados em toda a Faixa de Gaza por um número suficiente de dias, para que ajuda humanitária de emergência possa ser prestada à população civil por agências especializadas da ONU e organizações humanitárias internacionais. 

Unir esforços

Durante a cúpula, o presidente russo, Vladimir Putin, pediu à comunidade internacional para "unir esforços para acalmar a situação", garantindo que o bloco "poderia desempenhar um papel fundamental neste trabalho".

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O líder chinês, Xi Jinping, exigiu que cada parte "ponha fim a toda a violência e ataques contra civis" e que liberte "detidos civis para evitar mais perdas de vidas e mais sofrimento", sem mais detalhes. Ele também pediu a realização de uma "conferência internacional pela paz" para encontrar "uma solução justa para a questão da Palestina".

O sul-africano Cyril Ramaphosa, anfitrião da cúpula, denunciou "a punição coletiva de civis palestinos através do uso ilegal da força por parte de Israel", descrevendo-a como um "crime de guerra". "A recusa deliberada de fornecer medicamentos, combustível, alimentos e água ao povo de Gaza equivale a um genocídio", acrescentou.

Ele solicitou "ações urgentes e concretas para acabar com o sofrimento em Gaza". Além de um cessar-fogo "imediato e completo", ele apela ao envio rápido de uma força da ONU, para "monitorizar a cessação das hostilidades" e "proteger os civis". Ramaphosa também pediu a "todos os países" para "mostrar moderação e parar de alimentar este conflito", em particular "parando de fornecer armas às partes".

Um acordo sobre a libertação de reféns detidos em Gaza em troca da libertação de prisioneiros palestinos, assim como uma "trégua", parece próximo, anunciaram fontes palestinas e o Catar nesta terça-feira.

Pretória anunciou na segunda-feira esta reunião extraordinária dos Brics, que fazem campanha por um equilíbrio global menos influenciado por Washington e pela UE. Ramaphosa disse que a cúpula "ficou sem tempo" para chegar a uma declaração conjunta.

Investigação do TPI

A África do Sul, fervorosa defensora da causa palestina, é um dos países mais críticos dos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, em retaliação aos ataques do Hamas em Israel, em 7 de outubro.

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Ramaphosa solicitou na sexta-feira a quatro outros Estados uma investigação do Tribunal Penal Internacional (TPI) sobre esta guerra.

Pretória também anunciou no início do mês que tinha chamado de volta os seus diplomatas em Israel para consultas. Na segunda-feira, Israel, por sua vez, anunciou a retirada do seu embaixador na África do Sul.

A China, que também apoia uma solução de dois Estados e pede um cessar-fogo imediato desde o início da guerra, já tinha apelado na segunda-feira à comunidade internacional para "agir com urgência".

Do lado russo, Vladimir Putin se esforça para se apresentar como líder na luta contra a hegemonia americana. Ele acredita que Washington é responsável pelo conflito em curso, acusando os Estados Unidos de ter monopolizado durante muito tempo o processo de paz entre Israel e Palestina sem nunca ter conseguido encontrar soluções.

O Kremlin pede um cessar-fogo em Gaza e repete que a única forma de alcançar uma paz duradoura no Oriente Médio é a criação de um Estado palestino.

(Com AFP)

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