Macron reage às críticas sobre comemoração de feriado judaico no Eliseu e diz que respeita laicidade

O presidente francês, Emmanuel Macron, reagiu à polêmica sobre a celebração judaica do início do Festival das Luzes, ou Hanukkah, que ocorreu no Palácio do Eliseu, sede da presidência francesa, na noite desta quinta-feira (7). Na ocasião, Macron recebeu o prêmio Lord Jakovits da Conferência dos Rabinos Europeus (CER) por sua luta contra o antissemitismo e o rabino-chefe da França, Haïm Korsia, acendeu a primeira vela do candelabro do Hanukkah na sede da presidência francesa.

Em visita ao canteiro de obras da Notre-Dame de Paris nesta sexta-feira (8), um ano antes da reabertura da catedral, o presidente Emmanuel Macron  afirmou que respeita a laicidade. "A laicidade não significa ignorar as religiões ou interferir nas religiões. Significa pedir aos cidadãos que respeitem as leis da República, independentemente da religião de cada um", disse Macron.

A celebração no palácio do Eliseu ocorreu dois dias antes do aniversário da lei francesa de 9 de dezembro de 1905, que separa a Igreja do Estado. "Tudo foi feito na presença de todas as outras religiões que foram convidadas e estavam lá. Esse é o espírito da República, de harmonia", disse Macron.

O presidente francês garantiu que seu gesto não foi religioso e pediu, em um contexto de aumento do antissemitismo, "a restauração da confiança em nossos compatriotas da religião judaica", declarou. "Da mesma forma, temos compatriotas muçulmanos que estão se sentindo atacados. Também precisamos restaurar a confiança deles", disse, pedindo "bom-senso" e "benevolência".

O vídeo do evento popularizou nas redes sociais e provocou uma onda de críticas nesta sexta-feira (8). A atitude do presidente francês foi inclusive questionada pelo presidente Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França (Crif), a mais importante organização da comunidade judaica francesa.

"Tradicionalmente, não é responsabilidade de uma autoridade pública acolher um festival religioso", afirmou o presidente do Crif, Yonathan Arfi, que se disse "surpreso" e considerou o ato um "erro", em declarações à rádio francesa Sud Radio. O Festival das Luzes, que dura oito noites, comemora a revolta judaica dos macabeus contra uma força greco-síria em 167 a.C. 

Oposição reage

Os diferentes partidos da oposição, da esquerda radical à extrema direita, criticaram o evento, assim como o deputado Pierre Henriet, do partido Horizons, do ex-premiê Edouard Phillipe. Segundo ele, a cerimônia organizada no palácio do Eliseu "rompe com a neutralidade do Estado".

"O Eliseu não é um lugar de culto", denunciou a socialista Carole Delga, presidente da região de Occitânia. "O Palácio do Eliseu não é uma igreja, uma mesquita, um templo ou uma sinagoga", acrescentou Guillaume Lacroix, presidente do Partido de Esquerda Radical (PRG em francês).

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Para o deputado Manuel Bompard, do partido de esquerda "A França Insubmissa", a cerimônia foi "um erro político imperdoável". No contexto do aumento das tensões ligadas à guerra entre Israel e o Hamas, o evento "coloca mais lenha na fogueira", acrescentou a senadora do Partido Socialista (PS), Laurence Rossignol.

'Ruptura com a tradição republicana'

As reações foram mais discretas à direita e à extrema-direita. Para a deputada do partido Reunião Nacional, Laure Lavalette, há uma tentativa de Macron de "recuperar o atraso" após sua ausência da marcha contra o antissemitismo, em 12 de novembro.

O presidente de direita da Associação de Prefeitos da França, David Lisnard, questionou a incoerência do governo, já que Macron aceitou celebrar um feriado religioso no palácio presidencial, mas se recusou a participar da marcha.

A polêmica surge em meio ao aumento dos atos antissemitas na França, que tem a maior comunidade judaica da Europa.

Nesta sexta-feira, a primeira-ministra francesa, Élisabeth Borne, justificou a celebração do Hanukkah no Eliseu como um "sinal" de "apoio" à comunidade judaica, diante do "aumento do antissemitismo", desde o início da guerra entre Israel e Hamas. 

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Macron já foi criticado, em setembro, por ter assistido à missa do papa Francisco em Marselha, no sudeste de França. À época, a presidência justificou seu papel na manutenção das relações com "todas as religiões".

Com informações da AFP

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