Após desistências de palestinos que estavam em Gaza, avião da FAB volta ao Brasil com 48 pessoas

Parte do grupo resgatado pelo Itamaraty neste fim de semana pensou em desistir de embarcar para o Brasil neste domingo (10), como estava previsto. Muitas famílias acabaram sendo separadas, já que algumas pessoas não receberam a permissão para deixar a Faixa de Gaza. 

Vinícius Assis, correspondente da RFI no Egito

Alguns têm parentes na capital egípcia, como Amera Saqallah, que acordou com essa ideia, após ter passado a noite no hotel onde a embaixada brasileira no Cairo hospedou as 47 pessoas que conseguiram cruzar a fronteira com o Egito e deixar a região bombardeada por Israel há mais de dois meses.

Amera está rouca. Por conta da falta de voz, a reportagem entrevistou, no saguão do hotel, o pai dela, um engenheiro civil palestino que veio para o Cairo há quase três meses para tratamento médico e não conseguiu voltar para a Faixa de Gaza. "Acho que ela deve ir, mas quero ter a certeza de que ela estará bem. Eu pude vê-la depois de tanto tempo. Acho que no Brasil ela terá mais oportunidades", disse Mohammed Badea Saqalla.

O marido de Amera, Soud Abusada, foi um dos quatro homens que não puderam cruzar a fronteira ontem. Três deles são da mesma família (o pai e o tio de Soud). O quarto barrado foi Yousef El Dwek, que aos 75 anos tem dificuldades para falar e se locomover, mas mesmo assim teve que se despedir da esposa, da nora e das netas no departamento de imigração. As mulheres da família, que conseguiram passar, estavam inconsoláveis por tê-lo deixado para trás.

É a segunda vez que o governo brasileiro resgata pessoas de Gaza, entre brasileiros e familiares palestinos. No mês passado, 32 pessoas foram levadas para o Brasil numa operação parecida. Desta vez, o Itamaraty tentou trazer 102 pessoas, mas as autoridades envolvidas na negociação sobre quem sai ou não de Gaza só autorizaram 78 nomes. Deste grupo, alguns acabaram desistindo, já que não queriam se separar do restante da família, que teve a permissão para sair negada.

Famílias separadas

Mesmo não tendo sido aprovadas, nove pessoas vieram para a fronteira assim mesmo, na tentativa de obter sucesso. Convencer as autoridades a deixar que elas passassem foi um árduo trabalho, especialmente, para dois diplomatas brasileiros que viajaram por oito horas na estrada até a fronteira.

Um deles, Fernando Bastos Neto, vive no Cairo. O outro, Bruno Abreu, foi enviado pelo Itamaraty especialmente para esta operação. Ao todo, cerca de 10 pessoas da embaixada brasileira no Cairo se envolveram na ação, incluindo representantes das Forças Armadas. Os diplomatas conseguiram apenas fazer com que cinco mulheres anteriormente barradas finalmente passassem para o território egípcio no sábado. Uma delas veio com os cinco filhos, mas o marido ficou.

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A maior parte do grupo que passou é palestina. Poucos têm passaporte brasileiro. Se algum ficasse no Cairo isso poderia trazer um grande problema diplomático para o Brasil, que se comprometeu a retirar todos os resgatados de território egípcio em, no máximo, 72 horas. Os diplomatas convenceram todo o grupo a não permanecer no Cairo, onde eles ficariam ilegalmente e poderiam ser deportados. O avião da Força Aérea Brasileira tem previsão de decolar da capital egípcia por volta das 18h (horário local).

No início da tarde, a maioria dos integrantes da FAB deixou o hotel e foi para o aeroporto. O grupo tem ao todo 32 pessoas, incluindo duas psicólogas, três médicos e duas enfermeiras. As psicólogas e uma médica ficaram no hotel para acompanhar Amani Dwek, uma das palestinas resgatadas, que recebeu a notícia da morte do irmão ontem na Faixa de Gaza, estava muito abalada e não queria sair do quarto esta manhã.

Como, afinal, ninguém que chegou ao Egito desistiu de embarcar, o avião da FAB leva, então, 48 pessoas para o Brasil, pois uma palestina que vive no Cairo e tem cidadania brasileira acabou se juntando ao grupo de resgatados. Rawan Abusaade é parente de três dos quatro homens barrados na fronteira ontem e ajudou a convencer os familiares que conseguiram cruzar a fronteira a embarcar para o Brasil.

Alguns diplomatas de diferentes países que estavam na fronteira ontem disseram que também estão tendo nomes de suas listas barrados, sem qualquer clareza sobre os critérios de seleção. Em teoria, esta lista é discutida por autoridades envolvidas no conflito, mas sabe-se que Israel acaba tendo a palavra final, pois é quem, inclusive, envia para as embaixadas a relação de aprovados.

Das 48 pessoas que seguem para o Brasil, 27 são adolescentes e crianças, como Tamara, de 9 anos. "Dormi muito bem, porque aqui tem segurança", disse em português ao lado do pai, da mãe e da irmã. Tamara não vê a hora de reencontrar as amigas Bianca e Angelina em Florianópolis, onde já morou com a família. Além das 27 crianças, o Itamaraty traz neste domingo quatro homens e 17 mulheres, incluindo a que se juntou ao grupo de resgatados de Gaza e estava no Cairo. Com ela, 12 são binacionais e 36 palestinos que esperam começar uma nova vida no Brasil.

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