"Milei deve acertar desde o começo e não terá margem de erro", dizem analistas sobre novo presidente argentino

Javier Milei tomou posse na Argentina avisando que a situação econômica e social vai piorar antes de melhorar. Mesmo anunciando um forte ajuste fiscal, ele foi aplaudido pela multidão. O discurso do presidente, de costas para o Congresso, foi de uma refundação do país. 

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

A primeira reunião de Javier Milei como presidente foi com o ucraniano Volodymyr Zelensky, confirmando a guinada da política externa da Argentina a favor da visão dos Estados Unidos e da Europa um movimento que se distancia da posição do presidente Lula.

Os agentes econômicos esperavam o conteúdo de leis com caráter financeiro, mas o novo governo não anunciou nenhuma medida concreta e ainda adiou para terça ou quarta-feira a conclusão de um pacote de reforma do Estado e de emergência econômica.

O argumento de que as medidas precisam de uma arquitetura legal para não serem contestadas na Justiça também indica a fragilidade que o texto pode exibir no Congresso.

Sem definições para o mercado, a maior incógnita é quanto ao novo valor do dólar oficial que terá incidência sobre a taxa de inflação.

O texto do pacote de leis pode conceder ao Executivo poderes para ajustar o gasto público, privatizar e até fechar companhias estatais.

A única medida decretada pelo presidente Javier Milei foi a redução pela metade do número de ministérios, de 18 para 9. Fora a redução do número, o orçamento continua o mesmo, a quantidade de funcionários também. Novas secretarias substituem os antigos ministérios, mas mantêm o peso ministerial. A redução, por enquanto, é apenas simbólica.

Por exemplo, os ministérios da Educação, do Trabalho, da Cultura, das Mulheres e do Desenvolvimento Social tornam-se secretarias e, juntas, foram o Ministério do Capital Humano.

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Discurso fundador

Javier Milei fez um discurso fundador em termos de conteúdo e de ruptura em termos de forma. O presidente não falou aos legisladores, mas ao povo. Em vez de um discurso à Assembleia Legislativa, falou num palco, de frente para a multidão, e de costas para o Congresso. Toda uma simbologia de apelo popular contra a política tradicional.

"Essa mudança de enfoque é estratégica. Milei sabe que a sua legitimidade está no voto popular que o elegeu para aprovar reformas e não na política. Esse é o seu verdadeiro capital político para conseguir as leis das que precisa, mesmo em minoria parlamentar. E sabe que esse capital vai diminuir se não conseguir estabilizar a economia", disse à RFI a cientista política e especialista em opinião pública Camila Rodríguez Nardi, da Poliarquia Consultores.

Foram dois discursos: um na frente do Congresso; outro, na varanda da Casa Rosada. Num tom de refundar o país ou de estabelecer um novo contrato social, Milei comparou a sua chegada como um evento que altera o curso da história. "Assim como a queda do muro de Berlim marcou o final de uma época trágica para o mundo, estas eleições marcaram um ponto de inflexão para a nossa história", interpretou.

Pobreza vai aumentar

Milei usou frases como "hoje começa uma nova era", "termina uma longa e triste história de decadência" e "começa um caminho de reconstrução do país". Avisou que, por culpa da herança econômica que recebe, a pobreza vai aumentar. Revelou que a inflação prevista até março pode ficar entre 20% e 40% ao mês. Isso porque, ao fazer correções, a inflação vai aumentar e combinar com uma recessão.

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Segundo Milei, será a consequência de uma política de choque fiscal, a única alternativa possível, para evitar uma hiperinflação. "Não há alternativa ao ajuste e ao choque. Impactará de modo negativo sobre a atividade (econômica), sobre o emprego, sobre a quantidade de pobres e de indigente", avisou.

Multidão aplaude a sinceridade

Milei anunciou que vai ajustar e a multidão aplaudiu. O discurso é o mesmo da campanha eleitoral com uma "ligeira" modificação. Durante a campanha, Milei dizia que "o ajuste seria um esforço do Estado" e que "não recairia sobre os privados".

No discurso de posse, no entanto, disse que "quase todo o ajuste seria no Estado". O "quase" vai recair na população através de um forte aumento das tarifas de serviços (luz, água, gás) e de transporte público, praticamente congeladas, graças a subsídios do Estado.

Outro ajuste será via inflação que deve tocar os 30% ao mês durante o verão. Milei disse que "no princípio, será duro", que "no curto prazo, a situação vai piorar", mas que "depois haverá frutos pelo esforço". O problema é chegar ao "depois".O presidente disse que "prefere uma verdade incômoda a uma mentira confortável".

Resistência opositora

Por oposição a Milei, entende-se, além do Peronismo no Congresso, os sindicatos e os movimentos sociais, todos peronistas. Essa é a dimensão da resistência que pode vir pela frente.

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À medida que a inflação aumentar numa velocidade muito maior do que os salários, os sindicatos vão protestar. O mesmo vale para organizações sociais que recebem planos de assistência.

Mas o ponto mais sensível será até onde a classe média vai aguentar se os preços dispararem a esse patamar de 20 ou 30% ao mês?

"O que fazer para que, na sua primeira fase de governo, Javier Milei consiga uma implosão controlada? Milei terá de acertar desde o começo. Não terá margem para erro. Ele tem razão quando diz que é o primeiro presidente que anuncia um ajuste e, mesmo assim, é eleito. As pessoas querem uma mudança profunda, mas quanto podem aguentar?", questionou à RFI o analista político, Patricio Giusto, diretor da consultora Diagnóstico Político.

O governo pretende dar sinais de austeridade como exemplo para o esforço coletivo, mas tudo vai depender da elasticidade do bolso, sobretudo se os resultados demorarem a aparecer.

"Javier Milei prepara-se para uma cirurgia da melhor maneira, mas nada garante que o corpo do paciente resista à operação. Nesta metáfora, o corpo não é o país nem o sistema político; é a opinião pública. Por melhor que seja, nada garante que a sociedade aguente o que vem pela frente, mesmo que o tenha votado para isso. Quanta dor os argentinos ainda podem aguentar?", questiona à RFI o analista político, Jorge Giacobbe, especialista em opinião pública.

"Nas nossas pesquisas, mais de 70% da população desejava uma virada à centro-direita e à direita, 65% querem uma redução Estado, mas também 65% não querem pagar mais impostos. O poder de um presidente está nessa tolerância social", acrescenta Giacobbe.

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No Congresso, Javier Milei tem apenas 15% da Câmara de Deputados e 10% do Senado. Vai precisar da oposição para aprovar ambiciosas reformas. A dúvida sobre se vai conseguir deve atravessar o governo Milei ao longo dos próximos meses.

Primeira viagem de Volodymyr Zelensky à América Latina

A reunião bilateral entre Javier Milei e Volodimir Zelensky foi a primeira do novo presidente argentino na Casa Rosada. Marca um giro da Diplomacia argentina.

Se antes a Argentina tinha uma posição ambivalente ou neutra em relação à guerra entre Ucrânia e Rússia, agora a Argentina está do lado da Ucrânia, em sintonia com a visão dos Estados Unidos e da Europa.

Essa guinada em matéria de política externa distancia a Argentina dos países governados pela esquerda na América Latina como Brasil, México e Colômbia, todos numa posição neutra.

Na sua primeira viagem à América Latina, Zelensky conseguiu um aliado de peso na região, a tal ponto que a Argentina poderia organizar uma reunião de cúpula de apoio à Ucrânia por parte de países da América Latina.

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Zelensky também se reuniu em Buenos Aires com os presidentes de Equador, Paraguai e Uruguai, todos governados pela direita.

No plano europeu, em Buenos Aires teve um diálogo com o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban. O líder húngaro é um aliado de Vladimir Putin e tem sido um obstáculo para a Ucrânia não só para receber ajuda militar e financeira da Europa, mas também para a Ucrânia formar parte da União Europeia.

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