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PM revista mulher negra acusada por furto cometido por mulher branca

Gabriel Sorrentino

Colaboração para o UOL, de Curitiba

18/01/2020 22h34Atualizada em 20/01/2020 13h19

Um vídeo que mostra uma mulher negra sendo acusada por outros passageiros de ter furtado a carteira de uma idosa dentro de um ônibus em Curitiba viralizou nas redes sociais. O registro foi feito na última quinta-feira (16), por volta das 12h40, em um biarticulado da linha Santa Cândida x Capão Raso, próximo ao Shopping Estação.

Na ocasião, policiais militares chegaram a revistar a bolsa da mulher, que não quis falar com a imprensa e nem registrou boletim de ocorrência. O vídeo, que até a noite deste sábado (18) já somava 77 mil visualizações, mostra os passageiros acusando a mulher negra até que, após cinco minutos de confusão, o item roubado foi encontrado com uma outra passageira, de pele branca, da qual não haviam suspeitado.

De acordo com a vendedora Evelyn Duarte, 22, que filmou toda a ação, apesar de estar desesperada, a mulher acusada de furto manteve a calma e tentou explicar às pessoas que era inocente.

"Chegou o momento em que os envolvidos foram para perto do motorista do ônibus e a idosa que teve a carteira roubada disse que chamaria a polícia. O marido desta senhora, um homem branco, repetia o tempo inteiro que a mulher negra que estavam acusando era a responsável pelo furto. Chegou a dizer, inclusive, que tinha visto a moça cometer o crime", explicou Evelyn ao UOL.

Em poucos instantes, policiais militares que estavam em uma viatura parada na Praça Oswaldo Cruz, na região central da cidade, entraram no ônibus e imediatamente começaram a revistar a bolsa da mulher.

"Quem entrou no ônibus começou a acusá-la injustamente sem saber o que tinha acontecido, assim como todas as pessoas que já estavam lá dentro", conta Evelyn. A verdadeira responsável pelo furto foi apontada por um homem, que acompanhou toda a movimentação, mas só apontou a responsável após a revista policial.

Evelyn contou ainda que a vítima não quis registrar boletim de ocorrência porque "a Justiça não existe para pretos, que não têm direito algum", segundo ela.

Racismo teria motivado o episódio

Para Evelyn, as acusações foram motivadas por racismo. "Todo mundo estava observando a ação, mas ninguém se meteu. Quando a verdade veio à tona e viram que a culpada era a outra mulher, o idoso sequer pediu desculpa à primeira suspeita. A mulher dele veio se desculpar comigo, mas não era a mim que ela devia desculpas", conta a jovem.

"Quem estava julgando era a sociedade, as pessoas dentro do ônibus, sem ao menos conhecê-la. Dói, dói muito. Eu segurava o choro porque mulher preta tem que ser forte o tempo todo, mas a gente nunca consegue. Quis passar para essa mulher muita força e, principalmente, que ela não precisava passar por isso sozinha", desabafa Evelyn, que, mesmo durante o acontecido, já acusava a todos dentro do ônibus de racismo.

"As pessoas gritavam, questionavam o fato de eu estar defendendo a moça. Chegaram, inclusive, a falar que, se eu estava com dó, eu que a levasse para casa", conclui a jovem.

A mulher responsável pelo furto foi conduzida pela Polícia Militar para fora do ônibus e levada à Central de Flagrantes.

Outro lado

Em nota, a Polícia Militar do Paraná afirmou que resolveu a situação "demonstrando que a PM é uma instituição absolutamente treinada, preparada e pode ser acionada sem nenhum formalismo, ou seja, até com um aceno de mão". Disse ainda que a mulher negra foi abordada inicialmente porque foi apontada pelas vítimas como principal suspeita.

"Independente de cor, raça ou gênero a PM atua com objetivo de salvaguardar vidas e proteger aqueles que, por ventura, encontrem-se vulneráveis ou necessitados de apoio da Corporação. A PM abordou, neste caso, uma mulher negra, que foi indicada pelas vítimas, mas fez a abordagem com o consentimento dela, assim como abordou outro mulher, igualmente indicada no local", diz a nota.

Cotidiano