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Enganado por médiuns, americano gasta quase R$ 3 milhões para reatar namoro

Niall Rice gastou cerca de US$ 718 mil (equivalente a R$ 2,8 milhões) para pagar duas médiuns na tentativa de ter a ex-namorada de volta - Emily Berl/The New York Times
Niall Rice gastou cerca de US$ 718 mil (equivalente a R$ 2,8 milhões) para pagar duas médiuns na tentativa de ter a ex-namorada de volta Imagem: Emily Berl/The New York Times

Michael Wilson

18/11/2015 06h00

Sentado em uma lanchonete Denny’s, bebendo café entre pausas para cigarros depois de uma longa noite sem dormir, ele respondia a uma longa série de perguntas. Sabia que nada daquilo tinha sentido: ele era um profissional de sucesso e viajado, com uma conta bancária de sete dígitos e planos para muito mais. E, então, deu tudo. Mais de US$ 718 mil (cerca de R$ 2,8 milhões), aos poucos, para duas médiuns de Manhattan.

Elas prometeram reuni-lo com a mulher que ele amava. Mesmo depois de saber que ela estava morta. Havia uma ponte de 130 quilômetros feita de ouro, o portal da reencarnação. “Eu simplesmente fui sugado”, disse o homem, Niall Rice, em uma entrevista na semana passada, por telefone, de Los Angeles.

“É isso que as pessoas não entendem. Como você pôde cair nessa?”, disse. Entre os pagamentos feitos a uma das médiuns, houve até um para uma máquina do tempo que limparia o passado, apagando um romance rápido. “Agora é vergonhoso”, afirmou Rice.

Em maio, a polícia prendeu uma das videntes, Priscilla Kelly Delmaro, 26, depois que Rice procurou um investigador particular e decidiu dar queixa. Ela foi acusada de roubo com agravante.

A identidade do homem não foi revelada nos documentos do tribunal. Mas Rice, um consultor britânico de 33 anos, disse que decidiu se apresentar na semana passada, ao saber que o gabinete do promotor distrital de Nova York pretendia deixar que Delmaro se declarasse culpada em troca de um ano na cadeia, e seria improvável que ele recebesse alguma restituição. Uma audiência estava marcada para esta terça-feira (17). “Eu só quero justiça”, disse Rice em Los Angeles, onde vive hoje. “Apenas não quero que ela faça a outros o que fez a mim.”

Parece quase inimaginável que alguém pudesse ser enganado tão completamente, em um nível tão surpreendente de embuste. E assim começa a história de Rice. Na primavera de 2013, ele ganhou centenas de milhares de dólares em otimização de máquinas de busca, atraindo tráfego para os sites em troca de comissões. Ele veio de uma família pobre e planejava comprar uma casa para sua mãe na Inglaterra. Mas enfrentava problemas.

Muito desajustado em ambientes sociais, bebia muito e usava drogas, segundo disse. Naquele ano, ele viajou ao Arizona para se internar em uma clínica de reabilitação para ansiedade aguda, afirmou. Na clínica, conheceu uma mulher chamada Michelle, que também era paciente. “Tivemos uma ligação muito forte, era inacreditável”, disse ele.” Eu a amava profundamente.”

Mas o relacionamento terminou algumas semanas depois que eles deixaram a reabilitação, quando Michelle teve uma overdose de pílulas e retornou à clínica. Ela rompeu com Rice, e ele disse ter concordado que seria melhor. “Eu ia seguir minha vida”, explicou ele.

Rice foi para Nova York e encontrou um lugar nos lofts McKibbin, no Brooklyn --dois antigos armazéns cheios de apartamentos improvisados que costumam ser comparados a um dormitório barato para jovens recém-chegados. Em um dia de agosto, Rice, deprimido, caminhou pela Ponte Williamsburg até Manhattan e viu a placa de uma vidente na Delancey Street. “Entrei”, disse ele. (Em um depoimento anterior à polícia sobre esse dia, Rice afirmou ter visitado a médium em Times Square. Na verdade, ele disse na quinta-feira, foi na Delancey. Seu encontro em Times Square foi só dois meses depois.)

Ele conheceu a médium, chamada Brandy. “Ela sabia muitas coisas”, disse. Coisas sobre ele. “‘Eu vi que você estava conectado a essa garota’“, ela lhe disse. Ele lhe falou sobre Michelle. “Ela disse: ‘Se você pudesse escolher, gostaria de voltar para ela?’“, contou ele. Sim.
Ela pediu US$ 2.500 naquele dia, e Rice os sacou em um banco próximo. Brandy disse que, em pouco tempo, ele recuperaria o dinheiro.
“Eu acabei lhe dando dez mil, 12 mil na primeira semana”, disse ele. “É difícil explicar.”

Rice continuou: “Não era como dizer: ‘Me dê 10 mil que eu amarro seus sapatos’“, disse ele. “Há uma meia verdade aí, há algo estranho. Todo esse golpe dos médiuns se baseia em que eles sabem o que acontece na sua vida. Eles têm um dom.” Ele comprou um anel de US$ 40 mil na Tiffany’s para Brandy, para afastar maus espíritos. Passou seu aniversário com ela e sua família, e fizeram churrasco. Mas Rice perdeu a fé nela. Havia visitado recentemente Michelle na Califórnia --uma desastrosa conversa de cinco minutos na calçada. “O tempo todo eu estava pensando naquilo, depois ela disse que eu estava agindo estranho”, disse ele.

Então ele procurou outra médium. Dirigiu até o trabalho no centro de Manhattan e estacionou o carro em uma garagem perto de Times Square. Percebeu uma casa de vidente do outro lado da rua. Lá conheceu Delmaro, que chamava a si mesma de Christina, disse Rice. Em fevereiro de 2014, Rice, desejando ver Michelle, entrou em sua página no Facebook. “Vi ‘RIP’ [sigla de ‘rest in peace’, ‘descanse em paz’].” Michelle tinha morrido de overdose de drogas.

Rice afirmou que havia pago a Christina US$ 90 mil (R$ 350 mil), que, segundo ela, eram necessários para construir uma ponte de ouro em outra dimensão para capturar um mau espírito que perseguia Michelle. Ele telefonou para ela e lhe disse que Michelle tinha morrido. “Christina disse: ‘Não acredite nisso. Se você acreditar, é verdade’“, lembrou ele. Ela disse que poderia ajudar a recuperar Michelle, mas reencarnada, uma nova Michelle.

Então as coisas se intensificaram. “Eu dormi com Christina”, disse Rice. “Dormimos juntos uma vez. Foi um enorme erro". O advogado de Delmaro, Jeffrey Cylkowski, disse que o relacionamento põe em questão as acusações de roubo. “Se você está envolvido com alguém, não foi um presente?”, indagou.

Rice deixou Nova York e mudou-se para a Califórnia, onde já havia morado por um curto tempo. Ele disse que Christina lhe enviava e-mails frequentes sobre as visões que tinha de uma nova Michelle: “Acabo de ver alguém no supermercado; acho que era ela”.

Houve um último pagamento gigante --”o grandão”-- de US$ 100 mil, disse Rice. O banco lhe pediu para confirmar em que iria gastar o dinheiro. Ele disse que era para comprar um carro.

Rice voltou a Nova York e encontrou um investigador particular que identificou Christina como Delmaro, que já tinha sido presa na Flórida. Rice apresentou queixa contra ela em maio, dando à polícia registros bancários que mostravam os pagamentos. Mais tarde ele admitiu que suas declarações foram incompletas: ele acusou Delmaro de tirar todo o seu dinheiro, deixando de fora os dois meses que passou consultando a outra médium, Brandy, porque havia retomado o contato com ela e agora acreditava que ela o protegia de uma possível retaliação, segundo disse. Mais tarde Rice modificou sua queixa. Brandy não foi acusada de crime.

O gabinete da promotoria disse que não comentaria o caso antes que fosse resolvido. As declarações falsas de Rice e o relacionamento com Delmaro não ajudaram seu caso, segundo o investigador, Bob Nygaard. Mas não são incomuns, disse ele. “As coisas que tornam uma pessoa um alvo perfeito também fazem dela uma má testemunha”, disse Nygaard. Ele disse que os promotores poderiam ter se esforçado para procurar outras vítimas potenciais de Delmaro.

Rice está quebrado. Perdeu seu apartamento em Manhattan e vendeu seu BMW, o relógio caro e o laptop. Pediu emprestado a seu pai alguns milhares de dólares. Agora mal consegue pagar o aluguel do apartamento de US$ 500, disse.

Na semana passada, Rice disse que quer voltar à Inglaterra. “Estou tentando juntar as coisas”, mas reconheceu que voltou a beber, inclusive no dia da entrevista. “Não sei se quero ganhar dinheiro de novo. Tenho medo”, disse. “Eu quero ir para casa, mas quero ver o fim disto.”