Usado por índios contra infecção urinária, "cranberry" começa a ganhar espaço no Brasil

Cármen Guaresemin
Do UOL, em São Paulo

  • Thinkstock

    Os índios norte-americanos já usavam a fruta para prevenir e tratar doenças do trato urinário há séculos e isso sempre intrigou os cientistas que começaram a pesquisar seus poderes

    Os índios norte-americanos já usavam a fruta para prevenir e tratar doenças do trato urinário há séculos e isso sempre intrigou os cientistas que começaram a pesquisar seus poderes

O cranberry está começando a ficar conhecido no Brasil onde ganhou o nome de oxicoco e é encontrado em cápsulas e sucos em supermercados.  É uma das três frutas nativas dos Estados Unidos, ao lado do blueberry (mirtilo) e da concord grape (um tipo de uva escura), e é considerada poderosa por uma série de possíveis benefícios que traria à saúde.

Entre eles, os mais comentados são seu efeito antioxidante e o poder de combater infecções urinárias.  Porém, os estudos ainda não confirmam sua eficácia e enquanto alguns profissionais recomendam seu uso, outros acham prematuro indicá-la.

"Os índios norte-americanos já usavam a fruta para prevenir e tratar doenças do trato urinário há séculos e isso sempre intrigou os cientistas que vêm estudando os potenciais benefícios do suco de cranberry para a saúde nos últimos anos", diz Edson Credidio, médico nutrólogo, clínico geral-pesquisador e doutor em Ciências de Alimentos pela Unicamp.

Ele conta que o suco combate cistites e infecções urinárias porque a fruta  possui uma substância que impede a adesão das bactérias nas paredes da bexiga, em especial a Escherichia coli, maior causadora das cistites.

Mas, cuidado, engana-se quem pensa que o suco equivale a um medicamento: "Na maioria dos casos deve-se tratar as infecções urinárias, após a realização de exame de urina e urocultura, e utilizar o cranberry na prevenção de  recidivas de infecções do trato urinário", ensina o médico.

Questão em aberto

Já Daher Chade, urologista do Instituto do Câncer de São Paulo, discorda: "Apesar de haver  estudos científicos, antigos, mostrando discreta redução na incidência de infecção urinária com o uso de cranberry, infelizmente, os mais recentes e de maior nível de evidência não mais comprovaram a utilidade no uso deste produto para evitar ou tratar infecção urinária, tanto em forma de suco como em cápsulas".

Fernando Almeida, urologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que pesquisas que começaram por volta de 2001 demonstraram que houve diminuição de casos de cistites recorrentes (cinco casos por ano) em mulheres que tomaram o suco. Porém, ele admite: "Os benefícios do cranberry para o trato urinário não é uma questão fechada".

Ele cita pesquisas do Centro de Pesquisa de Evidências Científicas Cochrane que, após análise de alguns estudos mais recentes, avaliou que não há comprovações para se recomendar o uso do suco de cranberry nos tratamentos de cistite. "Eu não recomendo o produto. Além disso, não acho que seja um suco que agrade ao paladar do brasileiro e é caro, porque é importado. Talvez, ofereça algum benefício, mas seria pequeno".

Poder antioxidante

Credidio lembra que, como as demais frutas vermelhas (morango, cereja, framboesa e mirtilo), o cranberry contém vitaminas A, C e D, além de flavonoides, fitoquímicos com poderes antioxidantes. "Ele também contém muitos polifenois que protegem o coração e reduzem o colesterol no sangue, inclusive o famoso resveratrol", diz.

Chade concorda em partes: "Cranberry apresenta propriedades antioxidantes e, como outras ‘berries’, é conhecido por diminuir a incidência de doenças cardiovasculares e prevenir o câncer em estudos laboratoriais. Porém, não existem estudos demonstrando esta eficácia no uso clínico para tornar seu consumo uma recomendação".

A nutricionista Vanessa Suzuki, da Educação Nutricional, lista as qualidades da fruta: fonte de antocianinas, flavonoides, catequinas, triterpenoides, ácidos (beta-hidroxibutírico, cítrico, málico, quínico, benzoico, elágico, hipúrico), vitamina C e fibras. "Como antioxidante, seu uso pode ser benéfico para a saúde de um modo geral, pois alguns estudos relatam que os fitoquímicos da fruta são responsáveis pela inibição da oxidação do colesterol LDL. No entanto, há necessidade de mais pesquisas para real comprovação".

Úlcera e saúde bucal

Outro benefício do cranberry seria sua ação sobre úlceras. "As substâncias chamadas proantocianidinas, presentes na fruta, podem impedir a fixação da bactéria Helicobacter plorim, que causa gastrite e úlcera, na mucosa estomacal. Vários estudos constataram que pessoas propensas a desenvolver esse problema apresentaram melhoras ao consumir o suco de cranberry", afirma Credidio.

Ele cita um estudo, duplo-cego (pesquisa clínica que compara duas substâncias), realizado em 2008 e publicado na revista "Nutrition", onde pesquisadores acompanharam crianças e adolescentes que apresentaram resultado positivo para a bactéria Helicobacter pylori que também causa úlcera.

Já Suzuki comenta que alguns trabalhos trazem o cranberry como eficiente somente na inibição de úlcera péptica causada por Helicabacter pylori.

Outra pesquisa citada por Credidio, publicada no "Journal of the American Dental Association" (periódico científico de odontologia) em 1998, revelou que testes in vitro com componentes isolados da fruta reverteram a adesão das bactérias da doença periodontal em 58%. O que aponta que a cranberry também previne a placa bacteriana.

"Com relação à doença periodontal, o cranberry pode inibir a colonização de bactérias periodontopatogênicas, que é uma etapa essencial para o início da doença", afirma Suzuki. O urologista Daher Chade diz que há pesquisas demonstrando a capacidade de formação de um biofilme protetor contra uma bactéria chamada Streptococcus: "Porém, não há evidência suficiente para uso rotineiro da fruta".

Quantidade

  • É bom lembrar que o suco de cranberry não equivale ao uso de medicamentos

Como é uma fruta nativa dos EUA, existe a dificuldade de se cultivá-la no Brasil. Assim, é importante saber a procedência dos sucos vendidos em nosso país. Credidio lembra que o aquecimento afeta alguns princípios ativos chamados de "termo lábeis" (sensíveis ao aquecimento) o que pode alterar o produto. Ele recomenda o consumo de um copo de 200 ml de suco, uma vez ao dia, ou a ingestão de uma cápsula de 50 mg duas vezes ao dia ou, o indicado, segundo a prescrição de um médico.

Já a nutricionista Vanessa Suzuki afirma que a recomendação usual diária é de 240 ml a 475 ml de suco.

Excessos e contraindicações

Se consumido em excesso, o suco de cranberry pode causar desarranjos intestinais. Assim, aqueles que tiverem diarreia após a ingestão não devem consumir o produto. "Os diabéticos também devem evitar o suco, em demasia, por conta da frutose. Seu consumo deve ser indicado somente por um especialista que acompanhe o paciente", frisa Credidio.

Já a nutricionista enfatiza que a ingestão excessiva de cranberry pode aumentar a excreção e que pessoas que fazem uso de medicamentos como antidepressivos e analgésicos à base de morfina devem consultar um médico antes de consumir o cranberry. No caso dos diabéticos, ela afirma que seu uso não é recomendado, pois os resultados dos estudos ainda não são conclusivos.

Quanto à contraindicação, a nutricionista conta que o produto deve ser utilizado com precaução em crianças menores de dois anos, durante a gravidez e a amamentação.

"Em 2004, um alerta do Comitê de Segurança em Medicina do Reino Unido, que lida com segurança de medicamentos, aconselhou que pacientes que usam o medicamento varfarina (um anticoagulante) não devem ingerir suco de cranberry, por reações adversas. Contudo, estudos de casos e estudos pilotos realizados entre 2006 e 2008 relatam que não houve interações significantes entre o consumo de 250 ml de suco de cranberry e utilização da medicação na população em geral", encerra Suzuki.

Resultado das Pesquisas

  • Cranberry Institute

    Autores da Colaboração Cochrane realizaram duas pesquisas sobre cranberry. Uma avaliando a eficácia do uso da fruta na prevenção de doenças urinárias (2012) e outra aferindo os tratamentos (2010). A que avaliou a eficácia dos produtos de cranberry na prevenção de infecções do trato urinário em populações suscetíveis inclui um total de 24 estudos envolvendo 4.473 participantes. Dez estudos foram incluídos na atualização de 2008, e 14 estudos foram adicionados a esta atualização. Treze estudos (envolvendo 2.380 participantes) avaliaram o suco ou concentrado de cranberry; nove estudos (envolvendo 1.032 participantes) avaliaram cápsulas de cranberry; um estudo comparou suco versus comprimidos de cranberry, e um estudo comparou cápsulas versus comprimidos de cranberry. O grupo de comparação (controle) recebeu placebo, nenhum tratamento, água, hipurato de metenamina, antibióticos, ou lactobacilos. Onze estudos não foram incluídos na meta-análise porque seu desenho não era apropriado ou porque não relataram desfechos relevantes.

    Os dados incluídos na meta-análise (técnica que combina os resultados de diversos estudos) voltados a um conjunto de hipóteses específicas mostraram que, em comparação com placebo, água ou nenhum tratamento, os produtos de cranberry não reduziram de forma significativa a ocorrência de episódios sintomáticos de ITU de forma geral ou para quaisquer dos subgrupos estudados: mulheres com ITU de repetição; idosos; mulheres grávidas; crianças com ITU de repetição; pacientes com câncer; ou pessoas com bexiga neurogênica ou lesões medulares. A eficácia de cranberry não foi significativamente diferente do uso de antibióticos para as mulheres e crianças.

    A que aferiu os tratamentos, depois de uma busca minuciosa, não encontrou nenhum ensaio clínico randomizado (aleatório) que comprovasse a eficácia do suco de cranberry para o tratamento de infecções do trato urinário.

    Portanto, até o momento presente não existem evidências de qualidade que indiquem que o consumo de cranberries seja efetivo para o tratamento de ITU. São necessários novos estudos com desenho adequado, do tipo duplo-cego, que comparem o consumo de suco e produtos de cranberry versus placebo para avaliar a efetividade destes produtos no tratamento de ITU. Os desfechos devem incluir redução de sintoma, esterilização de urina, efeitos colaterais e aderência à terapia. Além disso, as doses usadas e a duração de terapia também devem ser avaliadas.

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