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Nobel de Medicina é uma vitória da ciência

A cientista chinesa Tu Youyou, agraciada com o Nobel de Medicina por descobrir um novo tratamento contra a malária - Wang Chengyun - 23.set.2011/Xinhua
A cientista chinesa Tu Youyou, agraciada com o Nobel de Medicina por descobrir um novo tratamento contra a malária Imagem: Wang Chengyun - 23.set.2011/Xinhua
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

08/10/2015 07h32

O prêmio Nobel de medicina deste ano, atribuído ao irlandês W. Campbell, ao japonês S. Omura e à chinesa Tu Youyou, recompensa as descobertas de destacados cientistas, mas tem outros notáveis significados.

Em primeiro lugar, Tu Youyou é uma das poucas mulheres detentoras do Nobel de medicina (12ª. numa lista de 207 prêmios desta área distribuídos desde 1901). 

Em seguida, ela fundamentou sua pesquisa refinando os conhecimentos da multimilenária medicina tradicional chinesa. A China aparece como a mais antiga civilização ininterrupta da humanidade. Englobando zonas tropicais (no Sul), zonas frias ou desertos, o país sempre foi zona de passagem ou de origem de epidemias, tanto no passado como no presente. 

Neste contexto, Tu Youyou e sua equipe começaram, em 1967, a checar as propriedades terapêuticas de centenas de medicamentos antimaláricos extraídos de outras tantas ervas utilizadas na medicina tradicional chinesa. Daí ela chegou à descoberta da artemisinina que gerou remédios mais eficazes contra a malária.

Presente no Velho Mundo, na África e na Ásia, a forma mais mortal da malária (Plasmodium falciparum) chegou às zonas tropicais das Américas nos porões dos navios negreiros vindos da África Ocidental. Diagnosticada em Pernambuco no final do século 17 pelo doutor Morão, médico cristão-novo formado em Salamanca e Coimbra, a maleita denominada “terçãs dobres” corresponde à doença causada pelo protozoário falciparum.

A praga se deu muito bem no Brasil, cobrindo 80% território nacional, aleitando 179 mil pessoas e matando 41 (dados de 2013). Porém, em outras zonas tropicais, principalmente na África e no subcontinente indiano, a mortalidade é muito mais forte. Um relatório da Organização Mundial da Saúde prevê a morte de 438.000 pessoas por malária no mundo, em 2015.

O número de mortos tem caído em toda a parte, mas foi registrada a resistência dos parasitas maláricos à artemisinina em casos diagnosticados no Sudeste Asiático. As pesquisas dos outros dois ganhadores do Nobel de medicina, Campbell e Omura também concernem doenças tropicais. Ambos os cientistas descobriram medicamentos antiparasitários eficazes contra a oncocercose ou “mal do garimpeiro” que provoca a cegueira, e contra a elefantíase.

Em suma, as pesquisas dirigidas pelos três cientistas ajudaram a mitigar os males de doenças que flagelam sobretudo os pobres. Para os especialistas citados pelo jornal "Le Monde" o Nobel de medicina deve estimular a busca de tratamentos para as zonas endêmicas tropicais onde nasce, adoece e morre a maior parte dos habitantes do planeta. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL