O crepúsculo da democracia na Turquia

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Murat Cetinmuhurdar / Presidential Palace / Handout

A virada autoritária do presidente Recep Erdogan, na sequência da tentativa de golpe de Estado militar que sacudiu a Turquia, introduz outro fator de instabilidade no Oriente Médio. Há um certo consenso entre os especialistas sobre o encadeamento dos acontecimentos. Sabedor da insatisfação reinante nas Forças Armadas, Erdogan havia preparado, de longa data, medidas de endurecimento político.

Reforçadas pelos ocidentais na Guerra Fria por causa da fronteira com a ex-URSS e pela posição chave do país na Eurásia, as Forças Armadas da Turquia contam com 510 mil homens, formando o segundo maior contingente militar da Otan, depois dos Estados Unidos. Em 1960, em 1971 e 1980, o Exército já havia tomado o poder na Turquia e em 1997 os generais forçaram a demissão de um primeiro-ministro. Neste contexto, o expurgo nas Forças Armadas começou em 2008, na época em que Fethullah Gülen e sua irmandade muçulmana ainda eram aliados de Erdogan e de seu partido o AKP. Depois disso, Gülen rompeu com o AKP, exilou-se nos EUA e foi agora acusado de insuflar a tentativa de golpe de 15 de julho. 

Aproveitando o despreparo dos golpistas, Erdogan desencadeou uma vasta repressão que está mudando os rumos da Turquia. Segundo o "Le Monde", Erdogan declarou aos seus seguidores no aeroporto de Istambul, na madrugada do dia 16, quando o o golpe já estava desbaratado: "Esta sublevação é um dom de Deus (Alá). Ela nos ajudará a limpar o Exército de seus elementos sediciosos". 

Todavia, nos últimos dias a repressão visou também a mídia com o fechamento de dezenas de cadeias de TV, de jornais, revistas e editoras, e diversos outros setores, com a demissão e a prisão de jornalistas, juízes, diplomatas e professores. Arbitrariedades e torturas são assinaladas em vários pontos do país.

Até bem pouco tempo, a Turquia aparecia como exemplo de país democrático e economicamente próspero numa região conturbada. Estado laico com uma grande população muçulmana, a Turquia acalentou longamente o projeto de aderir à União Europeia (UE). Desde 1963, sucessivos governos turcos batem na porta dos organismos europeus e em 1999 o país foi oficialmente reconhecido como candidato à UE. Mas as negociações avançaram pouco e a Turquia acumulou frustrações com os europeus. No meio tempo, o desmonte do Iraque e da Síria e o ressurgimento do autonomismo dos curdos, aliados dos ocidentais na guerra contra o chamado Estado Islâmico, trouxeram a guerra para as fronteiras do país.

Erdogan parece ter abandonado o projeto de adesão à UE. Caso o movimento autoritário prossiga nos próximos meses, e mesmo antes disso, a Turquia se transformará numa ditadura. De fato, uma reportagem de capa sobre a crise turca do semanário alemão Spiegel tem como título: "Era uma vez uma democracia".

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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