Insegurança com mercado local leva investidores chineses a buscar alternativas

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Fred Dufour/AFP

O arrefecimento da economia chinesa se manifesta em vários setores do país e do exterior. Inseguros com a evolução do mercado doméstico, investidores e empresas chinesas procuram outros caminhos nos quatros cantos do planeta.

Segundo um relatório do Institute of International Finance, que congrega grandes bancos e instituições financeiras, a saída de capitais da China alcançou US$ 39 bilhões em julho, maior número registrado nos últimos seis meses.

Ainda que as reservas de divisas do país continuem rondando a cifra colossal de US$ 3,2 trilhões, há dúvidas sobre a estabilidade financeira do país na eventualidade de uma fuga maciça de capitais. Outros dados revelam que a compra de ativos no estrangeiro por residentes chineses representou 70% da saída de capitais nos últimos nove meses.

Para tentar travar este fluxo, as autoridades limitaram os montantes que os chineses são autorizados a transferir para o exterior.

No que concerne as empresas chinesas, a política de Pequim é toda outra. De fato, o governo tem incentivado as firmas chinesas a investir e aumentar suas participações em empreitadas montadas em vários países. É nesse contexto que se insere o aumento das aquisições chinesas no Brasil, analisado recentemente por Fernanda Perrin na Folha de São Paulo.  

Nos Estados Unidos, a ofensiva de investimentos visa firmas de alta tecnologia da Califórnia. Como observa uma reportagem do Washington Post, Baidu, Alibaba e Tecent, respectivamente consideradas como a Google, a Amazon e o Facebook da China, lideraram a vaga de investimentos chineses em Sillicon Valley que atingiu US$ 6 bilhões em meados deste ano.

Contudo, a relação entre Sillicon Valley e a China tem sido permeado por "malentendidos culturais", conforme a expressão utilizada pelo WP. A sequência de incidentes alinhados pela reportagem do jornal da capital americana mostra que a dura negociação das firmas chinesas, moldada pela acirrada concorrência imperando na China, surpreende e irrita seus parceiros de negócios californianos. 

O montante dos investimentos citados acima não inclui as aquisições chinesas no setor imobiliário. Uma reportagem da revista Forbes indica que a demanda chinesa provocou uma alta consistente no mercado imobiliário de San Francisco.

Outras cidades, como Boston, também são muito procuradas por compradores chineses de residências, hoteis e lojas de comércio. No total, os investimentos chineses no setor imobiliário americano deve somar US$ 218 bilhões entre 2016 e 2020. Depois desta data, o afluxo de capitais chineses nos Estados Unidos deve se acelerar por causa do aumento do número de pessoas que estão procurando tirar seu dinheiro da China. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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