Europa ainda hesita sobre como lidar com Trump

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Damon Winter/ The New York Times

Em nenhuma outra parte do mundo a vitória eleitoral de Donald Trump causou tanta perplexidade como na Europa. Várias razões explicam esse sentimento. Além da óbvia comunidade cultural e demográfica entre as duas regiões, o conceito geopolítico de "mundo ocidental", ou Ocidente, consolida as relações fusionais unindo os Estados Unidos e a Europa Ocidental.

Concretamente, europeus e americanos agregam o maior circuito de trocas econômicas e a maior aliança militar do mundo, a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Tudo isso está sendo revisto numa perspectiva inteiramente nova e inesperada desde a eleição de Trump.

Na Casa Branca, o pensamento dominante, democrata ou conservador, de Ronald Reagan a George W. Bush, fundava a aliança com os europeus no poderio militar e econômico associado ao progresso político. Mesmo contraditoriamente, apoiando às vezes ditaduras (como a Arábia Saudita), os Estados Unidos sempre propagaram uma ideologia liberal que pretendia trazer a paz, a prosperidade e a liberdade para o resto do mundo.

No seu discurso de despedida em 1989, Reagan falou do papel do país que, dois séculos depois da Revolução Americana, aparecia ainda como "um farol, um ímã para todos os que devem usufruir de liberdade".

Como comentou o professor Michael Barnett, especialista de política internacional da George Washington University, Trump rompe com essa tradição. Seu discurso, fundado no isolacionismo ultranacionalista americano, cujo lema é "America First" (América primeiro, em tradução livre), privilegia a força, mas abandona os princípios de liberdade. Na luta contra o Estado Islâmico, ele advoga a tortura e o sequestro ou assassinato (interpretação de Barnett) das famílias dos terroristas. 

Suas restrições às alianças com os europeus também são explícitas. No plano militar, Trump questiona a utilidade da Otan. No plano econômico, ele ameaça romper tratados internacionais e sair da OMC (Organização Mundial do Comércio), caso as demandas americanas não sejam atendidas. No seu visor, está não só a China, mas também aliados tradicionais dos Estados Unidos, como o México, a Alemanha ou o Japão.

Reunidos em Bruxelas nesta segunda-feira (14), os ministros do Exterior dos países da União Europeia (UE) ainda hesitam sobre a atitude a tomar frente a Trump. A ideia geral é que a França e a Alemanha tomarão iniciativas para uma maior integração militar e econômica europeia frente ao recuo isolacionista americano pós-Trump.

Na realidade, frente a impopularidade do presidente Hollande e as divisões políticas da França, onde a candidata de extrema-direita Marine Le Pen está praticamente certa de ir para o segundo turno nas eleições presidenciais de 2017, a Alemanha aparece como a principal defensora dos princípios de liberdade ocidentais. "A eleição de Trump deixa [Angela] Merkel como a última defensora do Ocidente liberal", tal é o título de um artigo publicado ontem (13) por dois editorialistas do "New York Times".

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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