O papa Francisco entre o Ocidente e o Oriente

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Filippo Monteforte/ AFP

No ano que se inicia será comemorado pelos protestantes e por crentes e incréus do mundo inteiro o quinto centenário da proclamação das 95 teses de Lutero. Até 1517, a Igreja Católica havia conseguido expurgar dissidências e a reabsorver outras (como a de são Francisco de Assis, por exemplo). Mas a Reforma de Lutero prosperou e mudou o mundo.

Seguiram-se guerras entre facções religiosas e tragédias na Europa. Paralelamente, o movimento de expansão e de colonização europeia no ultramar, iniciado pelos países ibéricos posicionados como campeões do catolicismo e inimigos das heresias, gerou outra relação de forças. Doravante, a conquista das almas dos pagãos da África, da América e da Ásia para o catolicismo se apresentava como uma compensação às perdas que a Igreja sofria na Europa do Norte, onde principados e reinos aderiam à Reforma Luterana.

Na contabilidade planetária da almas, Portugal, Espanha e o papa tinham um trunfo decisivo: a ação determinada dos missionários jesuítas nas quatro partes do mundo. O padre Antônio Vieira, missionário, escritor e estadista, tinha perfeita noção da articulação entre a geopolítica mundial e cômputo das almas. Porém, os jesuítas eram poucos na imensidão dos mares. Foi preciso priorizar as partes do mundo onde a colheita de almas parecia mais prometedora.

Na África, a tarefa dos missionários era difícil por causa da resistência dos nativos e do tráfico negreiro. No Japão, houve o combate organizado contra os ocidentais e os jesuítas. O último filme de Scorsese, Silent, trata justamente deste episódio, vivido e sofrido por jesuítas portugueses. Expulsos do Japão, os jesuítas trabalharam com entusiasmo na evangelização da China, tentando converter o país de cima para baixo, da corte imperial de Pequim, das elites, para as províncias, até as aldeias.

Ganhar a China daria para os católicos uma vitória acachapante contra os protestantes na contagem planetária das almas. Com o jesuíta Matteo Ricci (este sim, tem uma história que daria um filmão), quase que os católicos ganharam. Mas os papas e a Cúria romana desconfiaram da mistura de cristianismo e confucionismo proposta por Ricci e travaram o proselitismo jesuíta na China.

No século 19, depois da abertura da China aos Estados Unidos e à Europa, houve outra ofensiva missionária cristã na China. Desta vez, ao lado dos padres católicos havia os pastores protestantes, sobretudo americanos, patenteando a rivalidade entre os discípulos de Lutero e o Vaticano. A Revolução Chinesa fechou brutalmente este segundo ciclo do cristianismo na China. Desde de 1951 Pequim e o Vaticano não mantêm relações diplomáticas.

Com a descolonização europeia, a África se tornou um terreno de disputa entre pregadores muçulmanos, católicos e protestantes. A relativa liberalização da China, também suscitou o interesse dos missionários. Assim, através de discretos contatos com o arisco regime de Pequim, o jesuíta papa Francisco retomou o trabalho de aproximação entre o Vaticano e a China. Admirador do sábio Matteo Ricci, o papa Francisco pode muito bem santificá-lo no processo de aproximação com a China.

No século 21, haverá de novo o embate entre a Reforma de Lutero e o Vaticano na conquista das almas chinesas?

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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