Trump favorece o avanço da China no Pacífico

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

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    18.nov.2016 - O presidente eleito de Estados Unidos, Donald Trump, se reuniu com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, em Nova York

    18.nov.2016 - O presidente eleito de Estados Unidos, Donald Trump, se reuniu com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, em Nova York

Um dos múltiplos anúncios impactantes feitos nos últimos dias por Donald Trump terá consequências consideráveis na geopolítica mundial. Efetivamente, ao comunicar que irá retirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífico (TPP), logo no primeiro dia de seu mandato, Trump abre um grande espaço para a diplomacia comercial chinesa.

Integrando 12 países do Pacífico, notadamente os EUA, Japão, Malásia, Austrália, Canadá, México, Chile e Peru, o acordo comercial do TPP, assinado em 2015, mas ainda não ratificado pelos países-membros, cobre 40% da economia mundial. Deixando de lado a Coreia do Sul e, sobretudo, a China, o TTP retrata a rivalidade global sino-americana.

O perfil ideológico do Tratado foi claramente definido pelo presidente dos EUA na assinatura do TPP. "Sem este acordo, os concorrentes que não compartilham nossos valores, como a China, decretarão as regras da economia mundial", declarou Obama.

Em 2015, o PIB dos EUA correspondia a 1,6 vezes o PIB da China. Mas as projeções indicam que por volta de 2026 a economia chinesa irá ultrapassar a economia americana. Trump vê a China como uma ameaça e acusou o governo de Pequim de perpetrar "o maior roubo da história do mundo" no seu comércio com os Estados Unidos. Nesta perspectiva, ele pretende aumentar as tarifas alfandegárias sobre os produtos chineses importados nos EUA. 

No início, havia falado de uma tarifa de 45%, depois ele desmentiu. Contudo, o futuro presidente pode, como fez temporariamente o presidente Obama em 2009, instaurar uma tarifa de 15% sobre um ou vários produtos chineses. Segundo os analistas da Bloomberg, na hipótese de uma tarifa de 15% sobre a generalidade das importações chinesas, o PIB da China sofreria uma contração de 1,8%. Configura-se o cenário de uma guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas mundiais.

De imediato, a saída dos Estados Unidos anuncia a fim do TPP. A irritação é grande nos setores americanos favoráveis ao tratado, mas também nos outros onze países signatários, que empreenderam um grande esforço para levar a bom termo as negociações do TPP. Obviamente, a China aproveitará o recuo americano para avançar seus peões na Ásia e alhures. Pequim já teceu uma série de acordos econômicos entre os 16 países do Partenariado Econômico Regional (RCEP), que compreende, além da China, a Índia, a Indonésia e sete países que são membros do moribundo TPP (Austrália, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Singapura, Vietnã e Brunei).

Neste contexto, como assinalaram órgãos da mídia americana, o RCEP, e a China, aparecem grandemente favorecidos pela política comercial anunciada por Trump. Apartando-se, por uma vez, de seu proverbial realismo, a "Economist" adjura os 11 países do TPP a preservaram o tratado a despeito das decisões de Trump, na esperança de que os Estados Unidos "mudem de opinião" no futuro.

Trata-se de um conselho cândido que tem poucas chances de ser seguido pelos outros países membros. O comportamento errático de Trump, seu populismo, e as complexidades das relações da Casa Branca com o Congresso parecem condenar o TPP no médio prazo.

Mesmo que os EUA "mudem" de ideia mais adiante, a China já terá criado no Pacífico outra relação de forças que limitará o protagonismo comercial e diplomático americano.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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