Quem perde e quem ganha com a eleição de Macron na França?

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Christian Hartmann/ Reuters

    O presidente eleito da França Emmanuel Macron acena discurso da vitória, em Paris

    O presidente eleito da França Emmanuel Macron acena discurso da vitória, em Paris

A eleição de Macron à presidência francesa, prevista pelas sondagens e pela mídia, mas imprevisível nos seus desdobramentos de longo prazo, teve vencedores e perdedores dentro e fora da França. Para avaliar a margem de manobra do novo presidente, é interessante elencar quem perdeu e quem ganhou no plano internacional.

O primeiro perdedor da eleição de domingo (7) é o Reino Unido e os setores anti-União Europeia (UE). De cara, é preciso fazer uma nuance. Se Marine Le Pen vencesse, Theresa May e governo britânico também teriam problemas com o ultranacionalismo da Frente Nacional e com o terremoto gerado instantaneamente na UE e na zona euro. Contudo, a vitória de Macron dá um novo impulso ao projeto europeu, à zona euro e relança a aliança franco-alemã, fundamental na história e no progresso da UE.

O Reino Unido ficará mais isolado e Theresa May terá que encarar interlocutores muito mais unidos e decididos em Bruxelas, nas longas e complexas negociações sobre o Brexit. Ainda no plano europeu, os países mais vulneráveis contam com Macron para amaciar o rigor orçamentário que a Alemanha impõe à toda zona euro. Tal é o sentido do apoio que Macron recebeu do filósofo alemão Habermas, pró-europeu convicto e mais destacado pensador da atualidade, e do economista de esquerda Iannis Varoufakis, o ex-ministro da Fazenda da Grécia.

Obama também apoiou Macron, marcando uma rara intervenção direta de presidentes ou ex-presidentes americanos na política francesa. Sem dar muito relevo à dimensão pró-europeia do movimento En Marche!, Obama preferiu elogiar os "valores progressistas" defendidos por Macron e sua campanha dirigida "às esperanças e não aos medos" dos eleitores.

A orelha de Trump deve ter ardido ao saber desta declaração. Trump é, de fato, ao lado de Theresa May, a outra liderança internacional que perde com a eleição de Macron. Tendo aplaudido o Brexit, Trump moderou em seguida seus ardores anti-UE. Mas sua estratégia continua privilegiando o desmonte da UE e dos tratados liderados pelos europeus, como o Acordo de Paris sobre o clima (COP21). Este é, aliás, um ponto em Trump e Macron estão em total desacordo. Num depoimento em que critica diretamente Trump, Macron se dirigiu aos "pesquisadores, cientistas e empresários" dos Estados Unidos trabalhando sobre a mutação climática e prejudicados pela política do novo presidente americano, para convidá-los a se mudarem para a França.

Putin e os setores governamentais e direitistas russos que procuram desestabilizar as eleições nos países democráticos ocidentais e a UE, também se alinham entre os perdedores. Como se sabe, bancos russos ligados ao Kremlin financiam o FN de Marine Le Pen e hackers russos procuraram prejudicar Macron vazando dados de sua campanha.

Numa escala bem menor, e sem nocividade ou malícia política, o papa Francisco e a hierarquia católica francesa também perderam pontos com a eleição de Macron. Por quê? Sucede que diante dos perigos da candidatura de Le Pen, representantes da comunidade judaica, muçulmana e protestante, "numa mesma voz", pregaram o "voto republicano em Emmanuel Macron". Porém, os bispos católicos tergiversaram, divididos entre fiéis conservadores que votam na Frente Nacional e progressistas do campo oposto.

O comunicado do episcopado lembrou a preocupação pela construção da UE e pelo respeito dos imigrantes, mas não apoiou "nem um nem outro candidato" à presidência. Perguntado sobre sua preferência, o papa Francisco disse que "não sabia de onde vinha" Emmanuel Macron e se eximiu de comentar o escrutínio presidencial.

A declaração foi mal recebida na França e em outros países, inclusive entre o clero e os católicos praticantes que, no final das contas, votaram majoritariamente em Macron. Ficará, no entanto, a constatação de que, ao contrário das outras três grandes religiões, a hierarquia católica Igreja deixou de tomar uma posição clara num momento crítico da história da França.

 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

UOL Cursos Online

Todos os cursos