Enquanto Trump ataca o Irã, ele está atingindo a Europa

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Evan Vucci/AP

    8.maio.2018 - Presidente Donald Trump mostra o memorando assinado após declarar que os EUA vão se retirar do acordo nuclear do Irã

    8.maio.2018 - Presidente Donald Trump mostra o memorando assinado após declarar que os EUA vão se retirar do acordo nuclear do Irã

A decisão do presidente Trump de se retirar do Acordo Nuclear Iraniano teve consequências que vão bem além do Oriente Médio. Para as instituições da União Europeia, como para a França, a Alemanha e o Reino Unido, também signatários do Acordo, ao lado da China e da Rússia, o ato de Trump se revelou tão insultante quanto irresponsável.

Trump ouviu o arrazoado dos dirigentes europeus dos três países que visitaram separadamente a Casa Branca para convencê-lo a não sabotar o Acordo. Ouviu, e foi em frente, rompendo o Acordo, agravando as sanções contra o Irã e humilhando os europeus. 

O embaixador americano na Alemanha, Richard Grenell, ao assumir seu posto em Berlim imediatamente tuitou que as firmas alemãs que tinham negócios no Irã deviam cessar suas atividades "imediatamente". 

"Horas depois de assumir seu posto, o embaixador de Trump na Alemanha ofende seus anfitriões", manchetou o Washington Post.  A principal revista semanal alemã, Der Spiegel, escreveu no seu site online que a declaração do embaixador Grenell "soou mais como as palavras de uma potência colonial dando ordens do que as de um diplomata num país aliado".

Como notou a mesma revista, os europeus têm agora três novos problemas para se preocupar: as consequências da agravação da crise com Irã na segurança da Europa, os riscos das companhias europeias que investiram no Irã, e o futuro das relações euro-americanas. Após a assinatura do Acordo em 2015 e o fim das sanções econômicas contra o governo iraniano, resultado de 12 anos de negociações complexas ratificadas pelo Conselho de Segurança da ONU, as grandes empresas europeias fizeram grandes investimentos no Irã.

As trocas entre os países europeus e o Irã subiram de 9 bilhões de dólares em 2015 para 24 bilhões em 2017.  A Alemanha é o principal exportador europeu para o Irã, vem em seguida a Itália, a França e o Reino Unido (RU). O grupo de aviação europeu Airbus, que tem fábricas na França, RU, Alemanha e Espanha assinou contratos no valor de 19 bilhões de dólares para a venda de 100 aviões à duas companhias aéreas iranianas. 

As firmas americanas serão pouco atingidas pela ampliação das sanções decididas por Trump, visto que os Estados Unidos mantiveram seu comércio com o Irã praticamente nos mesmos níveis -, por volta de 200 milhões de dólares anuais -, antes e depois de 2015. O Irã também pode mitigar os efeitos da ruptura comercial americana e europeia se expandir, como será certamente o caso, suas exportações de petróleo para a Índia e a China.

Aliás, a China já é o primeiro parceiro comercial do Irã e logo no dia 13 de maio, um dia após a data limite da decisão americana sobre o Acordo, Mohammad Javad Zarif, ministro das relações exteriores iraniano, viajou à Pequim para se encontrar primeiro com as autoridades chinesas, antes de encontrar os ministros da França, Alemanha e Reino Unido em Bruxelas.

Sob pressão americana no caso da alta tarifária que Trump decretou sobre as importações de aço e alumínio nos Estados Unidos, a União Europeia tem agora que lidar com o impacto que a ruptura das relações comerciais com o Irã provocará nas economias de seus principais países membros.

Para o Spiegel, o ato de Trump contra o Acordo Nuclear Iraniano é a "decisão mais despreparada e perigosa" tomada por um presidente americano desde a entrada de guerra dos Estados Unidos contra o Iraque em 2003. No Le Monde, o editorialista Gaïdz Minassian escreveu nesta semana a ascensão da China frente ao desentendimento entre a política americana e europeia, deu início a um processo de "desocidentalização" do mundo. 

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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