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China, Japão e Brasil perante o envelhecimento populacional

Mulher no Japão segura o robô Paro, feito para "cuidar" de idosos - Kim Kyung-Hoon/ Reuters
Mulher no Japão segura o robô Paro, feito para 'cuidar' de idosos Imagem: Kim Kyung-Hoon/ Reuters
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

23/08/2018 20h09Atualizada em 24/08/2018 15h43

A China e o Japão acumulam séculos de rivalidade. Mas atualmente ambos os países lidam com um problema parecido: o envelhecimento de suas respectivas populações.

Na China, a complicação é relativamente recente e decorre da planificação típica de regimes ditatoriais. Em 1979, quando a população do país alcançava a cifra de um bilhão de habitantes, o governo de Deng Xiaoping implementou a política de "um filho" por família. Métodos coercitivos foram usados, com mais vigor nas cidades do que nos campos chineses, para impor o planejamento familiar. Além de várias sanções às famílias que tinham mais de um filho, o governo chinês também infligiu abortos e esterilização aos casais, visando sobretudo as mulheres, no começo dos anos 1980. Desde então, a queda de nascimentos foi se acentuando.

Com o aumento da longevidade, e a esperança de vida subindo de 66 anos em 1979 para 76 anos em 2016, a maré dos habitantes idosos começou a subir. Preocupado, o governo de Beijing revogou a política de "um filho" em outubro de 2015, anunciando oficialmente que as famílias poderiam passar a ter dois filhos. Mas o mal já estava plantado na pirâmide etária e a proporção de idosos continuou crescendo.

No final de 2017 constatou-se que os maiores de 60 anos formavam perto de um quinto da população (241 milhões de pessoas, ou seja 17,3% dos chineses). De acordo com os órgãos governamentais, esta proporção subirá para 34,9% por volta do ano 2050. Para tentar remediar, o governo estuda acabar com a política dos "dois filhos" e deixar a decisão sobre o número de filhos às próprias famílias chinesas. Porém, os especialistas dizem que a taxa da natalidade não aumentará espontaneamente. Será preciso introduzir no país uma verdadeira política natalista, diminuindo os impostos pagos pelos casais que tem dois ou mais filhos, criando creches para que as mulheres possam combinar maternidade e trabalho fora de casa etc.

No Japão, o problema é bem mais grave. A porcentagem de japoneses maiores de 65 anos atingirá 30% da população do país em 2022 e 40% em 2050. Não há mais muita margem de manobra para o governo japonês e o país deverá facilitar a entrada de trabalhadores estrangeiros. Apesar do noticiário em torno dos decasséguis nipo-brasileiros que migraram para o Japão a partir dos anos 1980, a proporção de imigrantes no país é relativamente baixa, comparada a outras nações industrializadas.

Assim, nos países da Europa Ocidental a porcentagem de imigrantes varia entre 8% e 25% da população. No Japão, esta proporção corresponde a menos de 2% do total dos habitantes. Geralmente restrita aos trabalhadores qualificados, a política imigratória se volta agora para os trabalhadores menos qualificados. No último mês de maio, o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou que o país recrutará mais de 500 mil estrangeiros até 2025 para trabalhar na agricultura e na construção civil. Mas há também penúria de trabalhadores noutros setores e a Câmara de Comércio do Japão informou que 65% dos donos de pequenas e médias têm dificuldade para preencher vagas a despeito do aumento dos salários.

Cedo ou tarde, a discussão sobre a política natalista e imigratória também chegará ao Brasil. No mês passado, o IBGE divulgou novas projeções, mostrando que o pico da população brasileira ocorrerá em torno de 2047, quando o número de habitantes atingirá 233,2 milhões de indivíduos. A partir daí o número de habitantes declinará regularmente. Se nada mudar, a ONU calcula que o país terá 190 milhões de habitantes em 2100. Como comparação, em 1990, foram registrados 147 milhões de habitantes. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL