Sanders é o herdeiro do Obama candidato; Hillary é a herdeira do Obama presidente

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Randall Hill/Reuters

Ainda existe um bom número de analistas decididos a fingir que os dois grandes partidos dos EUA são simétricos --igualmente resistentes a enfrentar a realidade, igualmente levados a posições radicais por interesses especiais e partidários fanáticos. Isto é absurdo, é claro. A organização Planned Parenthood (Paternidade Planejada) não é a mesma coisa que os irmãos Koch, nem Bernie Sanders é o equivalente moral de Ted Cruz. E não há qualquer espécie de contrapartida democrata para Donald Trump.

Além disso, quando os autoproclamados analistas de centro falam sério sobre as políticas que desejam, eles têmde se contorcer para não admitir que o que estão descrevendo são basicamente as posições de um homem chamado Barack Obama.

Mas existem algumas correntes em nossa vida política que percorrem os dois partidos. E uma delas é a persistente ilusão de que uma maioria oculta de eleitores americanos apoia ou pode ser convencida a apoiar políticas radicais, se a pessoa certa defender a tese com fervor suficiente.

Você vê isso à direita entre os conservadores da linha-dura, que insistem que só a covardia dos líderes republicanos evitou o retrocesso de todos os programas progressistas instituídos nas últimas gerações. Na verdade, você também vê uma versão dessa tendência entre os republicanos educados, do tipo clube de campo, que continuam imaginando que representam a corrente dominante do partido, embora as pesquisas demonstrem que quase dois terços dos prováveis eleitores nas primárias apoiam Trump, Cruz ou Ben Carson.

Enquanto isso, à esquerda sempre há um contingente de eleitores idealistas ávidos para acreditar que um líder com intenções suficientemente boas pode convocar os melhores anjos da natureza americana e convencer o público em geral a apoiar uma reforma radical de nossas instituições.

Em 2008 esse contingente se uniu atrás de Obama; agora apoia Sanders, que adotou uma posição tão purista que no outro dia rejeitou a Planned Parenthood (que apoiou Hillary Clinton) como sendo parte do "establishment".

Entretanto, como o próprio Obama descobriu assim que assumiu o cargo, a retórica transformacional não é como acontecem as mudanças. Isto não quer dizer que ele seja um fracasso. Pelo contrário, tem sido um presidente extremamente consequente, fazendo mais em prol da agenda progressista do que qualquer pessoa desde Lyndon Johnson.

Mas suas realizações dependeram em todas as etapas de aceitar que meio pão é melhor que nenhum: a reforma da saúde que deixa o sistema principalmente privado, a reforma financeiraque restringe seriamente os abusos de Wall Street sem romper plenamente seu poder, altos impostos para os ricos, mas sem um ataque em grande escala contra a desigualdade.

Há uma espécie de minidisputa entre os democratas sobre quem pode reivindicar ser o verdadeiro herdeiro de Obama --Sanders ou Hillary? Mas a resposta é óbvia: Sanders é o herdeiro do candidato Obama, mas Hillary é a herdeira do presidente Obama. (Na verdade, a reforma da saúde que tivemos foi basicamente uma proposta dela, e não dele.)

Obama poderia ter sido mais transformacional? Talvez ele pudesse ter feito mais nas margens. Mas a verdade é que foi eleito sob as circunstâncias mais favoráveis possíveis, uma crise financeiraque desacreditou totalmente seu antecessor, e ainda enfrentou oposição beligerante desde o primeiro dia.

E a pergunta que os apoiadores de Sanders fariam é: quando sua teoria de mudança funcionou? Até mesmo Franklin Roosevelt, que navegou as profundezas da Grande Depressão com uma enorme maioria, teve de ser politicamente pragmático, trabalhando não apenas com grupos de interesse especial como também com sulinos racistas.

Lembre também que as instituições que Roosevelt criou foram acréscimos, e não substituições: a Seguridade Social não substituiu as aposentadorias privadas, diferentemente da proposta de Sanders de substituir o seguro-saúde privado pelo sistema de pagador único [o Estado]. Ah, e a Seguridade Social originalmente cobria só a metade da força de trabalho, e em consequência excluiu a maioria dos afro-americanos.

Só para esclarecer: não estou dizendo que alguém como Sanders seja inelegível, embora os republicanos evidentemente preferissem enfrentá-lo, em vez de Hillary --eles sabem que suas pesquisas atuais são insignificantes porque ainda não enfrentou a máquina de ataque republicana. Mas caso Sanders se torne presidente acabará enfrentando as mesmas duras realidades que restringiram Obama.

A questão é que embora o idealismo seja bom e essencial --você tem de sonhar com um mundo melhor--, não é uma virtude a menos que seja acompanhado por um idealismo teimoso sobre os meios para atingir seus fins. Isto é verdadeiro mesmo quando, como Roosevelt, você surfa uma onda política para chegar ao cargo. É ainda mais verdadeiro para um(a) democrata moderno(a), que terá sorte se seu partido controlar uma única casa do Congresso em algum momento desta década.

Desculpe, mas não há nada nobre em ver seus valores derrubados porque você preferiu sonhos felizes em vez de pensamento firme sobre meios e fins. Não deixe que o idealismo se desvie para a autoindulgência destrutiva.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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