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Correntes históricas profundas estão em jogo na Síria e solução envolve presença de árbitro bem armado

Iranianos carregam o caixão do comandante Hassan Shateri, presidente da Comissão Iraninana para a Reconstrução do Libano, que foi morto quando viajava na Síria em direção ao Líbano - Saeed Karimi Nejad/Fars News/AFP
Iranianos carregam o caixão do comandante Hassan Shateri, presidente da Comissão Iraninana para a Reconstrução do Libano, que foi morto quando viajava na Síria em direção ao Líbano Imagem: Saeed Karimi Nejad/Fars News/AFP

18/02/2013 00h01

Será que os Estados Unidos devem intervir para interromper o derramamento de sangue na Síria? Eu estou dividido entre quatro pontos de vista diferentes: de Nova Déli, de Bagdá, de Tel Aviv e da Organização das Nações Unidas (ONU).

Na semana passada eu me encontrei com um grupo de estrategistas indianos no Instituto de Estudos e Análises de Defesa para conversar sobre como os EUA deveriam realizar sua retirada do Afeganistão e se concentrar nos interesses de Índia, Paquistão e Irã. Em determinado momento, eu lancei uma ideia na discussão – à qual um dos analistas indianos respondeu: isso já foi tentado antes, “no século 11”. Isso não funcionou bem. É por esse motivo que eu gosto de ir a Nova Déli para falar sobre a região. As autoridades indianas tendem a pensar em séculos, e não meses, e elas olham para o mapa do Oriente Médio sem considerar nenhuma das fronteiras coloniais desenhadas pelos britânicos. Em vez disso, eles só veem as civilizações antigas (da Pérsia, da Turquia, do Egito), as crenças antigas (xiitas, sunitas e hindus) e os povos antigos (pashtuns, tadjiques, judeus e árabes) – todos interagindo de acordo com padrões de comportamento definidos há muito tempo.

“Se você quer entender esta região, basta pegar um mapa que vai do Ganges até o Nilo e remover as fronteiras traçadas pelos britânicos”, comentou M.J. Akbar, veterano jornalista e autor indiano muçulmano. Esse mapa levará você de volta às verdadeiras correntes históricas que governam o Oriente Médio há muito tempo “e para os interesses definidos pelas pessoas e tribos, e não apenas pelos governos”.

Quando você olha para a região dessa forma, o que você vê? Primeiro, você vê que não é possível os EUA manterem o Afeganistão estável depois de retirar suas tropas sem se aliar ao Irã. Devido aos antigos laços entre o xiitas iranianos e os xiitas afegãos de língua persa de Herat, a terceira maior cidade do Afeganistão, o Irã sempre foi e sempre será uma peça importante e influente na política afegã. O Irã xiita nunca gostou do Talibã sunita. “O Irã é o oponente natural do extremismo sunita”, disse Akbar. É do interesse do Irã “enfraquecer o Taleban”. É por isso que os EUA e o Irã eram aliados tácitos para derrubar o Talibã, e eles serão aliados tácitos na prevenção do retorno do Taleban.

Por isso, olhando a partir da Índia, a luta na Síria parece apenas mais um capítulo na longa guerra civil entre sunitas e xiitas. O combate na Síria é uma guerra por procuração entre a Arábia Saudita e o Qatar – duas monarquias governadas por sunitas e que estão financiando os “democratas” sírios, que são, em sua maioria, sunitas sírios – e o Irã xiita e o regime xiita-alauíta sírio. Essa é uma guerra que nunca acaba; ela só pode ser reprimida.

É por isso que em Israel alguns generais israelenses estão começando a perceber que, se a guerra na Síria será uma luta até a morte, ela pode representar uma ameaça estratégica tão grande para Israel quanto o programa nuclear iraniano. Se a Síria se desintegrar e se transformar em outro Afeganistão – bem na fronteira com Israel – ela seria uma terra indomável, com jihadistas, armas químicas e mísseis terra-ar flutuando livremente.

Será que o colapso pode ser evitado? Em Washington alguns esperavam que se o regime de Bashar Assad em Damasco fosse derrubado rapidamente, o Ocidente e os sunitas poderiam tirar a Síria da órbita soviética-iraniana e fazê-la passar à órbita sunita-saudita-norte-americana. Eu tenho minhas dúvidas. Duvido que a Síria possa ser atraída na forma de um território único: o país deve se desmembrar em regiões sunitas e alauítas. E, se nós conseguirmos atrair a Síria, o Irã tentaria atrair para si o Iraque – que é predominantemente xiita – e o Bahrein.

Alguns diplomatas árabes na ONU argumentam, porém, que existe um meio termo. Mas, segundo eles, para alcançá-lo seria necessária a liderança dos EUA: primeiro, seria necessário mobilizar o Conselho de Segurança da ONU para que fosse aprovada uma resolução solicitando a criação de um governo de transição na Síria com “plenos poderes” e com representação paritária de alauítas e dos rebeldes sunitas. Se os russos fossem persuadidos a apoiar essa resolução (e isso não será fácil), seria possível romper o impasse dentro da Síria, pois muitos partidários do regime perceberiam que o fim estaria próximo e abandonariam Assad. O problema seria dizer aos russos que, caso eles decidam não apoiar essa resolução, os EUA começariam a enviar armas para os rebeldes seculares e moderados da Síria.

Será que realmente é possível haver uma política de meio termo que abarque a abordagem “all-in” de George W. Bush para transformar o Iraque e a abordagem “mexeu-é-seu-então-não-mexa” de Barack Obama para a Síria? Precisamos estudar o Iraque. A lição a ser aprendida com o Iraque é que correntes históricas profundas estavam no jogo lá – sunitas contra xiitas e curdos contra árabes. As eleições iraquianas de dezembro de 2010 demonstraram, porém, é possível a convivência de partidos multissectários e do Estado democrático no país – e que esse cenário, na verdade, é a primeira opção para a maioria dos iraquianos. Mas os Estados Unidos teriam que manter algumas tropas no Iraque por mais uma década para garantir que a mudança do sectarismo para o multissectarismo será minimamente autossustentável. A Síria é irmã gêmea do Iraque. A única maneira de realizar uma transição para o multissectarismo seria por meio de uma resolução da ONU apoiada pela Rússia e por um árbitro bem armado e com presença em campo para persuadir, induzir e, se necessário, obrigar (pelo uso da força) as partes a viverem juntas.

Esse é o Oriente Médio, Jake.

Se você quiser alcançar uma boa resolução, é melhor que você adote os meios adequados para tal. Só será possível mudar a situação política “se você disser que irá permanecer (na região) durante cem anos”, insiste Akbar. Mas ninguém quer mais bancar o “império”. Nesse caso, ele argumenta, sempre é melhor não ficar muito tempo em nenhum desses países – cinco meses sim, mas não cinco anos. Cinco anos, diz Akbar, é apenas tempo suficiente para que as pessoas odeiem você, mas não para que temam ou respeitem você – e muito menos para que elas mudem seus hábitos de longa data.

Tradutor: Cláudia Gonçalves