A Paris que amamos também é a Paris de nossa imaginação coletiva

Umberto Eco

Umberto Eco

  • Sebastien Nogier/EFE

Na noite do massacre do mês passado em Paris, eu estava, como muitos outros, grudado na televisão. Eu conheço a cidade muito bem e tentava descobrir onde exatamente os vários ataques estavam ocorrendo. Eram próximos de onde vivem alguns dos meus amigos? Quão perto foi da editora ou do restaurante aos quais sempre vou? Fiquei mais tranquilo quando percebi que a violência tinha ocorrido longe, na Margem Direita, enquanto meu próprio universo parisiense gira em torno da Margem Esquerda.

Isso não fez nada para diminuir meu horror e choque, mas me senti como se tivesse perdido o embarque em um avião que posteriormente caiu. Até aquela noite horrível, ninguém tinha considerado seriamente que uma brutalidade indiscriminada dessas poderia ocorrer tão perto de casa. Sempre parecia ser a tragédia de outra pessoa –em outro lugar– que lamentávamos.

Comecei a me sentir levemente desconfortável ao repetir a palavra "Bataclan" para mim mesmo –eu conhecia o nome de algum lugar, mas não conseguia situá-lo. Finalmente me lembrei: um dos meus romances foi apresentado no teatro há cerca de 10 anos. Eu já estive no Bataclan e poderia voltar. Então, quase imediatamente, notei que o teatro fica localizado a apenas poucos passos do Bulevar Richard Lenoir –a mesma rua onde vivia Jules Maigret, o famoso comissário de polícia dos romances de mistério de Georges Simenon.

Alguns podem dizer que é impróprio invocar o imaginário quando ocorrem eventos assustadoramente reais como esse. Eu discordo. Na verdade, é precisamente as associações fictícias de Paris que explicam por que a carnificina nos afetou tão profundamente, mesmo quando massacres terríveis já ocorreram em outras cidades. Nós já vimos Paris representada em romances, filmes e outras obras de arte com tanta frequência que a Paris imaginária se fundiu à real, de modo que pode ser vista como se já tivéssemos vivido lá (mesmo que não) e que Paris é nossa cidade natal.

Essa Paris imaginária é tão real quanto a Paris que vivenciou a decapitação de Luís 16, a tentativa de Felice Orsine de assassinar Napoleão 3º e a libertação dos nazistas. Por que do que nos lembramos são os eventos em si, que a maioria de nós não testemunhou, ou a forma como foram retratados nos livros e filmes?

Nós vimos Paris ser libertada nas telas em "Paris Está em Chamas?", assim como vimos uma Paris mais distante, do século 19, em "O Boulevard do Crime", de Marcel Carné. Nós revivemos o mundo de Édith Piaf, apesar de nunca termos feito parte dele, e todos sabemos sobre a rua Lepic, simplesmente porque amamos a canção de Yves Montand sobre a mesma rua.

Quando caminhamos às margens do Sena, parando nas bancas de livros usados, nós revivemos as muitas caminhadas fictícias sobre as quais lemos, da mesma forma que ao visitarmos Notre Dame, dificilmente deixamos de pensar em Quasímodo e Esmeralda. Nossas lembranças de Paris incluem os mosqueteiros duelando no convento das carmelitas descalças, a Paris das cortesãs de Balzac, a Paris de Lucien de Rubempréand Eugène de Rastignac, de Frédéric Moreau e da madame Arnoux, de Gavroche das barricadas, de Charles Swann e Odette de Crécy.

Nossa Paris é a cidade de Montmartre na época de Picasso e Modigliani, de Maurice Chevalier, e de "An American in Paris" de Gershwin. Também é a cidade do impiedoso criminoso de ficção Fantômas e, é claro, a do comissário Maigret, cujos casos seguimos durante todas aquelas longas noites no quartel-general da polícia em Quai des Orfèvres.

Temos que reconhecer que essa Paris imaginária nos ensinou muito sobre o que sabemos sobre a sociedade, amor, vida e morte. Assim, um golpe foi desferido contra nossa casa, uma casa na qual vivemos por mais tempo do que vivemos em nossas casas reais. Ainda assim, todas as nossas memórias de Paris nos dão esperança –como dizem, "la Seine roule roule", o Sena continua fluindo.

*Umberto Eco é autor dos best-sellers internacionais "Baudolino", "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucault", entre outros.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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