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Imobiliária Bolsonaro S/A só negocia com dinheiro vivo

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

11/08/2020 18h13

"E o Brasil, tem jeito?", me pergunta o entregador de comida, e já sai andando, sem esperar resposta, balançando a cabeça.

Eu tinha acabado de ler a reportagem de Juliana Del Piva e Chico Otávio, no Globo, sobre mais um negócio imobiliário da família Bolsonaro feito com dinheiro vivo.

Rogéria, a primeira ex-mulher do presidente, mãe do 01, 02 e 03, comprou um apartamento na zona norte do Rio por R$ 95 mil, em 1996, pagando em moeda corrente no país.

O valor atualizado pela inflação seria de R$ 621 mil. Alguém já pensou em pagar uma compra hoje nesse montante em dinheiro vivo?

Precisaria de uma mala maior do que aquela do Rocha Loures, que carregava R$ 500 mil para o ex-presidente Temer, e saiu correndo pela rua.

Pagar tudo em dinheiro vivo tornou-se uma prática da família desde que o patriarca Jair foi eleito vereador no Rio, em 1988, depois de ser afastado do Exército, num processo bastante rumoroso, dando início à dinastia.

Três anos depois, ele elegeu Rogéria para a Câmara de Vereadores e alçou voo para se tornar deputado federal por sete mandatos consecutivos. Nunca teve outro emprego na vida.

Já separada de Bolsonaro, Rogéria não conseguiu se reeleger pela segunda vez e perdeu a cadeira para o filho Carlos, apoiado pelo pai, quando tinha apenas 17 anos.

Nos seus dois mandatos, Rogéria Bolsonaro teve 66 assessores, com algum grau de parentesco entre eles, como mostrou levantamento da revista Época.

Membros dessas famílias ocupariam depois cargos nos gabinetes de Jair, na Câmara dos deputados em Brasília, de Carlos e de Flávio, que seria eleito deputado estadual em 2003.

No ano passado, reportagem do Globo mostrou que os 102 assessores parlamentares dos Bolsonaros tinham laços familiares.

Essa tropa era comandada pelo ex-PM Fabrício Queiroz, amigo de Bolsonaro desde os tempos do Exército, que se tornou uma espécie de gerente geral dos gabinetes e operador das contas bancárias da família.

Boa parte desses assessores parlamentares era formada por funcionários "fantasmas", que abasteciam o esquema das "rachadinhas" com parte dos seus salários, recolhidos por Queiroz, e por ele distribuídos para pagar as contas da família, que resolveu investir em imóveis com o excedente.

Entre esses assessores, ele contratou a mãe e a mulher do miliciano Adriano da Nóbrega, que foi seu parceiro na PM e deu aulas de tiro para Flávio Bolsonaro.

Foi assim que se formou a Imobiliária Bolsonaro S/A, que não está registrada na Junta Comercial, mas teve um grande crescimento ao longo dos mandatos familiares, negociando só com dinheiro vivo.

As negociações imobiliárias de Flávio agora são investigadas pelo Ministério Público do Rio por suspeita de lavagem de dinheiro. Além da compra e venda de imóveis com dinheiro vivo e altos lucros, é investigada também uma loja de chocolates. Flávio nega tudo e diz que isso é perseguição ao pai presidente.

Mas nunca ninguém ouviria falar nesta organização imobiliária-familiar-parlamentar se o ex-capitão Jair, que virou vereador e depois deputado, e colocou toda a família na política, não tivesse sido eleito presidente da República.

Se ele continuasse escondido no baixo clero da Câmara, defendendo torturadores e o aumento do salário dos militares, o milionário esquema das "rachadinhas" continuaria operando nas sombras.

O negócio era tão rentável que, durante os dez anos em que ficou casado com a segunda mulher, Ana Cristina Valle, Bolsonaro comprou 14 imóveis, avaliados em R$ 3 milhões na data da separação, e que hoje valem R$ 5,3 milhões, segundo a revista Época.

Em cinco transações, que somaram R$ 243,3 mil (R$ 680 mil em valores de hoje), Ana Cristina é investigada no inquérito sobre as "rachadinhas" no gabinete de Carlos Bolsonaro, onde ela trabalhou como assessora. Tudo em família.

Diante desses valores, foi até pequena a quantia depositada em cheques por Queiroz e sua mulher Márcia Aguiar na conta da atual mulher de Bolsonaro, a primeira dama Michelle. Foram apenas 89 mil.

Quando o primeiro cheque, de R$ 24 mil, apareceu na conta de Michelle, durante a investigação do esquema montado no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando Jair tinha acabado de ser eleito, o presidente deu de ombros, dizendo que era uma dívida que Queiroz estava pagando. E mais não disse nem lhe foi perguntado.

A origem e o destino dos milhões que passaram pelas contas de Fabrício Queiroz, durante todo o tempo em que foi um fiel operador dos Bolsonaros, são a grande dor de cabeça do presidente, que se recolheu ao silêncio há 45 dias e não quer nem ouvir falar desse assunto, desde que o velho amigo foi preso na casa do advogado da família, em Atibaia.

Por falar nisso, por onde anda o poderoso Frederick Wassef, o super-advogado que frequentava os palácios presidenciais com a maior intimidade, de quem nunca mais se ouviu falar?

Se o entregador de comida lesse essa misteriosa história ele encontraria a resposta. Acho que não tem jeito, não, amigo.

Vida que segue.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.