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Balaio do Kotscho

No grande dia de Dimas Covas, a 1ª vacina deveria ser de Drauzio Varella

                                 Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan: está chegando o grande dia de aplicar a primeira vacina brasileira                              -                                 MISTER SHADOW/ESTADãO CONTEúDO
Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan: está chegando o grande dia de aplicar a primeira vacina brasileira Imagem: MISTER SHADOW/ESTADãO CONTEúDO
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

09/01/2021 15h17Atualizada em 10/01/2021 08h24

"Ter medo da vacina é ridículo e, sendo um pouco rude, é burrice" (Drauzio Varella, na Carta Capital).

Faltam apenas 16 dias para a primeira vacina contra a covid-19 ser aplicada em São Paulo (no Brasil, ainda não sabemos quando será).

Quem vai ser o primeiro brasileiro a receber essa injeção de esperança, um líquido incolor, "límpido como a água", produzido no centenário Instituto Butantan?

Tenho uma sugestão: Dimas Tadeu Covas, o pai da vacina brasileira, poderia vacinar o seu colega Antônio Drauzio Varella, o médico mais popular e respeitado do país.

Seria um gesto de alta simbologia, no momento em que 50% dos entrevistados pelo Datafolha ainda se recusam a tomar a CoronaVac, por ter sido desenvolvida pelo Butantan em parceria com o laboratório Sinovac, da China, certamente com medo de virarem um jacaré comunista.

Doutor Dimas, 64, e doutor Dráuzio, 77, são paulistas, estudaram na mesma Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e têm trajetórias comuns no ensino e na pesquisa em instituições de saúde pública.

Ministério deveria estar fazendo campanha para população se vacinar em massa

O encontro de ambos no primeiro dia de vacinação, 25 de janeiro de 2021, seria um contraponto vigoroso aos negacionistas e terraplanistas que trabalham dia e noite para minar a confiança nas vacinas e gerar insegurança e medo na população.

Não basta ter a vacina: é preciso que todos se vacinem para que o país se livre da pandemia, que já matou mais de 200 mil brasileiros e continua matando mais de mil por dia, na segunda onda, lotando as UTIs e deixando hospitais públicos e privados sem leitos para receber novos pacientes.

É inacreditável que, até agora, o Ministério da Saúde ainda não tenha desencadeado uma grande campanha educativa, em todos os meios de comunicação, para mostrar a importância de todos se vacinarem. Os próprios veículos de mídia deveriam tomar esta iniciativa.

Pensando bem, o ministério nem pode, por vergonha, já que até agora não recebeu vacinas, nem seringas e agulhas para dar início ao Programa Nacional de Imunização.

Não dá para confiar no ministério, diz Drauzio Varella

Se Dimas Covas comandou todo o processo no Butantan, Drauzio Varella passou os últimos meses fazendo sua campanha particular e solitária pela vacinação da população, denunciando a inércia e a incompetência do Ministério da Saúde.

Vejam o que ele disse esta semana à revista Carta Capital:

O Brasil tinha o melhor programa de imunização gratuita do mundo. Substituímos pessoas-chave por incompetentes, que não têm ideia do que estão fazendo. Isso foi um crime contra a saúde dos brasileiros. Se você me perguntar se vai correr bem o programa de imunização, eu não tenho a menor ideia, porque não dá para confiar no Ministério da Saúde.

A "guerra das vacinas" entre o governo federal e o estadual não alterou a rotina de Dimas Covas, um cientista católico, devoto do frade e pensador italiano São Tomás de Aquino, que acorda todos os dias às 3h30 da madrugada para fazer as suas orações.

"É o momento em que faço minha reflexão, me examino, defino prioridades, procuro me ligar no absoluto", contou ele à repórter Angélica Santa Cruz, autora de um primoroso perfil de Dimas Covas publicado no Estadão, em dezembro, na reta final da produção da vacina.

A jornada de Dimas Covas

Escreve a repórter: "Se tudo der certo de agora em diante, Covas entrará para o rol dos grandes heróis da ciência brasileira. E, quem sabe, encerrará com chave de ouro a tensa corrida de longa distância que enfrentou nos últimos meses".

Ao longo desta jornada, Dimas emagreceu dez quilos, dormiu mal e viu pouco a família, que está em Batatais, no interior paulista, onde ele nasceu, enquanto vive acampado num flat em São Paulo.

"A CoronaVac é uma das opções mais seguras do mundo", garante o cientista, às vésperas do grande dia em que poderá provar que todo o sacrifício valeu a pena. "Faço isso por convicção interna, pela visão do meu papel no mundo. Isso me deixa muito confortável".

Para ajudar a divulgar a vacina de Dimas, bem que Drauzio Varella poderia ser o primeiro vacinado — por ser quem é, e pertencer duplamente aos grupos prioritários, pela idade e como profissional de saúde.

Esses dois ainda poderão ajudar a salvar muitas vidas, se ninguém atrapalhar. Precisam ser vacinados logo.

Bom final de semana.

Vida que segue.