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Balaio do Kotscho

Bolsonaro troca golpe militar por "rachadona" do Orçamento com o Centrão

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

26/12/2021 14h10

Como os militares não aderiram ao golpe planejado para o 7 de Setembro, Bolsonaro resolveu investir tudo numa grande "rachadona" do Orçamento com o Centrão para bancar sua campanha reeleitoral e a dos aliados.

Antes de sair em recesso, o Congresso oficializou o casamento de interesses desse presidencialismo de cooptação em 2022.

A tática é a mesma empregada desde sempre nos gabinetes parlamentares da família, que Jânio Quadros chamava de "fifty-fifty", no tempo em que o financiamento das campanhas ainda era privado.

Metade do dinheiro arrecadado com empresários custeava a campanha propriamente dita e a outra ia para suas contas pessoais. "Entre uma campanha e outra eu preciso viver, pagar minhas contas", explicava Jânio, ao justificar sua contabilidade.

Bolsonaro não precisou explicar nada para justificar o "fitty-fifty" que acertou com o Congresso, que ficou com 53% dos investimentos do Orçamento de 2021. Basta ver os números.

Do total de R$ 44 bilhões previstos para 2022, foram reservados R$ 21,1 bilhões para atender aos parlamentares, em emendas individuais, de bancada, de comissão ou de relator, boa parte delas secretas, "sem se comprometer com políticas públicas do governo ou com responsabilidade fiscal", como mostrou reportagem de Marcelo Godoy, publicada neste domingo no Estadão.

Políticas públicas simplesmente não existem. Quem decide para onde vai o dinheiro não é mais o ministro da Economia ou do Planejamento como era antigamente, quando os governos tinham um projeto nacional com prioridades para o desenvolvimento do conjunto do país

Agora, não: é tudo distribuído no varejo das conveniências dos parlamentares para atender aos seus redutos eleitorais. Na metade que cabe ao Executivo, as prioridades nos investimentos são das Forças Armadas, que ficam com a maior parte do bolo, mais do que Saúde e Infraestrutura, como mostrei em outra coluna esta semana.

Para manter esta engrenagem azeitada, Bolsonaro aparelhou todos os órgãos de controle e cortou recursos da máquina pública que está entrando em colapso.

Os efeitos dessa política perversa recairão sobre o próximo governo, que terá de mandar de volta aos quartéis os mais de 6 mil militares aboletados em cargos civis do governo e acabar com o tal "orçamento secreto", que sangra o Tesouro Nacional, atacado pela "rachadona" entre o Planalto e o Centrão, em que o ministro da Economia, Paulo Guedes, só faz figuração e conta lorotas do "crescimento em V".

"O próximo presidente vai experimentar um primeiro ano infernal em sua relação com o Congresso. Será uma batalha de vida ou morte para saber quem vai controlar a execução do orçamento", prevê o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), líder da oposição na Câmara, em declaração ao Estadão.

Em sua coluna de hoje no Globo, Miriam Leitão denuncia que Bolsonaro tem feito um ataque sistemático ao Estado usando um arsenal conhecido: "Corta cabeças de lideranças com alguma autonomia, aparelha e, depois, seca recursos. Assim ele fez com Ibama, ICMbio, IPHAN, Funai, Fundação Palmares, Ministério da Educação, Ministério da Saúde. Na Receita Federal, o governo cortou dinheiro da manutenção da máquina para ter recursos para aumentar salários da Polícia Federal".

Com isso, Bolsonaro conseguiu mobilizar contra ele toda a corporação de 1 milhão de servidores federais, que estão sem reajuste salarial desde 2017, para agradar a uma minoria armada, o que me faz pensar que ele, em ultimo caso, se as pesquisas confirmarem que não tem a menor condição de se reeleger, ainda desengavete a ideia do golpe, como Jânio de Freitas escreveu hoje em sua coluna na Folha.

A única boa notícia para Bolsonaro no último Datafolha é que 44% dos eleitores concordam que o país pode "virar comunista", conforme o resultado das próximas eleições.

Agitar a bandeira do "perigo vermelho" é a última que o presidente pode acenar para amedrontar os eleitores, já que a da antipolítica e a do combate à corrupção não servem mais, depois da sua volta ao Centrão, de onde nunca saiu.

"Eu sempre fui do Centrão", lembrou ele mesmo em agosto, quando acertou a "rachadona" com o bando de Arthur Lira (PP-AL) e Valdemar Costa Neto, o dono do PL, que lhe dará bom tempo de televisão e um caminhão de dinheiro para a campanha.

Engana-se quem imagina que Bolsonaro já jogou a toalha, depois das últimas pesquisas.

Muito ao contrário: celerado e inconsequente como é, o presidente está se preparando para a guerra eleitoral, radicalizando cada vez mais, criando confusão com as vacinas, montado em muito dinheiro do fundo partidário, aliados armados, apoio de boa parte da mídia e do mercado, sendo aplaudido na poderosa Fiesp, mobilizando a rede de fake news de Carlucho e companhia, agrotrogloditas, pecuaristas, sojeiros e garimpeiros dispostos a tudo para manter seu poder na Amazônia, motoqueiros, marombados e milicianos enfurecidos, bispos da grana e, principalmente, com a caneta na mão, no comando da "rachadona".

Quem viver, verá.

Até dia 2 de outubro, quando se abrirem as urnas, vamos ver de tudo, e mais um pouco. Nem Glauber Rocha, no auge dos seus delírios, poderia imaginar este cenário.

Vida que recomeça.

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