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Jamil Chade

Novo instrumento da geopolítica, vacina escancara erros do Itamaraty

17.nov.2020 - O presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo: ideia do Brasil "soberano", "pária orgulhoso", deixa o país sem recursos diplomáticos  - Marcos Corrêa/PR
17.nov.2020 - O presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo: ideia do Brasil "soberano", "pária orgulhoso", deixa o país sem recursos diplomáticos Imagem: Marcos Corrêa/PR
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

20/01/2021 04h00

A dificuldade do Brasil em obter acesso às vacinas ou insumos para sua produção não é um acidente. Mas resultado de escolhas políticas e estratégicas que, hoje, cobram seu preço. E no caso da pandemia da covid-19, um preço em forma de vidas.

Ao longo dos últimos dois anos, o Itamaraty e o Palácio do Planalto desmontaram décadas de uma tradição de construir pontes e de manter relações com todos, independente de suas vertentes ideológicas. FHC recebia Chávez e jantava com banqueiros e monarcas. Lula visitava Bush, ganhava prêmio em Davos e era herói em Porto Alegre, então sede do Fórum Social Mundial.

Sob a gestão de Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo, a ideologia tomou conta das escolhas diplomáticas. Se os sinais de isolamento ficavam cada vez mais claros nos últimos meses, a vacina contra a covid-19 escancarou que, em algum momento, a conta chega. E chegou.

Por meses, a chefia do Itamaraty atacou a China, insinuou que o governo de Pequim estaria usando a pandemia para ganhar força internacional, criticou seu embaixador em Brasília, denunciou o "comunavírus" e abriu um fosso inédito entre os dois países.

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde, revelou à coluna que diversas vezes foi sabotado pelo Itamaraty ao tentar uma aproximação com o embaixador da China em Brasília.

Agora, ao precisar que as autoridades chinesas liberem a exportação de insumos ou a entrega de mais doses da vacina, se encontram diante de uma muralha. A busca do Itamaraty, neste momento, é por encontrar um interlocutor que seja aceito pelos chineses para que uma negociação possa ocorrer.

Antes esnobadas, China e Índia devem impor pautas para socorrer o Brasil

Nas reuniões da Fiocruz e do Instituto Butantan, parte dos diretores acredita que Pequim não vai deixar de cumprir seus contratos comerciais com o Brasil, mas já admite que os chineses vão usar a dependência do país no tema sanitário para garantir que haja uma mudança na natureza da relação. E que, claro, o pacote chinês para a tecnologia 5G volte a ser considerado pelo governo federal.

No caso indiano, o uso do imunizante como instrumento de influência e poder é evidente. Maior produtor de vacinas do mundo, Nova Déli passou a usar sua fabricação como forma de costurar ou reforçar alianças em sua região contra a crescente hegemonia chinesa. Não por acaso, manda como "presente" milhões de doses para vizinhos em Bangladesh, Butão e outros.

O Brasil, enquanto isso, optou por aliar-se aos países ocidentais e romper com uma tradição de décadas na luta por acesso a remédios. Nos últimos três meses, o Itamaraty vem criticando abertamente a proposta da índia na OMC (Organização Mundial do Comércio) de suspender todas as patentes de vacinas, enquanto a pandemia durar. A meta dos indianos seria permitir que essas vacinas fossem fabricadas por empresas de genéricos, ampliando o abastecimento global.

Quando precisou da Índia, o Itamaraty foi obrigado a determinar a seus diplomatas que ficassem em silêncio na reunião em Genebra (Suíça), onde fica a sede da OMC, para não aprofundar a crise e enterrar de vez o país no final da fila entre aqueles que poderiam receber a vacina.

Brasil abandonou alinhamento com a Índia no comércio mundial

No campo comercial, o Brasil também optou por um afastamento dos países emergentes e da aliança que mantinha com a Índia na OMC. Em um acordo com Trump, o governo Bolsonaro aceitou que deixaria de ser tratado como um país em desenvolvimento nas negociações comerciais.

O gesto foi recebido com desprezo por parte dos demais países em desenvolvimento, irritados com a "traição" do Brasil.

Meses depois, a Índia deu o troco e vetou o nome de um dos diplomatas mais capacitados do Itamaraty para assumir o comando das negociações sobre o futuro do setor da pesca no mundo. O motivo: o temor de que a presidência brasileira significasse um posicionamento pró-países ricos.

Na OMS (Organização Mundial da Saúde), as escolhas feitas também terão consequências. Por semanas, o Brasil ficou distante da ideia de se criar uma aliança global para garantir a distribuição de vacinas aos países mais pobres. Naquele momento, em abril de 2020, o Ministério da Saúde informou à coluna que tinha "outras alianças" sendo consideradas. Porém jamais explicou quais eram.

Pressionado inclusive por senadores, o Itamaraty acabou cedendo e aderiu ao projeto Covax. Mas optou por pedir o menor número de doses possíveis, capaz de atender apenas a 10% da população. O sistema permitiria que o Brasil solicitasse uma cobertura de até 50%.

Diplomacia tratou OMS como antro de complô globalista

Um dos motivos para se recusar a buscar um maior engajamento não tinha nenhuma relação com os interesses nacionais. Mas sim evitar transformar a OMS no epicentro da resposta global contra a pandemia. Pela ideologia da nova diplomacia brasileira, tais instituições fazem parte de um "complô globalista", infiltrados por comunistas, e que tem como meta supostamente acabar com as soberanias nacionais.

Agora, se a OMS conseguir tirar o projeto do papel e começar a distribuir vacinas, o Brasil receberá um volume reduzido de doses.

Com o setor privado, a aposta em apenas poucos fornecedores também ficou evidenciada. Não foram poucas as empresas que indicaram surpresa com a frieza que foram tratadas no Planalto.

Dentro do Itamaraty, circula o pensamento de que a crise revelou os limites da estratégia do governo de privilegiar apenas alguns parceiros. Para opositores do chanceler, internamente no ministério, o caso enfraquece sua posição. Uma eventual incapacidade de resolver esse gargalo lhe poderia custar o cargo.

Vacina, segundo esses negociadores, é geopolítica. "Basta ver o nome que os russos escolhem para a sua", ironizou um diplomata brasileiro, numa referência à Sputnik — nome originalmente dado ao satélite soviético que marcou um dos momentos mais críticos da Guerra Fria.

Sem base científica e sem certificado médico, essas doses de ideologia encurralam o Brasil no tabuleiro dessa geopolítica, enfraquecem o país numa eventual reconstrução do sistema internacional no período pós-pandemia e, acima de tudo, matam.