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Jamil Chade

Atitude de líderes influencia taxa de mortes, diz chefe de investigação

Bolsonaro em ato pró-intervenção militar e contra o Congresso e o STF em 19 de abril em frente ao QG do Exército -  Pedro Ladeira/Folhapress
Bolsonaro em ato pró-intervenção militar e contra o Congresso e o STF em 19 de abril em frente ao QG do Exército Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/01/2021 11h36

O comportamento de líderes políticos diante do vírus determinou o número de casos de covid-19 e, como consequência, de mortes em um país. O alerta vem das chefes do comitê independente criado para investigar a resposta de governos e da OMS diante da pandemia, com o objetivo de reformar o sistema para impedir que uma nova pandemia volte a colocar o planeta de joelhos.

"Comportamento importa", disse Ellen Sirleaf, ex-presidente da Libéria, vencedora do prêmio Nobel da Paz e uma das líderes do processo de investigação da OMS. De acordo com ela, seu comitê ainda tenta descobrir todos os fatores que causaram a falta de uma resposta mais enfática por parte de governos diante da crise.

Mas ela destaca que, em países liderados por mulheres, a resposta foi mais eficiente. "Alguns fizeram o certo e posso dizer que, na maioria dos casos, eram países liderados por mulheres", disse. "Conseguiram conter o vírus", afirmou.

Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e co-presidente do comitê, também destacou que o estilo de liderança assumido por mulheres "parece ter tido resultados". "Isso inclui a capacidade de realizar mais consultas, colocar as pessoas no centro da política, estar pronta para aceitar conselho e trabalhar com base em evidências", disse.

Os comentários foram feitos pelas duas personalidades políticas ao serem questionadas pela coluna sobre como avaliavam o comportamento negacionista de líderes políticos diante da crise sanitária, entre eles o de Jair Bolsonaro.

Num amplo informe preparado por elas e apresentados aos governos nesta terça-feira, fica claro que houve um fracasso coletivo diante da pandemia. A China não respondeu à altura diante do surto em Wuhan, o sistema da OMS foi lento e governos em diferentes partes do mundo ignoraram os alertas. Resultado: um prejuízo de US$ 6 trilhões.

Clark defendeu que governos mudem suas rotas de forma imediata e que ampliem as medidas de restrição, num momento em que a pandemia ainda ganha força. "Quem adotar isso vai reduzir suas contaminações e mortes", disse.

Segundo a apuração, a pandemia é o resultado de uma cadeia de erros. A China levou uma semana para avisar a OMS sobre as 27 mortes em Wuhan. Só três semanas depois é que adotou medidas de restrição. Mesmo depois que isso ocorreu, a OMS levou um mês para determinar que se tratava de uma emergência global. E mesmo após a emergência ter sido declarada, o mês de fevereiro foi "silencioso" e governos pelo mundo não agiram.

"O vírus não esperou. Não estamos na Idade Média e a globalização fez sua parte", apontou Clark. Para elas, a OMS e o sistema internacional precisa passar por uma reforma. Caso contrário, uma nova pandemia irá de novo colocar o mundo de joelhos.

Essas são algumas das conclusões da investigação:

OMS foi lenta, não tem recursos e nem poder para agir

Uma das constatações é de que a agência não respondeu de forma suficiente para frear crise. A culpa, porém, é da estrutura existente.

"O sistema global de alerta pandêmico não é adequado para o propósito", diz. "Os elementos críticos do sistema são lentos, incômodos e indecisos. Em geral, os procedimentos e protocolos ligados à operação do Regulamento Sanitário Internacional, incluindo aqueles que levam à declaração de uma emergência de saúde pública de preocupação internacional, parecem vir de uma era analógica anterior e precisam ser trazidos para a era digital", atacam.

De acordo com a investigação, não está claro por que o comitê de emergência da OMS não se reuniu até a terceira semana de janeiro, nem por que não conseguiu chegar a um acordo sobre a declaração de uma emergência de saúde pública de preocupação internacional quando foi convocado pela primeira vez.

O painel ainda levantou a possibilidade de que a OMS tivesse usado o termo "pandemia" antes. Para uma parcela dos especialistas, isso poderia ter mobilizado mais recursos e atenção política pelo mundo.

Sirleaf acredita que, enquanto a OMS é cobrada a dar respostas a crises internacionais, a realidade é que governos mantiveram a agência "sem poder e sem recursos". "A OMS não pode investigar. Tudo o que pode fazer é pedir e esperar que seja convidado a ir a um país. Isso é suficiente?", questionou.

"Países querem que a OMS lidere. Mas não dão fundos ou poder. Isso não está funcionando", completou.


Países não se prepararam e ignoraram alertas

Mas Sirleaf aponta que, mesmo que a OMS tivesse agido, o que a investigação está descobrindo é que governos não estavam preparados e ignoraram os alertas.

"Tem havido uma falha em levar a sério os riscos existenciais já conhecidos que a ameaça pandêmica representa. Crises pandêmicas anteriores provocaram numerosas avaliações, painéis e comissões que emitiram muitas recomendações para reforçar a preparação e a resposta. Demasiadas delas não foram seguidas. Tem havido uma falha generalizada em levar a sério o risco existencial representado pela ameaça pandêmica para a humanidade e seu lugar no futuro do planeta. A reação coletiva se resumiu a boa vontade em vez de uma avaliação de risco e ação de longo alcance", constatam.

"Uma emergência de saúde pública de preocupação internacional foi declarada em 30 de janeiro. Mas, com base nas evidências consideradas até agora pelo Painel, a extensão da resposta a isso em países ao redor do mundo ficou aquém do que deveria ter sido esperado", lamentou.

A investigação também alerta que as medidas de contenção deveriam ter sido tomadas "em todos os lugares onde os casos apareceram". "O Painel observou que quando a OMS conduziu um briefing técnico em sua sessão do Conselho Executivo em 4 de fevereiro de 2020, informou que havia mais de 12.000 casos confirmados na China, mas apenas 176 casos no resto do mundo - evidência definitiva de transmissão entre humanos, e também um sinal claro para todos os países com até mesmo um punhado de casos que precisavam agir rapidamente para conter a propagação. Em demasiados países, este sinal foi ignorado", criticou.

China poderia ter sido mais transparente e mais rígida

Não faltaram críticas ao comportamento da China, ainda que o comitê insista que não há como identificar o país como o único motivo do fracasso.

"O que é claro para o Painel é que as medidas de saúde pública poderiam ter sido aplicadas com mais força pelas autoridades sanitárias locais e nacionais na China em janeiro", disse.

"Também está claro para o Painel que havia evidência de casos em vários países até o final de janeiro de 2020. Medidas de contenção da saúde pública deveriam ter sido implementadas imediatamente em qualquer país com um caso provável. Elas não foram. De acordo com as informações analisadas pelo Painel, a realidade é que apenas uma minoria de países tirou pleno proveito das informações disponíveis para responder à evidência de uma epidemia emergente", completou.

Comunidade internacional não agiu de forma coordenada

O Painel também denunciou a "eficácia limitada de grupos internacionais" diante da pandemia. "Por exemplo, tanto o G7/8 quanto o G20 deram prioridade em reuniões anteriores à segurança sanitária e à preparação para pandemias, inclusive executando exercícios de simulação, mas sua ação na pandemia covid-19 tem sido amplamente reativa, assim como a do G77", completou.