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Bolsonaro vai entregar milhões à "gripezinha" ao baixar auxílio para R$ 300

Presidente Jair Bolsonaro em Brasília -
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

25/06/2020 20h39

Jair Bolsonaro anunciou que vai estender o auxílio emergencial por três meses, porém reduzindo-o gradativamente a R$ 500, depois R$ 400 e então R$ 300. Hoje, o valor é de R$ 600, podendo chegar a R$ 1200 em algumas situações.

Como milhões, que já fazem mágica para se virar com R$ 600, vão sobreviver com R$ 300 é um mistério. Dessa forma, ao gerar carestia, o presidente da República ajuda a empurrar milhões de volta às ruas atrás de sustento. Em muitos lugares, a pandemia não terá passado. Ou seja, muitos vão direto para o colo da "gripezinha".

O montante é próximo dos R$ 200 que o ministro da Economia, Paulo Guedes, propôs em março e voltou a defender em maio para garantir o básico a trabalhadores informais durante a vigência das medidas de isolamento contra a pandemia de coronavírus.

A sensação é de reviver a mesma cena, como no filme "O Feitiço do Tempo", em que Bill Murray acorda sempre no Dia da Marmota. Mas, no caso brasileiro, a marmota somos nós.

Guedes disse há três meses que o valor "assegura a manutenção de quem está sendo vítima do impacto econômico da crise". Contudo, o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos) apontou que o custo médio de uma cesta básica para manter alimentação saudável, incluindo alimentos frescos, e produtos de higiene e limpeza, em São Paulo, foi de R$ 556,36, no mês passado.

O ministro da Economia afirmou, em maio, que se os R$ 600 continuarem a ser pagos, ninguém mais vai querer trabalhar. Reforçou a imagem de alguém que não tem empatia, vive em um universo paralelo e acha que pobre realiza fotossíntese.

"Se falarmos que vai ter mais três meses, mais três meses, mais três meses, aí ninguém trabalha. Ninguém sai de casa e o isolamento vai ser de oito anos porque a vida está boa, está tudo tranquilo. E aí vamos morrer de fome do outro lado. É o meu pavor, a prateleira vazia", disse.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, já defendeu a manutenção da renda básica em R$ 600 e o Congresso Nacional deve, muito provavelmente, impedir que o Poder Executivo cometa essa irresponsabilidade.

Um governo decente demonstraria mais preocupação com a dignidade dos brasileiros do que com a situação fiscal neste momento. Isso não é gasto burro e sim investimento para manter brasileiros tranquilos e minimamente protegidos em meio a uma pandemia assassina que já matou mais de 55 mil por aqui. Tudo bem que o governo Bolsonaro tem suas prioridades e os seus eleitos, mas não deveria dar tão na cara assim.

Em tempo: O governo vai ter que correr com a tal Renda Brasil, proposta que deve reunir programas de transferência de renda e substituir o Bolsa Família, se não quiser perder sua nova base de apoio. Pois é o pagamento desse valor que está garantindo que sua popularidade não desabe.

Bolsonaro experimentou uma queda de nove pontos entre as pesquisas Datafolha de dezembro de 2019 e de maio deste ano entre os que recebem mais de 5 e 10 salários mínimos, muito por conta de suas atitudes de terraplanismo biológico durante a pandemia. Mas também um aumento de nove pontos no grupo de até dois salários mínimos, categoria numericamente maior, que depende do auxílio. Se ele deixar de ser transferido, haverá poucos motivos para que um grupo, que nunca morreu de amores pelo capitão, continue a apoiá-lo.

Leonardo Sakamoto