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Bolsonaro sem máscara: AGU quer presidente como garoto-propaganda da covid

Bolsonaro se atrapalha com máscara - Adriano Machado/Reuters
Bolsonaro se atrapalha com máscara Imagem: Adriano Machado/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

24/06/2020 19h38

É inacreditável que a esta altura da pandemia, quando registramos 53.874 mortos, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa, o presidente da República se comporte como um monarca absolutista, agindo como se as regras não valessem para ele. E, consequentemente, colocando em risco a vida de outras pessoas.

O governo federal resolveu deixar claro que Bolsonaro está acima dos deveres que os mortais são obrigados a cumprir e vai tentar reverter a decisão judicial que lembrou a ele que o uso de máscara em espaços públicos é obrigatório.

A Advocacia-Geral da União justificou que o objetivo é preservar a independência e a harmonia entre os poderes e que a Justiça Federal não poderia decidir sobre a conduta do presidente.

Jair já disse, anteriormente, que o único prejudicado diante de uma atitude como essa é ele mesmo. Mentira. Pode se infectar e passar para outras pessoas e servir de mau exemplo a uma parcela da população. Tenho dificuldades de entender como pessoas ainda veem nele uma referência a ser seguida, mas acontece.

Ao não usar máscara e lutar pelo privilégio de não usá-la, ele menospreza o tamanho da crise e as ações que devem ser tomadas para mitigá-la.

Um médico socorrista do Samu me disse que toda vez que vê Bolsonaro lançando perdigotos sobre aglomerações de seguidores na capital federal sente-se como se o presidente lhe desse um forte soco no estômago.

"Estou arriscando minha vida pra que se, do outro lado, o chefe da nação está em campanha pelo coronavírus?", desabafa.

O decreto do governo do Distrito Federal estabelecendo a obrigatoriedade do uso de máscara durante a crise foi acintosamente descumprido pelo então ministro da Educação, Abraham Weintraub, antes dele fugir para a Disney. Acabou multado em R$ 2 mil, no último dia 14, por não usar o acessório em um protesto contra a democracia.

Bolsonaro não é inimputável, apesar de - não raro - agir como tal. Errou, que seja multado. Isso não vai mudar seu comportamento, mas será didático sobre o fato de que ninguém é imune às leis e às regras. Nem o presidente.

O juiz Renato Borelli, da 9ª Vara Federal Cível do Distrito Federal, atendeu a uma ação popular ao conceder a liminar. Em sua decisão, lembrou que o presidente da República tem a obrigação de cumprir as leis, promover o bem da população, resguardar direitos sanitários dos cidadãos e impedir a propagação do vírus.

Ocorre que a falta da máscara é a metonímia da tragédia do governo Bolsonaro.

Menosprezando a gravidade da pandemia, negando-se a atuar como líder da nação no enfrentamento à doença e terceirizando a responsabilidade pelos mortos e desempregados, ele descumpre as leis, promove o mal-estar da população, pisa nos direitos sanitários e favorece a propagação do vírus.

O mesmo presidente anda de moto sem capacete ou pesca em área proibida. Ele acredita que regras devam ser cumpridas, claro. Mas só pelos outros.

Leonardo Sakamoto