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Quantas mortes teriam sido evitadas se Bolsonaro não fosse presidente?

Jair Bolsonaro exibe caixas de hidroxicloroquina e Annita em live no Facebook e YouTube - Reprodução/Facebook
Jair Bolsonaro exibe caixas de hidroxicloroquina e Annita em live no Facebook e YouTube Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/07/2020 12h23

Diante das cobranças sobre suas ações na pandemia (e de uma montanha de mortos que está com 79 mil corpos e não para de crescer), Jair Bolsonaro vem aumentando a frequência com que dá declarações isentando-se de responsabilidade.

O "Vão querer botar a culpa em mim?", deste sábado (18), após jogar mais uma vez a culpa da crise em prefeitos e governadores, veio depois do "Eu podia ficar quieto, afinal de contas o Supremo Tribunal Federal disse que quem decide tudo nessa área são Estados e municípios, e ponto final" da live semanal desta quinta. Detalhe: a história do STF é mentira.

A questão colocada no título não é simples. Mas a análise do aumento de mortalidade pelo "Fator Jair Messias", ou seja, devido à ação de um único governante negacionista, pode ser útil para a curva de aprendizagem do Brasil e do mundo, do ponto de vista político e sanitário. No que pese a humanidade ter demonstrado que não aprende com os erros dos outros. Pelo contrário, elege erros semelhantes.

Bolsonaro não é o responsável pela vinda do coronavírus ao Brasil - apesar da comitiva de sua viagem aos Estados Unidos ter sido um dos vetores de contaminação ao trazer 23 infectados no começo da pandemia. Mas já está claro que seu comportamento agravou a situação. E seus interesses pessoais e eleitorais impediram uma articulação política em nível nacional, que poderia dar uma resposta racional ao problema.

O que aconteceria se, ao invés dele, tivéssemos uma pessoa que se guiasse pela ciência, pela razão e pelo bem comum, seja ela conservadora ou progressista, no comando do país durante esse período? O resultado teria sido semelhante ao obtido por Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, e Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, que tomaram medidas duras e conseguiram proteger seus países, ou as condições sociais e econômicas do Brasil nos levariam, inexoravelmente, a este momento em que estamos agora? A pergunta é retórica, claro.

Bolsonaro não convocou Estados e municípios para criar um plano de nacional de enfrentamento à doença. Preferiu distorcer a decisão do Supremo Tribunal Federal, afirmando que caberia apenas a governadores e prefeitos o combate à pandemia, quando a corte, na verdade, disse que eles também podem participar da formulação das políticas. O presidente usa uma mentira para justificar um misto de incompetência, ignorância e omissão. Como o fardo de governar uma crise era tão grande, deveria ter pedido uma licença.

A questão, contudo, é que Bolsonaro não foi apenas responsável por deixar de fazer, mas também por ação direta. Recomendar remédios que causam graves efeitos colaterais sem comprovação de cura, por exemplo, enganou uma parcela da população, que reduziu os cuidados de prevenção. E mata não apenas aquele que acreditou no remédio, como aqueles com quem o ingênuo teve contato.

"Não perturbem quem quer tomar a cloroquina", disse ele, neste sábado, a apoiadores, após ter disparado uma metralhadora de mentiras sobre o medicamento na sua live semanal desta quinta. Trata uma calamidade sanitária como questão de foro íntimo, como se a atitude de alguns não influenciasse a vida de milhões.

Ele diz que fez tudo o que estava ao seu alcance. Se foi para defender a si mesmo e seus filhos do escândalo envolvendo Fabrício Queiroz e o inquérito das fake news, sim. Quanto à saúde da população, não chegou nem perto. A forma com o conduziu todo o processo na pandemia ajudou a reduzir o número de vidas e a destruir empregos. Pois alongou despropositadamente a vigência da crise por aqui, o que vai atrasar a retomada da economia e a geração de postos de trabalho.

As principais ações tomadas nessa área, como o auxílio emergencial, são decorrência da ação do Congresso Nacional - se dependesse de sua equipe, cada família receberia um vale de R$ 200 ao invés de transferências entre R$ 600 e R$ 1200 por mês. Outras medidas nem foram colocadas em prática ainda, como a injeção de dinheiro na micro e pequena empresa.

Como todos os fatos o desmentem diariamente, Bolsonaro abandonou o campo da discussão racional. Médicos e cientistas mostram provas de que suas ações colocam em risco a sociedade e ele se defende com convicções vazias. Está guiando o Brasil com base na fé na incapacidade do povo de reagir à sua estratégia e na capacidade da sociedade de esquecer facilmente. Um julgamento no Tribunal Penal Internacional é algo muito longe e as eleições de 2022 estão logo ali já. O mercado e parte da parcela rica da sociedade já ensaia um "vamos esquecer o passado e seguir com as reformas".

O problema é esquecer 79 mil mortos. O presidente deve rir muito da nossa cara.

Leonardo Sakamoto