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Leonardo Sakamoto

Queiroga critica cloroquina, mas quer 'harmonizar' médicos e charlatães

8.jun.2021 - O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, durante 2º depoimento à CPI da Covid no Senado - Jefferson Rudy/Agência Senado
8.jun.2021 - O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, durante 2º depoimento à CPI da Covid no Senado Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

08/06/2021 15h34

"A maior oportunidade da minha vida quem me deu foi o presidente Bolsonaro." A declaração do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na CPI da Covid, nesta terça (8), sobre a sua indicação ao cargo foi sincera, mas desnecessária. Afinal, só o amor à posição e ao poder explica como alguém, com a missão de combater a covid-19 no país, é tão sabotado pelo chefe e não pede para sair.

Ao que tudo indica, Queiroga conta com a autorização de Bolsonaro (e dos médicos e empresários de seu "Gabinete das Sombras") para avançar com a vacinação e a distribuição de insumos hospitalares. A autorização é recente, vale destacar, porque até dezembro, o presidente dizia que o imunizante da Pfizer transformava pessoas em jacarés e, em janeiro, o governo mandou cloroquina para Manaus quando os doentes imploravam por oxigênio, numa espécie de Maria Antonieta dos Trópicos.

Ele, contudo, não tem autorização para emitir uma nota da instituição que coordena afirmando que a orientação anterior do Ministério da Saúde sobre o uso da cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina contra a covid-19 não é para ser seguida. A situação fica ainda pior uma vez que ele disse à CPI que "essas medicações não têm eficácia comprovada". Ou seja, a inação não é por ignorância, mas por comodidade ou má-fé.

Queiroga também não é autorizado a apoiar quarentenas e lockdowns de locais onde o vírus está pegando. Muito menos de criticar as aglomerações inúteis promovidas pelo seu chefe.

E até teve que assumir para si o veto do Palácio do Planalto ao nome da infectologista Luana Araújo, que havia sido indicada por ele para a área de enfrentamento à covid. Luana é contrária ao uso da cloroquina para a covid.

Ao tratar do caso dela, aliás, o ministro falou que era necessário encontrar alguém para "harmonizar" a relação entre as divergências na classe médica. Um Ministério da Saúde tentar "harmonizar" quem defende um remédio ineficaz para covid com quem acredita na ciência é como o Ministério do Meio Ambiente "harmonizar" um desmatador ilegal com os indígenas que detém a posse da floresta.

Entende-se que o ministro acredite que o preço a pagar para avançar um pouco no combate à doença é um pedágio terraplanista ao presidente e aos seus seguidores - com Copa América, com Conmebol, com tudo. Ou seja, ele é ministro júnior.

O problema é que isso não é inofensivo. A promoção de um elixir mágico e barato para curar a covid-19 é usada por Bolsonaro a fim de empurrar as pessoas de volta à normalidade como parte de sua estratégia bizarra de imunidade de rebanho através da contaminação em massa. Ao permitir essa loucura, Queiroga está contribuindo com a necropolítica presidencial e é cúmplice dela.

O ministro da Saúde repete, assim, o teor de seu depoimento no dia 6 de maio, atuou também para preservar o próprio cargo. A diferença é que, agora, mais empoderado e com experiência da vez anterior, bateu boca com os senadores críticos ao governo. E foi amável com os governistas que usaram seu tempo para propagar perigosa desinformação sobre o tratamento precoce.

Dada a campanha a favor de remédios inúteis que Bolsonaro levou a cabo no último ano para empurrar as pessoas às ruas, faz-se necessário alguém que diga "pera lá, presidente, isso não" e não "sim, chefinho". Dessa forma, o ministro se mostra eficaz para fazer valer os interesses pessoais do seu superior, mas inútil para assessorar o presidente da República no sentido do bem público.

Nelson Teich ficou um mês no cargo de ministro da Saúde, mas saiu fora quando percebeu que o Gabinete das Sombras iria se sobrepor a ele e promover a Festa da Cloroquina. Demonstrou dignidade. Já Queiroga segue no posto.