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Leonardo Sakamoto

Mentira de Bolsonaro sobre número de mortos por covid terá vida longa

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/06/2021 17h48

Uma informação falsa divulgada pelo presidente Jair Bolsonaro, de que um relatório produzido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) questionaria a veracidade de 50% das mortes por covid-19 no Brasil, foi desmentida pelo próprio órgão. Mas ela vai continuar circulando e causando estragos por muito tempo.

Primeiro porque o presidente continua afirmando que o número de óbitos está inflado, como fez em uma igreja evangélica, nesta quarta (9), em Anápolis (GO). Bolsonaro mentiu ao afirmar que morreu menos gente de covid no Brasil do que no resto do mundo por causa da cloroquina.

Segundo, porque a fake do relatório vai seguir viva entre seus apoiadores.

A tática é bem conhecida: Bolsonaro conta uma mentira que é útil para os seus objetivos políticos. A informação se espalha por suas redes e aplicativos de mensagens, não raro acompanhada de documentos falsos, imagens manipuladas e vídeos distorcidos que seriam a "prova" que embasa a mensagem. Aquele conteúdo atinge, inicialmente, os seus seguidores, que já acreditavam na mentira, reforçando que sua percepção é verdadeira. Ou seja, a mensagem ganha tração nas redes bolsonaristas porque ela valida uma crença do grupo.

Neste caso, a mensagem diz que o Brasil não conta com quase 480 mil mortos por covid-19. Afinal de contas, acreditar nessa montanha de cadáveres é impensável, pois significaria que vivemos uma tragédia e o "mito" teria responsabilidade sobre ela.

Quando o presidente, a imprensa ou uma instituição faz uma correção, ela não recebe a mesma tração em comparação à mentira original. Pois essa é uma das principais regras da internet: um desmentido nunca vai tão longe quanto a fake original, que tem cauda longa. As coisas pioram mais um pouco porque Bolsonaro não costuma fazer desmentidos e, quando faz, é sempre meia boca.

Os apoiadores do presidente que estão no meio da guerra política não estão interessados em correções e quando têm acesso a elas, através de seu líder ou por outra fonte que confiam, vão tentar escondê-la. Isso, aliás, limita o impacto das essenciais agências de checagem de informações junto a esses grupos. A informação, para eles, não é subsídio para reflexão e para a construção de sua visão sobre a realidade, mas munição para a tal guerra.

Criam a certeza de que o Brasil tem 240 mil mortos e não o dobro e vão repetir isso até se cansar. E qualquer pessoa, seja um amigo, seja um veículo da imprensa que afirmar o contrário, terá que provar. O padrão passa a ser a realidade paralela.

Sem contar que, às vezes, quem compartilhou a mentira original no grupo pode ter medo de repassar também o desmentido por vir a ser cobrado pelo coletivo ao qual pertence a ter mais cuidado antes de postar conteúdo falso. E isso sempre inibe correções, da esquerda à direita.

Como consequência, a mentira continuará circulando por um bom tempo. Como a aquela que conta que caixões estariam sendo enterrados recheados com pedras para fraudar o número de mortos por covid - mentira que fez muito sucesso nas redes do presidente no ano passado.

Essas distorções têm cauda longa, duram meses e anos, arrastando-se pela internet e sobrevivendo de engajados, incautos e ignorantes. É conteúdo que ficará circulando para ser capturado por grupos que promovem o ódio, saindo da rede e sendo transportados por pessoas sem discernimento que, no limite, invadem hospitais e covas para checar se os mortos estão mesmo mortos.

O resultado no longo prazo é uma sociedade que caminha para uma situação em que não faz mais questão de separar fatos de invenções - seja por que considera isso irrelevante, seja por que desistiu de tentar entender o que é real e o que não é devido ao caos, seja por que se beneficia com isso.

O cenário que Aviv Ovadya, então chefe de tecnologia do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais do conceituado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), chamou de "Infocalipse" pode ameaçar a democracia. Se você não acredita em fatos e na razão e se guia apenas por falsidades e emoções, como vai tomar decisões racionais envolvendo sua vida e a da sua comunidade?

Mas o resultado imediato é uma sociedade que se preocupa cada vez menos com as consequências da covid. Afinal, se ela não mata tanto quanto diz o presidente, para que me cuidar?

Número de mortos é maior, não menor que o registrado

Dados do Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação (IHME) da Universidade de Washington, nos Estados Unidos apontam que a situação do Brasil é o oposto à da supernotificação. O instituto vem acertando com precisão em suas projeções para a pandemia.

A última atualização do levantamento e das projeções que o instituto faz para o avanço da doença mostrou que o total estimado de mortes diárias de covid-19 no Brasil era 30% maior que o número relatado. Para o dia 31 de maio, por exemplo, o IHME calcula quase 592 mil mortes acumuladas quando os registros oficiais marcavam mais de 462 mil.

Especialistas apontam que talvez não saibamos o número exato e que levará alguns anos após a pandemia para termos uma ordem de grandeza real das perdas humanas que tivemos.

A mentira da vez deve render, claro, alguma dor de cabeça ao governo. O documento curto e sem embasamento, produzido pelo auditor do TCU Alexandre Figueiredo, próximo da família Bolsonaro, defende sem provas a tese de que governadores inflaram os números de mortes para receber mais recursos federais.

A presidência do tribunal correu para dizer que ele não é um documento oficial, suspender o servidor e abrir uma investigação.

Agora, a CPI da Covid aprovou a convocação de Figueiredo para saber se a inclusão do tosco documento no sistema do TCU foi feita em conluio com o presidente da República ou seus assessores para possibilitar a ele divulgar a fake.

Isso reforçaria duas coisas: que o processo de uso das instituições da República para benefício do presidente, depois do Coaf, da Receita Federal, da Polícia Federal, do Ibama, do ICMBio, da Procuradoria-Geral da República, segue a toda. E que a mentira é mesmo a fundação sobre o qual foi erguido o atual governo.