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Leonardo Sakamoto

Em chilique, Bolsonaro reforça preferência por atacar mulheres jornalistas

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/06/2021 17h32

Em seu último chilique, nesta segunda (21), em Guaratinguetá (SP), Jair Bolsonaro mandou Laurene Santos, repórter de uma afiliada da Rede Globo, calar a boca. Também chamou ela e sua equipe de "canalhas". E ainda xingou a própria emissora, além de criticar a CNN. Pelo menos, a sua misoginia é coerente: repetidas vezes ele elege mulheres como alvo de suas estúpidas agressões verbais contra a imprensa.

Duas coisas perturbam Bolsonaro. Primeiro, o aumento na percepção da população sobre sua responsabilidade direta sobre os mais de 500 mil mortos e os 14,8 milhões de desempregados na pandemia. A avenida Paulista, termômetro do descontentamento desde 2013, teve mais gente no protesto deste sábado (19) do que no de 29 de maio.

Além do mais, a CPI da Covid começou a fase de rastrear o dinheiro das negociações para compra de vacinas e de remédios ineficazes para a doença, como cloroquina. Há suspeitas de que aliados do presidente tenham se beneficiado. Ou seja, corrupção que produz cadáveres.

Não é a primeira vez que o presidente da República age de forma destemperada com profissionais de imprensa. Mas há um padrão de comportamento agressivo em público: os casos mais gritantes envolvem mulheres.

No dia 1º de junho, por exemplo, ele chamou apresentadora da CNN Brasil Daniela Lima de "quadrúpede" ao falar com seus apoiadores na porta do Palácio do Alvorada. Ele comentava uma postagem nas redes bolsonaristas que distorceu uma fala da jornalista sobre a geração de postos de trabalho formais, dando falsamente a entender que ela criticava a notícia por ser boa.

Um dos casos mais bizarros ocorreu em fevereiro de 2020 envolvendo Patrícia Campos Mello, repórter do jornal Folha de S.Paulo. Falando novamente a apoiadores, Bolsonaro repetiu uma mentira que já havia sido contada por um depoente na CPMI das Fake News e por seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro: de que a jornalista pode ter "se insinuado sexualmente em troca de informações para tentar prejudicar a campanha de Jair Bolsonaro".

"Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim", afirmou o presidente para delírio de seu rebanho. Exércitos de contas falsas e perfis reais passaram a atacá-la dia e noite em uma das piores campanhas de linchamento digital que o país já viu.

Os casos são vários. Um helicóptero da Força Aérea Brasileira foi usado para transportar parentes e amigos do presidente da República para o casamento de seu filho em maio de 2019. Diante de uma pergunta da repórter Talita Fernandes, da Folha, sobre o caso, Bolsonaro chilicou. "Com licença, estou numa solenidade militar, tem familiares meus aqui, eu prefiro vê-los do que responder uma pergunta idiota para você. Tá respondido? Próxima pergunta."

No dia 10 de março daquele ano, Bolsonaro usou sua conta no Twitter para compartilhar informação falsa sobre a repórter Constança Rezende, então no jornal O Estado de S.Paulo. Um site bolsonarista havia trazido uma postagem de um blog francês que atribuiu falsamente a ela uma declaração contra o senador Flávio Bolsonaro. Quando o conteúdo distorcido já circulava, via redes sociais, Bolsonaro bombou a informação, promovendo um linchamento virtual presidencial da jornalista a seus milhões de seguidores.

No dia 16 de maio de 2019, ele atacou a repórter Marina Dias, da Folha de S.Paulo, que havia lhe perguntado sobre os cortes no orçamento da educação. Visivelmente irritado por conta de manifestações de estudantes e professores, vociferou: "Primeiro, você, da Folha de S.Paulo, tem que entrar de novo numa faculdade que presta e fazer um bom jornalismo. É isso que a Folha tem que fazer e não contratar qualquer uma ou qualquer um para ser jornalista, para ficar semeando a discórdia e perguntando besteira por aí e publicando coisas nojentas".

Dois meses depois, durante um café da manhã com correspondentes estrangeiros, Bolsonaro foi questionado sobre o fato de a jornalista Miriam Leitão e de seu marido, o sociólogo Sérgio Abranches, terem sido desconvidados de uma feira do livro em Jaraguá do Sul (SC) após pressão de grupos de extrema direita. Passou a atacá-la, chegando ao ponto de dizer que a tortura que ela sofreu durante a ditadura militar, fato fartamente documentado, era mentira.

Aliás, tanto Miriam Leitão quanto a jornalista Vera Magalhães são alvos sistemáticos do bolsonarismo.

A perseguição é sempre mais violenta quando o alvo são jornalistas mulheres. Nessa hora, o ataque, não raro, ganha conotação sexual. Vale lembrar que, quando deputado federal, Bolsonaro se notabilizou por declarações misóginas. Disse, por exemplo, que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada.

Declarações como essas servem como ordem unida aos seus seguidores mais fiéis.

Para não acreditarem na realidade que se coloca diante de seus olhos, como as imagens de massivas manifestações que apareceram na Globo e na CNN Brasil.

Para darem continuidade aos ataques às jornalistas através de ameaças e agressões on-line, invadindo a vida privada das profissionais, distorcendo fatos, expondo dados pessoais, ameaçando filhos e pais. Acredita que, dessa forma, outros profissionais de imprensa vão pensar duas vezes antes de questioná-lo.

Para se manterem fiéis às mentiras do bolsonarismo - que prega que vacinas são menos eficazes do que a "imunidade" obtida através do contágio pelo coronavírus de contrair a doença, que a cloroquina funciona mais que a CoronaVac, que isolamento social apenas atrapalha a economia, que a máscara é um fetiche da imprensa contra a liberdade individual de cada um.

Considerando que as reportagens e investigações mais contundentes são produzidas há tempos por mulheres jornalistas, colocando em risco a realidade paralela que o presidente tenta vender a seus 14% de seguidores mais fiéis, o ódio de Jair, para além de ser expressão clara de sua misoginia, é também sintoma de medo.

E quando acuado, Jair ladra.