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OPINIÃO

Quatro ótimas séries documentais sobre o pior do Brasil

14.mai.2006 - Em rebelião na penitenciária de Junqueirópolis (SP), detentos exibem faixas com as frases "PCC, paz, justiça e liberdade" e "Contra a opressão" Imagem: Alex Silva/Estadão Conteúdo
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Mauricio Stycer

Colunista do UOL

09/06/2022 04h01

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Os últimos anos registraram um crescimento na produção de séries documentais. O fenômeno já foi observado tanto no mercado americano quanto no brasileiro. Duas são as principais razões apontadas. Por um lado, a disputa por mercado entre as plataformas de streaming estimulou a diversificação da oferta de conteúdo. Ao mesmo tempo, a pandemia de coronavírus atrapalhou as gravações de séries e filmes de ficção, que envolvem muito mais gente.

Como ocorre com qualquer gênero, é preciso separar o joio do trigo entre as séries documentais. Há séries excessivamente longas, com oito ou dez episódios, que parecem esticadas artificialmente. Muitas, com baixo orçamento, também se ressentem da falta de imagens de arquivo, um material que custa caro. Também vejo muitas que deixam a investigação jornalística de lado e acabam fazendo promoção dos temas que abordam.

Mas há muito material de qualidade entre as séries oferecidas atualmente pelas plataformas de streaming. Cito abaixo quatro delas, todas brasileiras, lançadas em 2022. Apesar de tratarem de temas muito diferentes, em comum, todas elas expõem feridas abertas do país: crime organizado, corrupção, ação de milícias, impunidade e racismo.

Orlando Mota Jr., o Macarrão, dá depoimento à série "PCC: Poder Secreto" Imagem: Divulgação

PCC: Poder Secreto: Lançada esta semana pela HBO, esta série em quatro episódios apresenta de forma cronológica a história da facção criminosa, criada dentro dos presídios em resposta ao massacre do Carandiru, em 1992. Com direção de Joel Zito Araújo, baseada no livro "Irmãos: uma história do PCC", de Gabriel Feltran, a série conta com alguns depoimentos preciosos, em especial o de Orlando Mota Jr, o Macarrão, que foi da direção do grupo.

Representações de animais em uma das primeiras versões do jogo do bicho Imagem: Reprodução

Lei da Selva: a história do jogo do bicho: Com cerca de 40 depoimentos, de historiadores, sociólogos, jornalistas e policiais, entre outros, embalados por uma fartura de imagens históricas, a série em quatro episódios, dirigida por Pedro Asbeg, reconstitui em detalhes diferentes etapas dos 130 anos de história do jogo do bicho no Rio. No último episódio, a série associa os bicheiros às milícias que começam a agir na zona oeste da cidade, a partir da área conhecida como Rio das Pedras. Disponível no Globoplay + canais ao vivo.

José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, em entrevista para a série da HBO que reconstitui a sua trajetória Imagem: Reprodução

Em Busca de Anselmo: Em cinco episódios, o programa conta a história do ex-marinheiro, integrante de organizações clandestinas de esquerda na década de 1960, que atuou como agente duplo, infiltrado pela polícia política, e foi diretamente responsável pela prisão de inúmeros militantes e por mortes, inclusive de sua companheira. Dirigida por Carlos Alberto Jr., que entrevistou Anselmo longamente, a série desconstrói as mentiras contadas pelo agente duplo e critica a impunidade dos torturadores que atuaram durante a ditadura. Disponível na HBO Max.

A união de Elza Soares e Mané Garrincha foi alvo de muitas críticas e preconceitos Imagem: Folhapress

Elza & Mané: Amor em Linhas Tortas: O programa descreve, em quatro episódios, a relação de amor de dois gênios brasileiros, a cantora Elza Soares e o ponta-direita Garrincha, ambos no auge de suas carreiras, no início dos anos 1960. E os acompanha nas duas décadas seguintes, perturbados pelo moralismo da opinião pública, pela ditadura militar, pelo racismo e pelo alcoolismo do jogador. É um trabalho de qualidade excepcional, com direção de Caroline Zilberman, e produção da área de esportes da Globo, responsável pela igualmente ótima "Doutor Castor", lançada em 2021. Disponível no Globoplay.

Pra lembrar

Bolsonaro tem um longo histórico de ataque a jornalistas Imagem: Bolsonaro tem longo histórico de ataque a jornalistas

Ao longo do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), jornalistas e veículos de comunicação têm enfrentado uma ofensiva constante que fere o direito à liberdade de expressão e a liberdade de imprensa no país. Segundo a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Bolsonaro foi responsável pela maioria das agressões a profissionais da imprensa em 2021, com 147 das 430 ofensivas denunciadas no período, a maioria episódios de censura (140 casos) e de tentativas de desqualificar a informação (131 casos). Em relação a 2018, quando foram registrados 135 casos, o aumento foi de 218%. Na terça-feira (07), Bolsonaro foi condenado a pagar R$ 100 mil por danos morais coletivos contra os jornalistas. A decisão, em pleno Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, é histórica: pela primeira vez um governante em exercício é condenado coletivamente por falas contra a imprensa. Cabe recurso.

Pra esquecer

Imagens de câmera de segurança mostram a agressão que levou o congolês Moïse Kabagambe à morte Imagem: Reprodução

Diariamente, de segunda a sábado, o "Jornal da Band" abre com um bloco de 10 minutos de notícias policiais, baseado em vídeos de câmeras de segurança, muitas vezes sem contexto ou boa explicação. A intenção é herdar a audiência do "Brasil Urgente", apresentado por José Luiz Datena, mas o efeito é muito ruim. Para quem assiste sempre, como eu, é exaustivo. Provoca pânico. E aumenta artificialmente a sensação de insegurança. Acho um enorme desserviço. E o telejornal da Band não está sozinho nesta, como já escrevi.

A frase

Andréia Sadi no cenário do "Estúdio i", na GloboNews Imagem: Foto: GloboNews

"Guga, está me ouvindo? Está prestando atenção? O que eu falei? Repete".

A jornalista Andrea Sadi estreou nesta segunda-feira (06) no comando do programa "Estúdio i", na GloboNews. A certa altura, num link ao vivo, ela chamou a atenção do colega Guga Chacra, que estava olhando o celular enquanto ela falava sobre o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips na Amazônia. Sadi e Chacra são amigos, o que pode explicar o tom escolar da bronca.

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