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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

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Tragédia na Colômbia, corrupção na Fifa e outras séries sobre futebol na TV

Andrés Escobar após fazer um gol contra na partida em que a Colômbia perdeu para os Estados Unidos por 2 a 1 na Copa de 94 - Arquivo/Reuters
Andrés Escobar após fazer um gol contra na partida em que a Colômbia perdeu para os Estados Unidos por 2 a 1 na Copa de 94 Imagem: Arquivo/Reuters

Colunista do UOL

10/11/2022 04h01

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Em 22 de junho de 1994, a seleção da Colômbia perdeu para os Estados Unidos por 2 a 1. Como já havia sido derrotada pela Romênia por 3 a 1 na primeira rodada, o resultado eliminou os colombianos, que eram considerados favoritos, da Copa.

A derrota teve início com um gol contra do zagueiro Andres Escobar, tentando interceptar uma bola do ataque americano. No dia seguinte, ainda abalado com o seu erro, Escobar deu uma entrevista a um jornal colombiano e disse: "Isso não termina aqui. A vida continua".

Escobar se tornou o vilão da eliminação da Colômbia. Dez dias depois da partida, em 2 de julho, o jogador foi assassinado em Medellín, na saída de uma boate. Antes dos tiros, ele discutiu com dois homens que protestavam contra o gol contra que ele marcou na Copa.

"Gol Contra", que a Netflix acaba de lançar, é uma série de ficção em seis episódios sobre um período único e contraditório, tão trágico quanto exuberante, do futebol colombiano. Como mostra o programa, o apogeu do esporte ocorreu ao mesmo tempo em que o país sofria as terríveis mazelas do narcotráfico.

A série começa com a formação da equipe do Atlético Nacional, de Medellín, que iria conquistar a primeira Libertadores para a Colômbia, em 1989. Sob o comando de Francisco Maturana, o mesmo técnico que depois dirigiu a Colômbia nas Copas de 1990 e 94, o Nacional sente na carne o impacto da violência na Colômbia.

A certa altura, após descobrir que o presidente do clube mandou dar um incentivo monetário aos jogadores horas antes de uma partida contra o rival América, de Cali, Maturana decide pedir demissão. Escreve uma carta no dia seguinte ao jogo, vencido por seu time. Ao chegar ao escritório do presidente, para se demitir, descobre que ele foi assassinado na véspera pelo Cartel de Cali.

A série descreve várias situações reais, mas troca os nomes de alguns dos protagonistas, como o deste cartola do Nacional. Um colega de equipe de Escobar, também assassinado nos anos 1990, após se envolver com criminosos, é igualmente representado com um nome fictício (Quique Vélez). Já o goleiro Higuita, que também passou uma temporada na cadeia, aparece com o próprio nome.

Para quem gosta de futebol, "Gol Contra" vale muito pelo retrato que traça de Maturana, apelidado de "Filósofo". Dentista de formação, ex-jogador, ele é considerado o grande nome por trás da revolução do futebol colombiano no período. Ao assumir o Nacional, exige que o clube contrate apenas jogadores nativos. À frente da seleção, montou o time genial, com Asprilla, Rincón e Valderrama, que venceu a Argentina por 5 a 0, em 1993, em Buenos Aires, pelas eliminatórias da Copa.

A 10 dias do início da Copa do Catar, "Gol Contra" é, de longe, a melhor opção entre séries e filmes sobre futebol lançados nos últimos meses. Em todo caso, lembro de outras quatro opções:

Havelange  - Ian Waldie / Reuters - Ian Waldie / Reuters
Joao Havelange, então presidente da FIFA, no congresso da entidade de 1998
Imagem: Ian Waldie / Reuters

Jogo da Corrupção (Prime Video): Em oito episódios, a série de ficção descreve a trajetória de João Havelange, que dirigiu a CBD (antiga CBF) e a Fifa, terminando a vida acusado de corrupção. Vivido pelo ator português Albano Jerónimo, o Havelange da série é um tipo ardiloso, obstinado e grosseiro. Ele não mede esforços para, inicialmente, tirar o poder dos europeus que comandavam o futebol e, depois, transformar o esporte numa máquina de fazer dinheiro. Com direção do argentino Armando Bó, "Jogo da Corrupção" evita a sutileza, aposta na sátira e envereda pelo novelesco.

 Aubameyang - Adrian DENNIS / AFP - Adrian DENNIS / AFP
Jogador do Chelsea, Aubameyang é também capitão da seleção de Gabão, tema de documentário da Netflix
Imagem: Adrian DENNIS / AFP

Capitães (Netflix): Produzida pela própria Fifa, é uma série documental que acompanha a trajetória de seis jogadores, todos capitães de suas seleções, em busca de vaga na Copa do Mundo. Ainda que tenha um caráter oficial, a série traz bastidores muito legais e curiosos da dia-a-dia familiar e profissional de seis jogadores muito diferentes: Modric (Croácia), Thiago Silva (Brasil), Aubameyang (Gana), Hassan Maatouk (Líbano), Brian Kaltack (Vanuatu) e Andre Blake (Jamaica). A história de Aubameyang, jogador do Arsenal, nascido na França, mas que optou por atuar pela seleção do Gabão, terra dos seus pais, é especialmente rica e emocionante.

Ronaldo - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Ronaldo Fenômeno na final da Copa de 2002
Imagem: Reprodução / Internet

Ronaldo, o Fenômeno (Globoplay): Em 90 minutos, este filme dirigido por Duncan McMath faz justiça à trajetória do Fenômeno - apelido que ele confessa não ter apreciado, porque elevou a pressão que sentia. O coração do documentário é o período entre o início da Copa de 98 e a final da Copa de 2002. A convulsão que teve no dia da partida contra a França, as graves contusões que sofreu nos anos seguintes, na Itália e a redenção em Yokohama são narrados de forma exemplar. Resulta o retrato de um atleta admirável e uma figura, hoje, muito esclarecida e consciente dos bastidores e dos negócios do futebol.

Penta - Reprodução/Twitter/CBF - Reprodução/Twitter/CBF
Seleção brasileira na final da Copa do Mundo de 2002
Imagem: Reprodução/Twitter/CBF

Brasil 2002 - Os Bastidores do Penta (Netflix): O filme reconstitui a história da seleção brasileira em 2002, na Copa na Coreia do Sul e no Japão, com base em depoimentos de alguns ex-jogadores, como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Lúcio, Beletti, Vampeta, Luisão, Denilson e Gilberto Silva. Dirigido pelo uruguaio Luis Ara, o filme traz como atrativo imagens inéditas, mas nada extraordinárias, registradas por Beletti nos bastidores da seleção durante a Copa. Pouco inspirado e muito convencional, o documentário deixa bastante a desejar.

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