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Bolsonaro é mesmo um bom cabo eleitoral?

Presidente chegou a dizer que não iria apoiar candidatos no 1º turno                              - CAROLINA ANTUNES/PR
Presidente chegou a dizer que não iria apoiar candidatos no 1º turno Imagem: CAROLINA ANTUNES/PR
Observatório das Eleições

O Observatório das Eleições 2020 tem como objetivo geral reunir um conjunto de dados empíricos, de natureza qualitativa e quantitativa, sobre o processo eleitoral municipal no Brasil. Aqui você encontra artigos, vídeos, infográficos e outros formatos de conteúdos com análises sobre as eleições de 2020, através de dados originais ou de sistematizações de dados públicos. Oferecemos subsídio acadêmico e explicação pedagógica aos diferentes atores políticos, sociedade civil, comunidade universitária e imprensa para o debate sobre as questões centrais envolvidas no processo eleitoral. Apresentamos de forma didática e comparativa as principais pesquisas e amostras, além de discutir as características gerais do eleitorado. Visamos também tornar acessível as legislações envolvidas em cada um dos assuntos que serão relevantes nas eleições de 2020. Nesse pleito, temos um contexto muito particular e multifacetado. Por isso, aqui você encontrará análises sobretudo dentro destes eixos: Opinião PúblicaGênero e RaçaJustiça e EleiçõesGrupos de interesseFake NewsCidadesGeral O Observatório das Eleições nasceu em 2018 como fruto da cooperação entre cientistas políticos e instituições de pesquisa de renome como UFMG, Unicamp, IESP/UERJ e UnB. É constituído pela reunião do conjunto de equipes de diferentes projetos, dentre eles participantes do INCT/IDDC (Instituto de Democracia e da Democratização da Comunicação), a equipe da Emenda Parlamentar nº 14080008, que se propôs a financiar parte das atividades do Observatório das Eleições, além de contar com o apoio da empresa Quaest Pesquisa e Consultoria.

28/09/2020 16h38

Carlos Ranulfo Melo*

Uma das possibilidades abertas pelo resultado das eleições de 2018 era a de manutenção da onda ultraconservadora no país, puxada pelo prestígio de Jair Bolsonaro, com reflexos na eleição de 2020. Esse não parece ser mais o caso.

O atual presidente perdeu aliados desde então. Em especial entre setores liberais, nas turmas do mercado e da Lava Jato. Guedes é hoje um ministro enfraquecido e o governo sonha em furar o sacrossanto teto de gastos. Moro se foi e a agenda do Planalto nesta área se resume em tentar conter os danos causados pela família e agregados.

Muitos sonharam, outros tiveram pesadelos, com um exército bolsonarista "puro sangue" disposto a tomar prefeituras pelo país afora — o tempo no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral e os 199 milhões de reais do PSL no fundo eleitoral ajudariam bastante. Mas o presidente rompeu com o partido, viu sua bancada na Câmara rachar ao meio e fracassou na viabilização da alternativa, a Aliança pelo Brasil.

Em uma palavra, um desastre: afinal, o melhor caminho para assumir protagonismo em uma eleição é ter um partido à mão.

Bom, mas agora temos não um, mas os vários partidos do Centrão, um bloco no qual, segundo o General Heleno, se "gritar pega ladrão (...)". Cultura musical a parte, a aproximação com o Centrão foi articulada em um contexto em que se temia o impeachment e pode evoluir para algo mais amplo, mas não resolve a falta de instrumentos eleitorais.

Presidente pode ficar em fogo cruzado do Centrão nas eleições

O problema é que a fragmentação partidária, associada à proibição de coligações nas eleições proporcionais e a uma cláusula de desempenho de 2% em 2022, tende a acirrar a competição entre os partidos.

Dito de outro modo, nestas eleições todas as legendas serão ainda mais incentivadas a preservar e ampliar suas bases obedecendo estritamente a cálculos locais. Isso complica a convivência eleitoral entre os membros do Centrão, bem como entre estes e outros tantos partidos de perfil conservador, e tende a limitar os movimentos do Planalto.

O cenário pode tornar-se mais claro onde houver segundo turno. Mesmo assim o apoio de Bolsonaro dependerá de não haver conflito entre partidos do Centrão ou entre estes e um candidato de perfil igualmente conservador.

Nesse caso, cabe perguntar se Bolsonaro seria um bom cabo eleitoral. Pelo que sabemos, a população encontra-se dividida quanto à atuação do presidente na pandemia.

Atuação do governo na pandemia gera desgaste

Na pesquisa Datafolha realizada em agosto, 47% o isentaram de responsabilidade pelas mais de cem mil mortes, 11% o consideraram o principal culpado e 41% lhe atribuíram alguma culpa. Na XP/Ipespe, realizada entre 8 e 11 de setembro, 49% consideraram sua atuação na pandemia ruim ou péssima, 28% ótima ou boa e 19% regular.

No que diz respeito à avaliação do governo, pela primeira vez desde agosto de 2019 a avaliação positiva supera a negativa nas duas pesquisas citadas e na mais recente do Ibope (17 a 20 de setembro), com o percentual de ótimo/bom variando de 37% a 40%. A pesquisa Ibope revela também que 50% aprova a maneira do presidente governar, ainda que em sete das nove áreas de atuação pesquisadas o percentual dos que desaprovam supere o dos que aprovam com diferenças que vão de 8 a 39 pontos.

Uma pesquisa do Datafolha para a cidade de São Paulo (realizada em 21 e 22 de setembro) mostra que apenas 11% votariam com certeza em um candidato à prefeitura indicado pelo presidente, enquanto 64% não votariam de jeito nenhum.

Cabe lembrar que, na pesquisa de agosto do mesmo instituto, apenas 22% diziam confiar sempre no presidente e 41% afirmavam não confiar nunca - nas seis pesquisas anteriores do Instituto a média do que disseram nunca confiar foi de 40,6% e dos "confiantes" 20,3%.

Dois pontos a se observar

A diferença entre estes índices e os de aprovação, na pesquisa de agosto, salta aos olhos e permite afirmar que se o auxílio emergencial impactou na avaliação do governo, não se pode dizer o mesmo sobre a confiança no presidente.

Tudo somado, dois pontos ficam claros.

Em primeiro lugar, o fiasco da Aliança pelo Brasil fez com que na errática estratégia de Bolsonaro para 2022 a eleição municipal ficasse relegada a um papel residual.

Em segundo, quando vier a ocorrer, o mais provável é que uma sinalização do presidente funcione como variável definidora do voto apenas entre seus apoiadores mais fiéis, o que seria chover no molhado. Mas, é claro, a depender da situação — de que município se trata e do grau de competitividade da disputa — este apoio de Bolsonaro pode influenciar no resultado.

*Carlos Ranulfo Melo é graduado em Geologia (1981), mestre em Ciência Política (1994) doutor em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (1981), e pós-doutor na Universidade de Salamanca (2006/2007). É professor titular do Departamento de Ciência Política e pesquisador do Centro de Estudos Legislativos da UFMG.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.