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A esquerda nas eleições de 2020

Fábio Pozzebon/Agência Brasil
Imagem: Fábio Pozzebon/Agência Brasil
Observatório das Eleições

O Observatório das Eleições 2020 tem como objetivo geral reunir um conjunto de dados empíricos, de natureza qualitativa e quantitativa, sobre o processo eleitoral municipal no Brasil. Aqui você encontra artigos, vídeos, infográficos e outros formatos de conteúdos com análises sobre as eleições de 2020, através de dados originais ou de sistematizações de dados públicos. Oferecemos subsídio acadêmico e explicação pedagógica aos diferentes atores políticos, sociedade civil, comunidade universitária e imprensa para o debate sobre as questões centrais envolvidas no processo eleitoral. Apresentamos de forma didática e comparativa as principais pesquisas e amostras, além de discutir as características gerais do eleitorado. Visamos também tornar acessível as legislações envolvidas em cada um dos assuntos que serão relevantes nas eleições de 2020. Nesse pleito, temos um contexto muito particular e multifacetado. Por isso, aqui você encontrará análises sobretudo dentro destes eixos: Opinião PúblicaGênero e RaçaJustiça e EleiçõesGrupos de interesseFake NewsCidadesGeral O Observatório das Eleições nasceu em 2018 como fruto da cooperação entre cientistas políticos e instituições de pesquisa de renome como UFMG, Unicamp, IESP/UERJ e UnB. É constituído pela reunião do conjunto de equipes de diferentes projetos, dentre eles participantes do INCT/IDDC (Instituto de Democracia e da Democratização da Comunicação), a equipe da Emenda Parlamentar nº 14080008, que se propôs a financiar parte das atividades do Observatório das Eleições, além de contar com o apoio da empresa Quaest Pesquisa e Consultoria.

30/09/2020 04h03

Leonardo Avritzer*

A esquerda brasileira sofreu em 2016 sua derrota eleitoral mais significativa desde o início do milênio. Essa derrota esteve centrada no PT, mas não se limitou a ele. O PT perdeu 59,4% das suas prefeituras, passando de 630 para 259, praticamente o mesmo número que detinha em 2002 quando Lula da Silva foi eleito presidente.

Porém, a derrota em 2016 foi também do PSOL e, em parte, de outras forças de esquerda. Em 2016, o PSOL, com Marcelo Freixo, conseguiu a façanha de disputar o segundo turno na cidade do Rio de Janeiro. Isso chamou a atenção para o partido, mas não relativizou o fato de ter feito apenas duas prefeituras. Ainda assim, a derrota do PSOL foi menor do que a do PT porque conseguiu eleger vereadores de destaques em diversas cidades.

Por fim, o PSB e o PDT acabaram sendo os partidos na esquerda que se saíram melhor com reduções (PSB) ou pequenos aumentos (PDT) no número de prefeituras.

A explicação para o fracasso da esquerda nas eleições está ligada ao curto período entre o impeachment de Dilma Rousseff e o escândalo da JBS. Nesse hiato, PMDB e PSDB usufruíram de certa legitimidade entre os eleitores e apareceram como um "campo ético" em oposição à esquerda.

Essa visão desmoronou a partir da operação da Procuradoria da República contra a JBS, que teve como alvos Temer e Aécio Neves. A partir daí houve uma desmoralização do campo centrista que ainda não chegou ao final. Esse aggiornamento da opinião dos eleitores pode permitir uma recuperação da esquerda em 2020, mas ainda é cedo para dizer se ocorrerá de fato.

Algumas eleições locais irão determinar a força que a esquerda terá a partir de 2020: na cidade de São Paulo, do Rio de Janeiro e em capitais importantes do Nordeste como o Recife, Fortaleza e Salvador.

São Paulo com 14 candidaturas à Prefeitura

As eleições paulistanas são o maior indicador tanto das potencialidades quanto dos problemas da esquerda nesta eleição. O PT governou a cidade entre 2013 e 2016 e foi derrotado sem que houvesse um segundo turno. O PT tem, neste ano, um candidato que representa todos os problemas não resolvidos do partido. Jilmar Tatto é a expressão da máquina política, um candidato com bases na região sul da cidade, mas incapaz de apresentar um discurso de renovação. Tatto tem poucos apoios entre a intelectualidade progressista, o que provavelmente limitará sua capacidade de crescimento.

Ainda mais relevante, Guilherme Boulos surge no horizonte fazendo sombra ao candidato do PT e com apoio inicial de figuras da esquerda como Frei Betto, André Singer, Chico Buarque e Caetano Veloso. Assim, coloca-se o primeiro desafio da esquerda nas eleições: conseguir recuperar espaço com uma candidatura em São Paulo. Os recursos para fazê-lo estão divididos: de um lado, o PSOL parece ter apoio na intelectualidade e na classe média, ao passo que o PT tem recursos do fundo eleitoral e tempo na TV. A questão é se essa divisão continuará e se impedirá uma recuperação possível da esquerda em 2020.

O Rio de Janeiro tem forte presença do judiciário nas eleições

O Rio de Janeiro tem uma situação completamente diferente. A esquerda jamais foi forte na cidade, apesar de ali ter havido vitórias dos ex-presidentes Lula e Dilma. O mais importante é que há uma diferença qualitativa entre Rio de Janeiro e São Paulo. A capital paulista oscila entre o petismo e o antipetismo, ao passo que o Rio teve hegemonia do PMDB e, ao que tudo indica, tem atualmente uma hegemonia do bolsonarismo em aliança com o judiciário.

O período pré-eleitoral mostra o dano que essa aliança é capaz de produzir: a remoção de um governador antes de ele se tornar réu (não vai aqui nenhuma defesa do Witzel); a transformação de Eduardo Paes em réu a menos de 90 dias das eleições e, por fim, a operação contra o advogado do ex-presidente Lula que recebeu o protesto da OAB. Assim, no Rio de Janeiro se coloca um desafio diferente à esquerda: se a forças hegemônicas no estado são capazes de usar a coerção institucional e extra institucional contra os seus adversários.

No Nordeste, a esquerda precisa se unir em algumas capitais

Vale atentar para algumas das capitais do Norte e Nordeste. Destaco aqui Belém, Salvador, Recife e Fortaleza. Em todas o bolsonarismo perdeu as eleições e a esquerda tem candidatos fortes de diferentes partidos. O PT em Salvador, Recife e Fortaleza. O PSOL em Belém e o PSB em Recife.

Em cada uma dessas cidades o bolsonarismo terá candidato forte e a capacidade de a esquerda de se unir em torno de uma candidatura determinará sua resiliência frente ao bolsonarismo. Apenas em Belém PSOL e PT já estão aliados.

Militares e grupos religiosos ocupam um campo antiesquerda?

A esquerda ainda enfrentará dois temas que determinaram sua derrota em 2018: as corporações de segurança e os grupos religiosos. Na eleição de 2018, candidatos na área de segurança pública mostraram viabilidade eleitoral. A maior parte desses candidatos se identifica com o bolsonarismo. Em pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e publicada no dia 7 de agosto de 2020, 41% dos praças dizem apoiar o presidente. A expectativa de um número grande de candidatos policiais militares já é real.

A pergunta é se todas essas candidaturas irão reforçar um campo antiesquerda ou se será possível pensar em candidaturas de membros da corporação militar na esquerda. Ainda é cedo para ter uma visão completa, mas a candidatura da Major Denice para prefeita de Salvador pelo PT pode indicar uma adaptação à realidade dos candidatos corporativos na área de segurança. A ver.

Por último, temos a questão religiosa. Houve de fato um deslocamento dos grupos religiosos na direção da direita. Mas é possível sustentar que não há nada de estrutural nesse posicionamento. Os ex-presidentes Lula e Dilma tiveram o apoio das principais lideranças neopentecostais nas eleições que os consagraram presidentes. A ruptura entre a Igreja Universal e o Partido dos Trabalhadores deu-se durante o impeachment de Rousseff.

No entanto, mudanças importantes desde então tornam improvável uma reorientação de curto prazo dos evangélicos, hoje com agendas conservadora e corporativista mais consolidadas. Ainda assim, a chance de os evangélicos se posicionarem em bloco como fizeram em 2018 parece bastante reduzida e o mais provável é que partam para um conjunto de acordos locais, uma vez que enquanto religião o que os caracteriza é uma forte descentralização.

Assim, ainda que o cenário mais provável para a esquerda nas eleições de 2020 seja uma recuperação em relação a 2016, essa recuperação depende de diversas circunstâncias, a mais importante delas sendo a capacidade de o PT entender a diminuição de seu papel na esquerda e reforçar os candidatos promissores do campo. Até este momento, o PT não tem nenhum candidato em primeiro lugar nas capitais. Apenas em Belém, com a coalizão com o PSOL e a candidatura de Edmilson Rodrigues. Ao mesmo tempo, PSOL, PSB e PDT têm candidaturas com chances reais de vitória. Entender esse novo aspecto de uma frente única informal eleitoral será o aspecto decisivo para a recuperação da esquerda em 2020.

* Leonardo Avritzer é graduado em Ciências Sociais (1983) e mestre em Ciência Política (1987) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutor em Sociologia Política pela New School for Social Research (1993) e pós-doutor pelo Massachusetts Institute of Technology (1998-1999) e (2003). É professor titular do departamento de Ciência Política da UFMG.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.