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Lula mancha entrevista com rancor e passa pano na truculência de Bolsonaro

Lula durante entrevista ao UOL: considerações procedentes acabam manchadas por ressentimento até compreensível, mas inaceitável quando se comanda o maior partido de oposição - UOL
Lula durante entrevista ao UOL: considerações procedentes acabam manchadas por ressentimento até compreensível, mas inaceitável quando se comanda o maior partido de oposição Imagem: UOL
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

27/01/2020 07h59

As pessoas têm direito a seu rancor. Não é diferente com Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República.

Passou 580 dias preso, condenado que foi em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá, e não há — o que inclui Sergio Moro — quem consiga apontar em que página da sentença do ex-juiz aparece a prova da denúncia formulada pelo Ministério Público Federal. Já escrevi aqui que o petista demonstra, na verdade, uma notável resiliência.

Pior: a sentença sem prova foi endossada pelo TRF-4 com agravamento da pena e pelo STJ, com abrandamento. No momento, Lula está fora da cadeia porque, por absurdos 6 a 5, uma maioria do STF decidiu que a Constituição tem de ser aplicada, e, em caso de condenação, a prisão só pode acontecer depois do trânsito em julgado. Por que o placar é absurdo? Porque deveria ter sido de 11 a zero. Assim, reitero, é compreensível que Lula se abrace a seu rancor.

Mas aí cabe a pergunta: o rancor é um bom conselheiro quando se é, na prática, o dirigente máximo e única voz real de comando do maior partido de oposição? A resposta, obviamente, é "não". O petista concedeu uma longa entrevista ao UOL. Disse coisas relevantes. Evidenciou um entendimento que me parece correto e informado sobre o crescimento de fiéis evangélicos no país. Basicamente, considera que as igrejas atuam com mais vigor nas áreas a que o Estado não chega e conseguem estabelecer entre os fiéis um sentido de pertencimento. Não é só isso, claro!, mas é principalmente isso.

Retomou a sua pregação sobre a importância de um mercado interno vigoroso e defendeu que os pobres sejam colocados na equação econômica, relembrando as políticas inclusivas da gestão petista. O ex-presidente está devendo uma explicação adequada sobre erros cometidos pelo governo Dilma, então, que conduziram o país ao colapso econômico e à brutal recessão. Mas vá lá. Anunciou ainda a intenção de viajar pelo país e de se encontrar com representantes da área cultural e do mundo científico. Faz sentido. As duas áreas estão submetidas a obscurantistas de opereta.

Muito bem! Aí vem o rancor... Disse o ex-presidente:
"O que a Globo está fazendo com o Intercept, era capaz que o nazismo não fizesse. Ela só teve coragem de citar o Intercept duas vezes. (...) A Globo não fez sequer matéria contra a fajutice da denúncia do Ministério Público [contra o jornalista Glenn Greenwald, diretor do site]. Então, isso é censura."

Como sabe o leitor, enfrenta-se aqui o debate com clareza. A Globo cobriu, a meu juízo, muito mal o escândalo da promiscuidade ilegal entre o então juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato. O alinhamento editorial da emissora — na verdade, dos veículos do grupo — com a força-tarefa é evidente. Mas as afirmações do ex-presidente não procedem. Houve, sim, várias reportagens sobre o assunto. E a denúncia contra Glenn recebeu o devido tratamento, com a manifestação de especialistas a apontar o despropósito.

A associação com o nazismo, ainda que no terreno da hipérbole, do exagero retórico, é uma bobagem. Tanto pior quando Lula resolve ser compreensivo com as permanentes agressões de Bolsonaro à imprensa:
"Acho que tem crítica que ele faz que é correta. Dê a ele o mesmo direito que dá aos outros, direito de falar, abra para ele falar. Na greve dos jornalistas de 1979, os donos de jornais descobriram que não precisavam tanto de jornalistas, que poderiam fazer jornalismo sem precisar do jornalista. Agora, o Bolsonaro está provando que é possível fazer notícia sem precisar dos jornais, da televisão. Ele faz por ele mesmo. Aliás, o Trump já fez escola...."

Quando é que Bolsonaro, na imprensa, não tem "o mesmo direito de falar"? Ocorre que, nesse caso, o atual e o ex-dirigentes se estreitam num abraço insano. Bolsonaro tem a certeza absoluta de que o jornalismo atua em bloco contra o seu governo — com a eventual exceção das opiniões compradas no mercado das ideias, se é que me entendem...

Ocorre que Lula pensa a mesma coisa. Diz:
"Neste país, muitos dos jornais, das revistas e alguns canais de televisão são tratados com a cabeça de propriedade privada e não com a cabeça de uma instituição que tem como objetivo informar. Informe corretamente e deixe o povo fazer julgamento! Eu tinha queixa, sim. Nós saímos de oito anos de pensamento único favorável ao governo Fernando Henrique Cardoso e passamos por um momento de oito anos de pensamento único contra o Lula."

Nunca houve o tal "pensamento único favorável a FHC". Ele é tão verdadeiro como a "herança maldita" inventada pelo petista para pespegar uma pecha no governo do antecessor. Nunca existiu o "pensamento único contra Lula". Assim como inexiste o "pensamento único contra Bolsonaro".

Reitero: é compreensível que o petista se enfureça com o que eu mesmo chamo de "lava-jatismo" e "morismo" de setores consideráveis da imprensa. A questão diz respeito diretamente a seu próprio destino. Mas daí a confundir as coisas, fazendo uma parcialíssima leitura da história e passando pano na truculência de Bolsonaro na sua relação com o jornalismo, vai uma grande diferença.

O ressentimento é humano. Como instrumento de política, é um caminho para o erro.

Reinaldo Azevedo