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Os colonizadores Guedes e Bolsonaro têm de falar grosso também com grandes

Desembarque de Cabral em Porto Seguro, óleo de Oscar Pereira da Silva, 1922 - reprodução
Desembarque de Cabral em Porto Seguro, óleo de Oscar Pereira da Silva, 1922 Imagem: reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

07/02/2020 17h29

O ministro da economia, Paulo Guedes, com a habilidade política habitual, comparou os servidores públicos a parasitas em uma palestra. Já volto ao ponto.

Este governo tem um problema muito grave, entre muitos: os dois homens mais poderosos do país olham para o país como se fosse uma terra de primitivos a ser colonizada por uma sapiência superior. Quando o presidente Jair Bolsonaro propõe garimpo em terras indígenas e diz que o índio quer o que a gente quer, expressa o seu entendimento sobre tudo o que não se resume a ele, à sua família e a seu grupo de amigos — entendidos, então, como o promontório da civilização.

Ao repetir, como fez, a afirmação racista de um ex-jornalista, segundo quem o Brasil seria uma potência caso se trocasse o seu povo por um outro — tirada intelectualmente inclassificável, dado seu nível de estupidez —, ouve-se a voz do preconceito mais odioso. É como se o "ser brasileiro" se definisse, então, pelo defeito, pela falha, pela ausência de virtudes. E tudo aquilo, então, que caracteriza um "brasileiro" só serviria para infelicitar esta grande terra, ocupada por... parasitas.

Ainda me lembro de Paulo Guedes em maio, quando a reforma da Previdência travou em razão de declarações infelizes de Bolsonaro e da falta de articulação do governo. O doutor afirmou:
"Eu não sou irresponsável. Eu não sou inconsequente. Ah, não aprovou a reforma, vou embora no dia seguinte. Não existe isso. Agora, posso perfeitamente dizer assim: 'Olha, já fiz o que tinha de ter sido feito. Não estou com vontade de ficar, vou dar uns meses, justamente para não criar problemas, mas não dá para permanecer no cargo'. Se só eu quero a reforma, vou embora para casa.'"

Ele estava dizendo que, então, por ora, ia ficando, mas que poderia ir. De novo, aquela perspectiva do reformador-colonizador que chega de fora, com a solução para os problemas da tigrada.

Não fossem, lembre-se sempre, os esforços do Congresso, liderado por Rodrigo Maia (em particular), e Davi Alcolumbre, não teria havido reforma nenhuma. E Bolsonaro já teria sido apeado do poder. Nota à margem: a imprensa, sempre chutada pelo Guia Genial das Milícias em Rede, também teve papel central da aprovação da nova Previdência.

OS PARASITAS
Agora vamos a Guedes. O ministro deu uma palestra nesta sexta na escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV EPGE), no encerramento de um seminário sobre o Pacto Federativo.

E falou esta maravilha ao criticar o reajuste anual de salário dos servidores, que já contam, ele observou, com estabilidade no emprego e aposentadoria generosa:
"Nos Estados Unidos, ficam quatro, cinco anos sem dar reajuste e quando dá todo mundo fica 'oh, muito obrigado'. Aqui, o cara é obrigado a dar [reajuste] porque está carimbado e ainda leva xingamento, ovo, não pode andar de avião".

Guedes sendo Guedes, não pareceu forte o bastante. Mandou ver, comparando o Brasil a hospedeiro que estivesse sendo consumido por um parasita: o servidor!
"O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita, o dinheiro não chega no povo, e ele quer aumento automático".

Guedes disse ainda que o governo gasta 90% da receita com salário. Não gasta. Em 2019, o funcionalismo custou R$ 326 bilhões para uma receita de R$ 698, 28 bilhões. É muito? É um absurdo! Mas o salário dos funcionários da ativa representam 46,7% da receita, não 90%. Nessas coisas, não dá para ir chutando os dados. "Ah, mas e os inativos? Convém não misturar despesas de pessoal com gasto previdenciário.

CONTRAPRODUCENTE E INJUSTO
Vamos ver. Em primeiro lugar, Guedes é contraproducente. A sua afirmação só dificulta a aprovação da reforma administrativa. Como se vê, ele não busca diálogo com aqueles que vão sofrer os impactos da mudança, mas o confronto. E, claro, Maia e Alcolumbre que se virem depois.

Em segundo lugar, os gastos com o funcionalismo podem até aumentar, mas não é verdade que todas as categorias têm reajuste automático todos os anos. A reivindicação pode até existir, mas não a prática.

Em terceiro lugar e talvez mais importante: de quais servidores Paulo Guedes está falando? Há, sim, os que acabam levando uma vida nababesca em razão dos muitos benefícios indiretos. Mas essa não é a realidade de todo o funcionalismo.

Quando se amplia o escopo, incluindo servidores dos Estados e municípios, esbarramos, por exemplo, nos professores. Eles têm, com efeito, uma média salarial acima da iniquidade dos rendimentos dos trabalhadores brasileiros. Mas ganham mal e vivem mal.

VALENTIA COM QUEM?
É preciso saber com quem se é valente, não é mesmo? Já que o ministro está dando uma palestra e demonstra não ter papas na língua, poderia distinguir a elite do funcionalismo dos Três Poderes e do Ministério Público Federal das carreiras mais humildes.

Com 30 anos de serviços prestados, os militares americanos que vão para a reserva recebem 60% do salário. No Brasil, 100%. E, para ser genérico, cumpre lembrar que eles vivem em guerra por lá, não é mesmo? Felizmente, não é o nosso caso.

Ademais, se é para falar de gastos, vamos lá. Reproduzo trecho de uma coluna de Vinicius Torres Freire, da Folha:
"O investimento em obras e compras de equipamentos do governo federal aumentou no ano passado.

Por fora, bela viola: foi surpresa grande, pois se esperava queda feia dessas despesas. Por dentro, pão bolorento: o investimento cresceu porque o governo aumentou em mais de R$ 10 bilhões o capital de três estatais: Emgepron, Infraero e Telebras. Em suma, porque os gastos militares cresceram bem.

A Emgepron é uma estatal da Marinha que, basicamente, faz navios. Em 2019, o governo colocou R$ 7,6 bilhões na empresa a fim de construir corvetas (navios de guerra) e um barco para uso na Antártida.

No total, o gasto federal em investimento foi de R$ 57,3 bilhões no ano passado, 2,3% mais do que em 2018, já descontada a inflação.

Desse total, o Ministério da Defesa ficou com 28,7% (R$ 16,5 bilhões, incluídas as "inversões financeiras" do aumento de capital da Emgepron), um aumento de 36% em relação a 2018. Em segundo lugar ficou o Ministério do Desenvolvimento Regional (R$ 10,5 bilhões), seguido pela Infraestrutura (R$ 9,2 bilhões)."

Lembra o colunista:
"Os gastos militares são pesados quando se leva em conta que as três maiores obras individuais do país são a adutora que leva água da transposição do São Francisco para o interior de Pernambuco (R$ 578 milhões), a Ferrovia de Integração Oeste-Leste, trecho na Bahia (R$ 361 milhões), e a transposição do rio São Francisco para Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte (R$ 251 milhões)."

ENCERRO
É claro que os gastos com o funcionalismo são altos. É claro que é preciso fazer alguma coisa. É claro que uma reforma é necessária.

Mas é preciso, então, ter coragem para comprar as brigas certas. Demonizar uma categoria não resolve o problema. Ao contrário: cria dificuldades adicionais;

Guedes e Bolsonaro precisam parar de olhar o Brasil como um bando de primitivos e parasitas, que precisam ser submetidos a um choque de civilização liderado pela dupla.

Isso nunca dá certo.

Reinaldo Azevedo