PUBLICIDADE
Topo

Morte de Adriano torna operação da Polícia da BA malsucedida por definição

Frame do vídeo que mostra o local em que Adriano foi morto por policiais da Bahia - Reprodução
Frame do vídeo que mostra o local em que Adriano foi morto por policiais da Bahia Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

10/02/2020 09h10

Imagens e vídeos que circulam por aí evidenciam que Adriano Magalhães da Nóbrega foi morto dentro da casa do tal sítio. A perícia será feita. Tudo indica que o criminoso foi surpreendido e, segundo a versão oficial, reagiu ao cerco e foi morto. Dois membros do setor de Inteligência da Polícia Civil do Rio acompanhavam a operação na Bahia. Adriano já havia escapado ao cerco no último dia 31.Vamos ver. O ex-policial não era um ingênuo. Ex-membro do Bope, foi treinado para operações de risco e sabia o que significa estar cercado e reagir a tiros à abordagem. É morte na certa. Teria escolhido morrer depois de ficar mais de um ano foragido, entregando-se a seu destino fatal?

Cumpre dizer aqui o óbvio. Parece-me delirante sugerir que o governo da Bahia tenha resolvido prestar um serviço a Bolsonaro porque, afinal, o PT prefere enfrentá-lo em 2022 a ver nascer um nome do Centro que possa conquistar a direita. Mais um pouco, e nos tornamos todos súditos do "Bruxo da Virgínia" — o tal Olavo de Carvalho, que confunde urinol com comunistas escondidos debaixo da cama.

Mas penso, sim, que o governo da Bahia deve cobrar explicações dos policiais envolvidos na operação. Com a máxima vênia, um foragido com a importância que tinha Adriano — por seus vínculos com a milícia e com a família do presidente — merecia uma operação mais cuidadosa. Obviamente, para o país, ele era muito mais importante vivo. E nada indica que quisesse morrer.

Informa o Estadão:
O ex-capitão do Bope nunca havia falado diretamente com seu advogado, Paulo Emilio Catta Preta, até a quarta-feira passada. Foi quando, preocupado com os últimos movimentos da polícia, ligou para ele e relatou que tinha "certeza" de que queriam matá-lo para "queimar arquivo". A viúva do miliciano também fez o mesmo relato.

Ao Estado, Catta Preta nega que Nóbrega tenha uma pistola austríaca calibre 9mm. Segundo a Polícia da Bahia, o miliciano usou a arma para atirar nos policiais quando foi abordado na manhã deste domingo. O advogado disse que tomará todas as "medidas cabíveis" para que a morte de seu cliente seja investigada de forma independente.

"Eu estranhei ele me ligar, porque nunca havíamos conversado. Me disse que estava ligando porque estava muito aflito, que tinha absoluta certeza de que foram atrás dele não para prender, mas para matar".

Essa operação deveria ter sido meticulosamente planejada e, atenção!, devidamente documentada — afinal, hoje em dia, não há dificuldade nenhuma para filmar cada passo de um cerco policial — para que um homem que era central na apuração da organização das milícias e de sua infiltração no Estado brasileiro fosse preso com vida. Adriano, como se nota, vai levar muitos segredos para o túmulo. E, é evidente, todas as pessoas de bem gostariam de saber o que ele tinha a dizer.

Reinaldo Azevedo