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Bolsonarismo torna outra jornalista um alvo: misoginia e ódio à democracia

A besta da misoginia esmaga mulheres em sua marcha incivilizatória, de que o atual poder no Brasil e promotor e caudatário - Rick Sealock
A besta da misoginia esmaga mulheres em sua marcha incivilizatória, de que o atual poder no Brasil e promotor e caudatário Imagem: Rick Sealock
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

26/02/2020 22h03

Nunca, mas nunca mesmo, devemos cometer o erro de apostar que haverá um recuo, no campo da agressão, da ofensa e do crime, oriundo de Jair Bolsonaro, de seus filhos, da parte de seu ministério que compõe a escória mais asquerosa que a política já viu e das milícias virtuais que lhes dão apoio. Não! Eles sempre serão mais abjetos hoje do que foram no dia anterior e menos do que serão no dia seguinte.

A jornalista Vera Magalhães tornou-se o alvo da vez da canalha toda ao revelar que, num grupo de bolsonaristas que reúne diversos, digamos, tipos de apoiadores do presidente — há lá até aqueles que se confundem ou que são confundidos com profissionais da imprensa —, um empresário se dispôs a financiar caminhões de som para uma manifestação marcada para o dia 15. Mais: afirmou ter feito o mesmo durante a campanha.

A extrema-direita, com o incentivo do presidente e de seus filhos, sob o estímulo original do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete da Segurança Institucional, prega, entre outras aberrações, que os militares intervenham no Congresso e no Supremo.

O que se seguiu reproduz, em parte, a tática empregada por esse bando de asquerosos contra a repórter Patrícia Campos Mello. Nos dois casos, parece, o ódio atinge sua potência máxima porque remete a esquemas de financiamento tanto de campanha como da máquina de difamação a serviço do governo.

Se o presidente comete crime de responsabilidade ao passar adiante vídeos que convocam atos contra os outros Poderes da República, chegando a defender que sejam emparedados pelos militares, a reportagem de Patrícia sobre os impulsionamentos por WhatsApp e a revelação feita por Vera sobre essas operações de financiamento podem remeter a crime eleitoral — a depender da gravidade, há o risco de cassação da chapa que elegeu Bolsonaro e Mourão — e também a crime comum.

Nos dois casos, não é preciso haver a concordância do Congresso para que sejam apurados. Basta, com as evidências à mostra, que o Ministério Púbico tenha vergonha na cara.

A Folha publicou uma reportagem a respeito, de que segue um trecho. Volto em seguida.

A jornalista Vera Magalhães, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura, virou alvo de insultos de bolsonaristas após publicar que o presidente Jair Bolsonaro havia compartilhado no WhatsApp um vídeo de apoio ao ato marcado para 15 de março a seu favor e contra o Congresso.

Em sua conta no Twitter, a deputada federal Alê Silva (PSL-MG) publicou, em resposta a Vera: "E aí, a senhora também está louca para dar... furo".

Após a frase com insinuação sexual, a congressista negou ter tido essa intenção. "Eu falei de 'furo jornalístico'. Talvez eu não tenha sido feliz em completar a frase", disse.

Alê Silva ofendeu a jornalista usando o mesmo termo empregado por Bolsonaro para insultar a repórter da Folha Patrícia Campos Mello no último dia 18.

"Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo [risos dele e dos demais]", disse o presidente, em entrevista diante de um grupo de simpatizantes em frente ao Palácio da Alvorada. Após uma pausa durante os risos, Bolsonaro concluiu: "a qualquer preço contra mim".

Procurada pela Folha, Vera afirma que as ofensas não prejudicarão seu trabalho de jornalismo profissional.
(...)
"Não vou deixar de fazer meu trabalho por nenhuma tentativa de intimidação, por parte de nenhum grupo político. Já vivi isso por parte de outros grupos, mas a intensidade, a virulência e a participação de ministros, parlamentares e outras autoridades são inéditas", completa a jornalista.

Entre os ataques à jornalista Vera Magalhães, que revelou o primeiro vídeo com apoio ao ato do dia 15 compartilhado por Bolsonaro, está o de um perfil de um apoiador do presidente que exibe papéis com dados pessoais dela e exposição de seus familiares. Há ainda montagens com simulação de mensagens trocadas.

No Twitter, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, publicou: "Lançamento para o mercado brasileiro: Playmobil Pinóquio!".

O presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Marcelo Träsel, qualificou o episódio de "atentado grave contra a liberdade de imprensa".

"É um caso muito grave porque, além das ofensas misóginas e machistas, que infelizmente viraram feijão com arroz nos ataques a jornalistas, há nesse caso um 'doxxing', que é a exposição de dados pessoais na internet. Isso embora juridicamente não seja visto necessariamente como um crime, qualquer jornalista entende o recado, e o recado basicamente é uma ameaça à integridade física de sua família", afirmou Träsel.
(...)

RETOMO
Não temos um governo, mas um esgoto a céu aberto. Mais uma vez, o ódio à democracia e à imprensa livre se soma à misoginia.

A exemplo do que se viu com Patrícia, não se trata apenas da agressão a uma jornalista em particular, que está exercendo honestamente o seu trabalho. Estamos diante de um ataque à imprensa livre e independente.

É de se destacar o silêncio eloquente do senhor ministro da Justiça, Sergio Moro, não é mesmo?

Convenham: ele falaria o quê? Evidências de crime que circulam por aí deveriam estar sendo investigadas por seus amigos do Ministério Público Federal. Não estão.

A verdadeira máquina de produzir delinquências supostamente identificadas com uma moral reta nem está ligada primariamente ao bolsonarismo, mas ao lava-jatismo, de que a primeira monstruosidade política é cria.

Tenho, claro!, de lembrar que abri a fila das vítimas de agressões quando uma vazamento, oriundo do MPF e da PF, em 2017, revelou uma conversa minha com uma fonte. Ainda que a conversa não traga uma vírgula que possa remeter a qualquer tipo de suspeição, usaram a safadeza criminosa, acompanhada de uma penca de mentiras, para tentar me desqualificar.

Cumpre notar que a facção do Ministério Público Federal lava-jatista-morista tentou imputar um crime a Glenn Greenwald, que contribuiu, ao lado de parceiros do The Intercept Brasil, para tornar públicas as relações impróprias, promíscuas e ilegais entre o então juiz Sérgio Moro e membros da Lava Jato.

Tenho pesar intelectual por aqueles que pretendem fazer operações mentais insustentáveis do ponto de vista histórico, técnico e ideológico entre o bolsonarismo e o morismo-lava-jatismo. São apenas expressões do mesmo mal: odeiam a democracia, não têm apreço nenhum pelo arcabouço legal, são fanáticos e fascistoides, mas pretextam boas intenções e bons sentimentos.

É evidente que essa estupidez só fortalece a têmpera de Vera e lhe dirá ainda mais da necessidade de seguir fazendo o seu trabalho. Mas não devemos, por isso, dar o assunto por encerrado.

Há, sim, forças organizadas que hoje atuam contra a democracia, contra a imprensa livre, contra uma sociedade de direitos. E, nesse esforço, estão cometendo crimes. E esses crimes têm de ser punidos.

Não esperem nenhum recuo desses delinquentes. Não haverá.

É preciso que a democracia avance sobre eles com a força das leis.

Reinaldo Azevedo