PUBLICIDADE
Topo

General erra feio de novo ao agir como "supernanny" do subversivo Bolsonaro

Reprodução/Twitter
Imagem: Reprodução/Twitter
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

31/03/2020 07h03

Eduardo Villas Boas, ex-comandante do Exército e hoje na reserva, é assessor do Gabinete da Segurança Institucional. Em razão da doença — ele é portador de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) —, trabalha em casa, atuando como um conselheiro. O mal não altera a sua lucidez, daí que se possa e se deva apontar mais um erro cometido pelo agora assessor.

Isolado em seu labirinto, Jair Bolsonaro decidiu procurá-lo. O presidente, como se sabe, decidiu fritar o ministro Luiz Henrique Mandetta em meio àquela que pode ser a maior crise da nossa história. E, para espanto geral, toma essa decisão não porque o ministro esteja fazendo um mau trabalho. Ao contrário: é o bom desempenho do auxiliar que o está incomodando.

O general decidiu publicar uma carta no Twitter em apoio ao presidente. Não é a primeira vez que vai além do razoável. Ainda no comando do Exército, disparou tuítes no dia 3 de abril de 2018 em que, na prática, cobrava que o Supremo mantivesse Lula preso. Um absoluto despropósito. Desta feita, resolveu sair em socorro de Bolsonaro. Leiam a íntegra da mensagem. Volto em seguida.
*
Nosso país vive um momento especial e muito grave.

Tenho visto com preocupação que muitos dos protagonistas não entenderam que uma crise exige sinergia, integração de esforços e a compatibilização de visões de curto e longo prazo.

Precisamos entender que ações extremadas podem acarretar consequências imprevisíveis. Temos, num passado não muito remoto, um evento do qual se pode extrair lições úteis sobre as consequências de paralização [sic] de serviços essenciais, a greve dos caminhoneiros.

Visões e ações extremadas, nesse momento, poderão acarretar um preço elevado a ser pago pelos desassistidos e os que vivem na informalidade.

Aprendi que a virtude está no centro, portanto, é necessária uma visão que tenha como foco a compatibilização de todas as abordagens, as técnicas e as sociais. e as sociais.

Conheço o Presidente e sei que ele não tem outra motivação que não o bem estar do povo e o futuro do país.

Pode-se discordar do Presidente, mas sua postura revela coragem e perseverança nas próprias convicções. Um líder deve agir em função do que as pessoas necessitam, acima do que elas querem.

COMENTO
Vamos lá. Indago: Villas Boas lembrou a Bolsonaro, na conversa, que, se uma crise "exige sinergia, integração de esforços e a compatibilização de visões de curto e longo prazo", cabe, então, ao líder do país comandar esse processo? O presidente da República não segue as diretrizes do seu ministro da Saúde.

De fato, ações extremadas trazem consequências muito ruins. O general seria capaz de citar que governador de Estado tomou a tal "ação extremada"? O general não considera "extremado" que um presidente da República, com elevada chance de estar contaminado pelo coronavírus, caia nos braços da multidão? Ou que, contrariando todo o mundo científico — excetuando-se algumas vozes periféricas —, estimule a livre circulação e concentração de pessoas?

A lembrança da greve dos caminhoneiros vem a calhar: aquela foi uma greve liderada pelo bolsonarismo. E o general sabe disso. Era parte da campanha eleitoral.

Os desassistidos e os que que vivem na informalidade, senhor general, têm de ser, então, assistidos pelo poder público neste momento. Esse é outro consenso mundial a respeito. O senhor seria capaz de citar um país com quem pudéssemos estabelecer um diálogo para aprenderemos, então, uma convivência civilizada e pacífica com o vírus?

O general se dá conta de que fazer a vontade de Bolsonaro corresponderia a entregar muitos milhares de brasileiros à morte, podem chegar a mais de um milhão? O senhor não acha que isso desorganizaria a economia? Quais são, general, os epidemiologistas que o senhor tem como referência ao escrever essa carta?

A VIRTUDE NO CENTRO
Se a virtude está no centro, é justamente esse "centro" que está em operação. Inexiste "lockdown" nos Estados. Mas, a depender da emergência sanitária, ele poderá ser necessário, sim. É o que indica a experiência internacional.

É curioso que um general que confessa que chegou a cogitar a hipótese de uma intervenção militar no país em abril de 2018 — caso a maioria do Supremo respeitasse a Constituição e concedesse habeas corpus a Lula — venha a público para falar em moderação quando os mortos vão se amontoando, os contaminados se contando aos milhares, e essa moderação seja entendida como condescender com a tese tresloucada do presidente, que não encontra paralelo no mundo, amparo na ciência ou abrigo em uma visão humanista e solidária.

A quarentena será ruim para a economia, e isso pode prejudicar os planos de Bolsonaro para a reeleição? É verdade! Mas quantos mortos seriam necessários, general, para que ele não se sentisse ameaçado pelas urnas? A propósito: nesse caso, elas o endossariam?

Mais uma pergunta ao experimentado militar: o senhor está seguro de que um morticínio em massa traria menos prejuízos para a economia do que a quarentena? Não pode estar porque não há teoria ou experiência histórica que justifiquem esse ponto de vista. Com as medidas preventivas em curso, como o senhor pode ver, a desorganização do Estado é grande.

A SUPERNANNY E O SUBVERSIVO
Villas Boas não tem de se comportar como a supernanny de Bolsonaro porque fez parte da elite militar que, mesmo na ativa, acabou aderindo à candidatura do capitão que já quis explodir bombas em quarteis do Exército.

A besteira já está feita, os militares, está posto, não conseguirão corrigi-la — ou manter sob controle o presidente —, e o melhor que podem fazer em defesa das Três Forças é comandar a retirada em massa do governo.

Sejamos conservadores, general, como ensina Samuel Huntington em "O Soldado e o Estado": tarefa de militar não é ficar disputando lugar com civil na política.

O presidente não está enfrentando uma sublevação de subversivos contra seu governo. Não sei se o general reparou, mas subversivo, nessa história, é o próprio Bolsonaro. E, pior, né, general? Ele se comporta como aliado deste ser apátrida, terrível e que não respeita nacionalidades ou Estado nacional: o coronavírus.

Reinaldo Azevedo