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R$ 600: Desrespeito oficial com mais pobres apela à alienação surrealista

Adriano Machado/Reuters e Reprodução - Adriano Machado/Reuters e Reprodução
Adriano Machado/Reuters e Reprodução Imagem: Adriano Machado/Reuters e Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

07/04/2020 17h11

A charada grega, em grego antigo, submetida ao desrespeito com os pobres, continua. Que coisa impressionante!

O pobre muito pobre no país, o desgraçado, vive em tal isolamento econômico, se me permitem a expressão, comendo as migalhas distraídas que caem do sistema, que fica difícil até mesmo lhe prestar uma ajuda. Sim, é difícil! Mas a incompetência e a preguiça tornam tudo pior.

Vamos lá. O ministro Onyx Lorenzoni não é homem que viva apertado. Ele certamente não conhece a carência. Nem para financiar campanhas. Precisou certa feita de R$ 100 mil pelo caixa dois. Levou. Descoberto, ele se desculpou e até tatuou o João 8:32 no braço. São Sergio Moro o absolveu. Para os amigos, a redenção; para os inimigos, a cadeia.

Apareceu outra delação com mais R$ 100 mil. Desta vez, o agora ministro nada admitiu e também nada tatuou. Entre o dinheiro que admite e o que lhe atribuem, em todo caso, com ou sem João, o mundo da carência fica a muitos quilômetros de distância do dotô.

Finalmente saiu um calendário de pagamento para os pobres. Com um particular: os muito pobres ainda ficarão a ver assombrações de fome por tempo indeterminado. Vamos ao calendário da primeira parcela de quem vai realmente ter acesso ao dinheiro:

1: Informais do Cadastro Único com conta na Caixa ou no Banco do Brasil: começam a receber só na quinta, dia 9;

2: Informais do Cadastro Único com contas em outros bancos: começam a receber só no dia 14;

3: Informais, microempreendedores e autônomos sem cadastro: cinco dias depois do cadastramento. Pode ser feito pelo site https://auxilio.caixa.gov.br/#/inicio e pelo aplicativo "Caixa Sistema Emergencial" (disponível para os sistemas Android e iOS). O telefone 111 serve para tirar dúvidas;

4: beneficiários do Bolsa Família: de acordo com sua data de recebimento, a partir do dia 16.

DEMORA
O projeto foi aprovado pelo Senado no dia 30. Bolsonaro só o sancionou no dia 1º. A lei só foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União no dia 2. "Ah, poucos dias..." Não! Muito tempo, dada a urgência.

Muito bem! Nesse caso, fala-se das pessoas que têm conta em banco. Ocorre que muitos miseráveis a valer, os que mais precisam, são uns "desbancarizados". Para estes, o governo ainda está no mais absoluto escuro. Eles teriam acesso a uma conta digital, informa a Folha, que permitirá apenas o pagamento também digital de contas e transferências. Nesse caso, haverá um cronograma escalonado para retirada do dinheiro. Qual cronograma? Ninguém tem a menor ideia.

Então ficamos assim: os mais vulneráveis, que costumam ser também excluídos digitais, vão ter de dar um jeito de se ligar na tecnologia, virar correntistas digitais e só aí conseguir fazer operações também digitais.

É claro que está errado. Mobilizem, deixem-me ver, o Exército. Entreguem aos soldados laptops, com um banco de dados com o CPF dos brasileiros, e façam o pagamento em dinheiro vivo. Trata-se de esforço de guerra. Eis aí: estamos já cansados de ver soldados graduados dando opinião sobre economia, política, cloroquina e assuntos pouco celestes...

No momento, não precisamos que nossos valorosos da pátria opinem sobre o que não lhes compete ou matem pessoas numa guerra de fato. Precisam distribuir dinheiro. Parece uma tarefa até mais agradável. O que não é possível, o que é inaceitável, absurdo, é o ministro Onyx Lorenzoni dizer que não sabe quando o dinheiro chegará a quem mais precisa.

Não é possível termos a democracia com o maior índice de militarização do mundo e dizer candidamente que não dispomos de meios de fazer a grana chegar aos pobres.

Pedro Guimarães, presidente da CEF, diz que eventual liberação imediata de dinheiro para 55 milhões levaria a um colapso do sistema. Entendo. Ninguém quer que o sistema colapse. Mas também é preciso evitar que a vida já colapsada dos muitos pobres se torne insuportável.

Como bem disse o pensador Jair Messias Platão Bolsonaro, o "povo brasileiro é pacífico até demais". Parece que há gente torcendo para que deixe de ser.

É provável que nem haja cálculo ou má-fé nisso tudo. É só alheamento. Essa gente não foi preparada, desde o berço, para pôr o pobre na equação da economia. Afinal, como esquecer a proposta inicial de Paulo Guedes, de doar três parcelas de R$ 200 para a brasileirada? De lá do Ministério da Economia também saiu a MP que previa a suspensão do contrato de trabalho sem compensação financeira nenhuma, lembram-se?

Como diz o outro filósofo, Carlos Sócrates Bolsonaro, sem essa de socialismo, de deixar os pobres dependentes do Estado! Pobre brasileiro é muito pidão. Melhor mesmo é pobre japonês, como já sugeriu certo ex-jornalista.

Reinaldo Azevedo