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O protesto contra Bolsonaro e bons e maus motivos para eventual adiamento

Manifestantes na Avenida Paulista. O coronavírus pede prudência. Mas é preciso estar atento contra o patógeno da fascistização - Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Manifestantes na Avenida Paulista. O coronavírus pede prudência. Mas é preciso estar atento contra o patógeno da fascistização Imagem: Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

05/06/2020 09h13

Vamos devagar com o andor, separando os argumentos que prestam daqueles que não prestam. Movimentos que estão se multiplicando em favor da democracia desencorajam a adesão a manifestações contra o governo Bolsonaro previstas para este domingo. Estão sendo convocadas por grupos ligados a torcidas organizadas e contam com a adesão da Frente Povo Sem Medo. Uma carta de líderes partidários do Senado — todos de oposição, à exceção do PSD — também desestimula o protesto.

Vamos ver. Acato os bons argumentos. Repudio os ruins.

Sou favorável ao distanciamento social, entendo-o como necessário e acho que os Estados erram ao liberar o funcionamento de setores da economia num momento de crescimento de contaminações e mortes. É o contrário do que fizeram os países que experimentaram o contágio em massa.

Logo, por dever de coerência, não creio que seja um bom momento para promover aglomerações. Assim, não acho que protestos sejam prudentes do ponto de vista da saúde. Já está evidente que Jair Bolsonaro tem um encontro marcado com massivas mobilizações tão logo voltemos à normalidade — nem que seja a normalidade possível.

A justeza política dos protestos não anula o risco. O vírus não tem moral ou ética. Não poupa os justos em prejuízo dos injustos; as vítimas em desfavor dos algozes. Então, de fato, não é prudente. A sociedade está viva, está pulsando e diz "não" à fascistização promovida por Bolsonaro. Não será o adiamento do protesto a esfriar os ânimos. Assim, também não estimulo.

Eu mesmo não iria agora a uma manifestação em defesa da democracia e do estado de direito porque sou grupo de risco: estou com 58 anos e sou asmático. Minha mãe está internada, e, creiam, sabemos muito pouco sobre a doença. Não é uma gripezinha. É um mal terrível.

A defesa dos valores democráticos nos quer a todos inteiros e saudáveis. Jamais estimularia alguém a correr um risco que não aceito correr.

A CARTA
Líderes partidários do Senado redigiram uma carta recomendando a não adesão ao protesto. Há ali bons e maus motivos. Eu a reproduzo e comento em seguida:

Nota dos Líderes Partidários do Senado Federal em defesa da VIDA e da DEMOCRACIA"

Os líderes dos diferentes partidos do Senado Federal, a saber a Rede Sustentabilidade, o PSB, o PDT, o Cidadania, o PSD e o PT, vem através desta nota desencorajar os brasileiros que, acertadamente, fazem oposição ao Sr. Jair Bolsonaro a irem às ruas nesse próximo domingo.

Nosso pedido parte da avaliação de que, não tendo o país ainda superado a pandemia, que agora avança em direção ao Brasil profundo, saindo das capitais e agravando nos interiores, precisamos redobrar os cuidados sanitários e ampliar a comunicação com a sociedade em prol do distanciamento social.

Bem certo que a organização de setores da sociedade aqueceu nossos corações de esperança, na certeza de que o Brasil já identificou que a política da presidência da república tem sido devastadora ao país e aliada do Coronavírus. Adiaremos à ida às ruas, pelo bem da população, até que possamos, sem riscos, ocupá-las, em prol da população.

Ademais, observando a escalada autoritária do governo federal, devemos preservar a vida e segurança dos brasileiros, não dando ao governo aquilo que ele exatamente deseja, o ambiente para atitudes arbitrárias.

Entendemos, portanto, que ainda não é o momento, em respeito às famílias de vítimas do Coronavírus e também daqueles que até hoje têm respeitado e com razões, baseado nos melhores estudos científicos, o isolamento como a melhor alternativa de combate à Covid-19. Continuaremos firmes na oposição das mais diversas formas que a situação pandêmica nos permite.

Assinam,
Randolfe Rodrigues, líder da Oposição e da Rede Sustentabilidade do Senado Federal.
Eliziane Gama, líder do Cidadania no Senado Federal.
Weverton Rocha, líder do PDT no Senado Federal
Jaques Wagner, vice-líder do PT no Senado Federal.
Veneziano Vital do Rego, líder do PSB no Senado Federal.
Otto Alencar, líder do PSD no Senado Federal.

RETOMO
Não me incomodo de ver o senador Otto Alencar (PSD-BA) na lista. Até aplaudo. Mas seu partido, o PSD, é hoje o mais vistoso pesque-pague a que recorre Bolsonaro para formar a sua base. Entenda-se: o partido não é uma unidade e sempre teve aquela flexibilidade típica do MDB: abriga aliados e adversários de governos.

O apelo em favor da saúde está correto.

Mas acho inaceitável que se argumente que não se pode dar pretexto a Bolsonaro para atitudes arbitrárias. Isso alimenta a cultura do medo. Expressar-se nas ruas é um direito — que, concordo, não deveria ser exercitado agora por prudência sanitária.

Evitar o protesto para não dar pretexto a Bolsonaro corresponderia a fazer o seu jogo. Ainda que não pareça às vezes, vivemos num regime democrático. O presidente está em sua escalada fascistizante mesmo com as ruas vazias. Há um ano e meio, só a extrema direita vai à luta. Luta de destruição. Suas pautas são invariavelmente antidemocráticas.

HÁ BOAS E MÁS RAZÕES PARA NÃO FAZER ALGUMA COISA. Não protestar para não dar mole ao coronavírus é uma boa razão. Deixar de ir à manifestação temendo a reação do presidente é uma má razão.

Mais: reprovo o argumento de que um protesto, agora, ofenderia a memória dos mortos e o sentimento de seus familiares. Seria como igualar uma manifestação em defesa da democracia — acompanhada da justa indignação com o comportamento criminoso do governo federal na pandemia — a uma daquelas patuscadas fascistoides, que negam os riscos da pandemia e pedem o fechamento do Congresso e do Supremo. Aquilo, sim, é desrespeito.

Em razão da escalada do número de doentes e de mortos, acho a manifestação inoportuna. Deveria ser repensada. É impossível manter distanciamento social em atos assim. Mas não haveria desrespeito nenhum às vítimas — muito pelo contrário! —, e não se deve cair no jogo de pagar com medo às ameaças.

CUIDADO!
Se manifestação houver, é, sim, preciso tomar cuidado com agentes provocadores. Tentarão provocar a reação violenta da polícia para colar naqueles que se opõem a Bolsonaro a pecha de truculentos.

E, como se sabe, truculento mesmo é querer fechar os Poderes da República ou sobrevoá-los num helicóptero militar.

Sem querer ser retórico, observo: pode-se, sim, não ir às ruas por coragem. Só não vale não ir às ruas por covardia.

RECOMENDAÇÃO
Se protesto houver -- o prudente é que não haja -- use seu celular ou sua câmera para filmar, para posterior identificação, a eventual ação de violentos. Com ou sem farda.

Um dos deveres de quem se manifesta é manter intacto o patrimônio público ou privado. Um dos deveres da Polícia é garantir a segurança dos manifestantes.

Reinaldo Azevedo