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A verdade é que Bolsonaro não foi suficientemente reacionário para Moro

Sergio Moro e Jair Bolsonaro: ambos jogaram o jogo perigoso do oportunismo na esperança de poder manipular o outro - Marcos Oliveira/Agência Senado; Fernando Frazão/Agência Brasil
Sergio Moro e Jair Bolsonaro: ambos jogaram o jogo perigoso do oportunismo na esperança de poder manipular o outro Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado; Fernando Frazão/Agência Brasil
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

06/07/2020 08h04

Sergio Moro, pré-candidato à Presidência da República, concedeu uma entrevista à Globo News na noite deste domingo. De saída, pergunto: "O que há de errado com esta palavrinha de três letras e um til: 'não'?" Por que digo isso? Indagado se vai postular a Presidência em 2022, ele preferiu a tangente, que costuma ser o lugar do discurso dos políticos — não de todos, claro!. Só daqueles mais afeitos à enganação. Preferiu responder:

"Eu quero continuar a contribuir para o país de alguma forma, para que a gente possa avançar. Inclusive quando eu faço críticas ao governo atual, que fique claro que eu quero fazer isso de uma maneira construtiva pra gente poder avançar".

Poderia contribuir com o país, como faz a esmagadora maioria das mulheres e homens, de outro modo: arrumando um emprego honesto, pagando seus impostos, comportando-se dentro da lei. Mas a gente vê que ele já é outra coisa. Trata-se de um político que quer estrear no mundo dos votos disputando, de cara, a cadeira presidencial. A modéstia nunca foi um defeito seu.

Ah, não! Em si, nada há de ilegal nisso, é claro! Está no pleno gozo dos seus direitos políticos. Feio é escolher o caminho da enrolação.

Moro, que está na origem do levante no Ministério Público contra Augusto Aras, procurador-geral, exaltou a Lava Jato na entrevista — na verdade, defendeu a existência de forças-tarefa, evocando o modelo italiano. Declaradamente, ele quis liderar uma Operação Mãos Limpas com cor local. Tanto na Itália como aqui, uma forma peculiar de combate à corrupção destruiu a classe política, permitiu a ascensão de pistoleiros e transformou juízes e procuradores em vedetes. E a máfia? Aproveitou para se modernizar e vai muito bem. Esse aggiornamento está em curso por aqui também, com os nossos bandidos.

Afirmou sobre a relação de Aras com as forças-tarefa:
"Acho que é algo plenamente superável, desde que seja tratado aí com serenidade. Acho que o procurador-geral da República tem condições de restabelecer esse diálogo e apoiar as forças-tarefa porque o combate à corrupção depende de uma harmonia no Ministério Público".

Dá para perceber a serenidade de Deltan Dallagnol, seu aliado, que coordena a franquia paranaense da operação: denunciou a subprocuradora-geral Lindora Araújo à Corregedoria, fez estardalhaço na imprensa, acusou interferência indevida da Aras na Lava Jato... Três de seus aliados deixaram a PGR e fizeram questão de sair atirando.

Os "amigos" da Lava Jato plantam na imprensa dia sim, dia também que Lindora é só um braço de Aras e do bolsonarismo tentando pôr fim à independência da operação. É mentira! Vai ver a isso Moro chama "moderação"...

A ideia-força para se lançar autonomamente na política, agora não mais associado ao ex-chefe e em oposição a este, está clara. Vai insistir em assustar o país com o dragão da corrupção. Pretende atrair parte do eleitorado que optou por Bolsonaro e as camadas mais pobres com a bandeira da moralidade. Continua a se oferecer como o Santo Guerreiro.

Como resta óbvio, combate à corrupção não é programa de governo, mas obrigação. Se o país caísse de novo nessa armadilha, aí seria mergulho sem volta no caos.

O ex-juiz e ex-ministro continua empenhado em limpar a sua biografia, fazendo de conta que foi um crítico do governo dentro do governo e que, de verdade, nada tem a ver com Bolsonaro. Chega a ser constrangedor. Diz ter pensado, sim, em deixar antes o Ministério da Justiça. E cita como marco desse desgosto o fato de ter triunfado o pacote anticrime da Câmara, não o seu. O presidente não fez os vetos que ele esperava.

É a parte mais politicamente pornográfica da entrevista. Moro queria o veto ao juiz de garantias, que, como resta claro, é uma... garantia! Também queria ver seu então chefe atirando contra a nova lei que pune abuso de autoridade, que é um avanço democrático. E não custa lembrar que seu texto original mudava por projeto de lei competência de juiz eleitoral, o que só pode ser feito por Lei Complementar, e pretendia, por legislação ordinária, alterar o que dispõe a Constituição sobre presunção de inocência, que é cláusula pétrea e não pode ser objeto nem de emenda. Não bastasse, o seu pacote trazia a excludente de ilicitude, que é a licença para matar pretos e pobres.

O fato de parte da imprensa ainda passar pano para Moro e para a Lava Jato é evidência da degradação intelectual destes tempos.

Moro e seus aliados na imprensa digam o que lhes der na telha: o fato é que Bolsonaro não foi reacionário o suficiente para o seu gosto.

Reinaldo Azevedo